recomeça o futuro sem esquecer o passado

8 de junho de 2026

um dia diferente na praia

Tem gente que vai na praia para nadar. Outras para apanhar sol e ficar assim que nem torresmo curado ou só mesmo cor de camarão cozinhado. Eu vou para desenvolver uma relação de respeito mútuo com as alforrecas, pica-pica, as garinas e quem sabe fazer mergulhos de figura artística que às vezes só sai da forma estatelado.

O meu plano é simples. Acordar cedo, vestir os calções mais optimistas que tenho, pegar na toalha e rumar à praia com aquele entusiasmo de quem acredita que a vida ainda lhe deve alguns mergulhos felizes.

O dia está sempre perfeito. Céu azul, mar azul, pessoas felizes e gaivotas a fazerem aquilo que fazem melhor: parecer que estão sempre a criticar alguém e de vez em quando deitam bombas que nem a aviação. Se estiver vento, mantem-se a perfeição do dia com a derivação que é jogar à bola.

Chego à areia e sinto logo aquela felicidade especial que só existe nos primeiros cinco minutos de praia, antes de descobrirmos que a areia está demasiado quente para caminharmos sem chinelos e o vento está demasiado forte e não há espaço livre para jogar a bola, porque está muita gente.

Olhei para o mar. Magnífico.

Foi então que alguém me gritou.

- Atenção: presença de alforrecas em barda.

O meu entusiasmo entrou imediatamente em modo de poupança de energia.

Uma alforreca é um ser extraordinário. Não tem cérebro, não tem coração, não tem ossos e, mesmo assim, consegue estragar as férias de uma praia inteira. Há políticos que invejam essa eficácia.

Fiquei ali, à beira-mar, a analisar a situação, a ponderar as minhas premissas, a contar os meus enganos e desenganos.

Os adolescentes mergulhavam heroicamente. Alguns senhores mais velhos nadavam como se estivessem a treinar para atravessar o Atlântico, num paralelo á costa

Eu observava tudo com a prudência de um entendor.

Molhei um pé.

Nada.

Molhei o outro.

Também nada.

Avancei mais dois passos.

Foi nesse instante que alguém saiu da água a dizer:

- Cuidado! Acabei de ver uma!

Pronto.

Terminou a minha carreira aquática daquele dia.

Recuar não foi cobardia. Foi uma retirada estratégica. Os grandes generais da História também recuavam. Eu recuei até à toalha. Olhei em volta e procurei o guarda-sol azul. Alforrecas e pica-pica no mar e na areia gente muita mas sem o tal guarda-sol azul.

Ali fiquei durante horas a vigiar o oceano como se fosse guarda-costas da areia com ar de desilusão.

De vez em quando aparecia alguém a dizer:

- Nem picam muito.

Essa frase nunca me tranquilizou.

É como dizer a alguém:

- O leão só morde um bocadinho.

Ou:

- O paraquedas costuma abrir.

Ou ainda:

- O dentista hoje parece bem-disposto.

Não inspira confiança.

Por isso passei a tarde inteira a fazer atividades alternativas fui para casa, arrumei livros e cadernos e preparei-me para um tempo de solidão.

Em casa alguém perguntou:

- Então, a água estava boa?

Respondi com toda a sinceridade:

- Não faço ideia. Hoje tive uma relação exclusivamente visual com o mar e uma desilusão com a areia..

E assim terminou mais um dia de praia.

Porque há uma idade em que percebemos uma grande verdade da vida: não temos de provar coragem a uma alforreca ou a um pica-pica, nem lamentar um amor desamado.


Sanzalando

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