Mas a verdade é que existir consome-me, esgota-me e a factura da vida está demasiado cara para eu não fazer da vida uma coisa que valha a pena. De vez em quando, tenho de me auto-infantilizar para não entrar em curto-circuito. Outras vezes viro programa de rádio e outras ainda mandam-me para o raio que me parta e na verdade ainda não o encontrei.
Parece que o mundo se uniu para me irritar, se não foi assim que o Rui Veloso cantou, pouco diferente terá sido.
As pessoas esperam sempre que eu fale como um autor de bestsellers, um bibliógrafo, um eurodito, quando na verdade mal consigo formular um bom bom dia sem dar erros na gramática, ou dar um simples nó na língua que até parece tenho sopa de massa dentro da boca. Já nem sei se as histórias que conto sonhei, ou aconteceram mesmo ou se preciso de medicação porque entrei em delírio. Penso a 200 km/h e já não sei se alguém roubou a régua e o esquadro aos engenheiros ou sou só eu a fazer geometria na memória. Agora é tudo cheio de elipses. Clips! Claramente desenhadas para eclipsar a malta anonimamente das estórias que eu sei que aconteceram mesmo que não sejam reais.
Pular de laje em laje, ao pé coxinho, feito um miúdo hiperativo que bebeu café a mais na fonte luminosa não parece próprio para a minha proveta idade..
Mas não se enganem, isto exige uma logística militar. Saber a que hora exata o carro passa, com ela lá dentro, naquele passeio de fim de tarde ritualístico exige mais concentração do que um exame de neurocirurgia. E, honestamente, uma quantidade absurda de sorte para não ser atropelado no processo nem me perder nesta confusão mental de querer contar tudo tim por tim num parágrafo para não gastar tinta nem tempo.
A D. Elsa já veio à varanda fazer disse qualquer coisa, mas na verdade ignorei-a olimpicamente. Nem um adeus simpático lhe fiz. Ela estava quase de certeza a mandar vir comigo. Do Grémio? Ninguém saiu para ver se eu tinha finalmente enlouquecido por amor. Malta ingrata. Estou aqui a dar um espetáculo de contorcionismo gratuito na curva-contracurva do circuito das memórias e nem uma palmadinha nas costas nem um incentivo ao fervor..
Aqui estou eu, sozinho, a jogar à macaca em cima de lajes que são mais rugosas e abrasivas do que lixa, pronto para me lixar todo . Um deslize com a perna nua e faço uma depilação forçada até ao osso. Mas hey, ao menos as quedas escondem as minhas crises existenciais e as minhas filosofias baratas de trazer por casa.
Olhando para a avenida que nunca mais acaba, chego à conclusão científica de que viver dá um trabalho desgraçado. Amar desamado ainda mais. Descrever a minha própria vida parece-me um exercício de egoísmo digno de uma panela de pressão prestes a saltar a válvula sob o assobio estridente do vapor. Chegado ao capítulo 30 desta coleção de embaraços públicos, apetece-me só meter um ponto de exclamação, parágrafo, e gritar que viver é difícil como o raio!
Morrer? Ah, morrer seria super poético, muito cool, mas dramaticamente fácil demais. E eu não quero facilidades nesta comédia romântica falhada. Metade desta cidade geométrica é minha família; a outra metade podia ser, se eu tivesse a decência de me apaixonar por alguém daqui e assentar a cabeça.
Tudo seria mais simples se eu tivesse ido patinar para o ringue do parque infantil. Ao menos lá chateava o Sr. Sousa, que já me conhece as costelas todas de tantas vezes que mas teve de endireitar com as suas milagrosas ventosas.
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