Dada a minha memória tropicalizada há coisas que descompreendo. Sento-me na praia e gelo. Vou fazer uma caminhada como se fosse na Kipola e volto a espirrar que nem um fanhoso a desconseguir falar de tanto tchim seguido.
Dizem que a primavera chegou. Dizem que foi no 21 de Março. Foi o professor Resende em Geografia que me disse nesse tropical tempo de faz tempo. Mas na verdade, depois de ter feito horas de avião em direcção ao polo norte, ainda ando de cachecol emocional e meias térmicas espirituais. O calendário garante que já devíamos estar a espirrar por causa das alergias, mas o que me faz espirrar é mesmo o vento gelado que entra pela janela ou pelas frestas da malha do casaco.
A primavera, no meu imaginário, é aquela estação simpática, cheia de flores, passarinhos e pessoas felizes a correr em câmara lenta num anúncio de tv. Mas este ano decidiu fazer-se de difícil. Em vez de flores, temos… arrepios. Em vez de passarinhos, temos dentes a bater num ritmo que nem rock. E em vez de correr na rua, o máximo que faço é correr para dentro de casa.
É um inverno disfarçado. Um infiltrado meteorológico. Um frio que olhou para o calendário e disse: Primavera? Não me parece. Ainda tenho uns assuntos pendentes. E ficou. Instalou-se. Trouxe as nuvens, a chuva miudinha e aquele vento traiçoeiro que parece dizer: Não te esqueças de quem manda aqui.
Que saudades tenho do vento leste que a minha avó almadiçoava.
O problema é que nós, ingénuos, já tínhamos guardado os casacos mais pesados. Fizemos aquele ritual anual de mudança de armário, cheio de esperança e alguma arrogância, como quem diz: Até para o ano, frio. Pois. Resultado: estamos agora a usar t-shirts por baixo de camisolas, por baixo de casacos, por baixo de um certo arrependimento.
E depois há a confusão emocional. Uma pessoa acorda, olha para o sol e pensa: Hoje é dia de primavera! Sai de casa com um sorriso e uma leveza no vestir… e cinco minutos depois está a questionar todas as decisões da sua vida. Porque o sol está lá, sim senhor mas é um sol decorativo, daqueles que não aquece, só enfeita.
As plantas também estão baralhadas. Algumas já começaram a florir, corajosas, otimistas, quase ingénuas. Outras estão a olhar para o céu como quem diz: Eu não me meto nisso. Já vi este filme. E fazem bem. Porque nesta primavera com tendências de inverno, até as flores precisam de resiliência emocional.
Só me faltava mesmo andar de guarda-chuva, óculos de sol, casaco e cachecol a contrariar os chinelos que me apetece calçar.
Acho que com essa coisa das alterações climáticas acabaram com as estações e agora temos apeadeiros meteorológicos.
Mas primavera que é primavera, mesmo atrasada, tem de aparecer. Nem que seja só para nos lembrar que, afinal, o inverno também se cansa. E quando isso acontecer, vamos todos fingir que sempre acreditámos. Afinal, ninguém gosta de admitir que foi apanhado desprevenido… outra vez.
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