Tem gente que vai na praia para nadar. Outras para apanhar sol e ficar assim que nem torresmo curado ou só mesmo cor de camarão cozinhado. Eu vou para desenvolver uma relação de respeito mútuo com as alforrecas, pica-pica, as garinas e quem sabe fazer mergulhos de figura artística que às vezes só sai da forma estatelado.
O meu plano é simples. Acordar cedo, vestir os calções mais optimistas que tenho, pegar na toalha e rumar à praia com aquele entusiasmo de quem acredita que a vida ainda lhe deve alguns mergulhos felizes.
O dia está sempre perfeito. Céu azul, mar azul, pessoas felizes e gaivotas a fazerem aquilo que fazem melhor: parecer que estão sempre a criticar alguém e de vez em quando deitam bombas que nem a aviação. Se estiver vento, mantem-se a perfeição do dia com a derivação que é jogar à bola.
Chego à areia e sinto logo aquela felicidade especial que só existe nos primeiros cinco minutos de praia, antes de descobrirmos que a areia está demasiado quente para caminharmos sem chinelos e o vento está demasiado forte e não há espaço livre para jogar a bola, porque está muita gente.
Olhei para o mar. Magnífico.
Foi então que alguém me gritou.
- Atenção: presença de alforrecas em barda.
O meu entusiasmo entrou imediatamente em modo de poupança de energia.
Uma alforreca é um ser extraordinário. Não tem cérebro, não tem coração, não tem ossos e, mesmo assim, consegue estragar as férias de uma praia inteira. Há políticos que invejam essa eficácia.
Fiquei ali, à beira-mar, a analisar a situação, a ponderar as minhas premissas, a contar os meus enganos e desenganos.
Os adolescentes mergulhavam heroicamente. Alguns senhores mais velhos nadavam como se estivessem a treinar para atravessar o Atlântico, num paralelo á costa
Eu observava tudo com a prudência de um entendor.
Molhei um pé.
Nada.
Molhei o outro.
Também nada.
Avancei mais dois passos.
Foi nesse instante que alguém saiu da água a dizer:
- Cuidado! Acabei de ver uma!
Pronto.
Terminou a minha carreira aquática daquele dia.
Recuar não foi cobardia. Foi uma retirada estratégica. Os grandes generais da História também recuavam. Eu recuei até à toalha. Olhei em volta e procurei o guarda-sol azul. Alforrecas e pica-pica no mar e na areia gente muita mas sem o tal guarda-sol azul.
Ali fiquei durante horas a vigiar o oceano como se fosse guarda-costas da areia com ar de desilusão.
De vez em quando aparecia alguém a dizer:
- Nem picam muito.
Essa frase nunca me tranquilizou.
É como dizer a alguém:
- O leão só morde um bocadinho.
Ou:
- O paraquedas costuma abrir.
Ou ainda:
- O dentista hoje parece bem-disposto.
Não inspira confiança.
Por isso passei a tarde inteira a fazer atividades alternativas fui para casa, arrumei livros e cadernos e preparei-me para um tempo de solidão.
Em casa alguém perguntou:
- Então, a água estava boa?
Respondi com toda a sinceridade:
- Não faço ideia. Hoje tive uma relação exclusivamente visual com o mar e uma desilusão com a areia..
E assim terminou mais um dia de praia.
Porque há uma idade em que percebemos uma grande verdade da vida: não temos de provar coragem a uma alforreca ou a um pica-pica, nem lamentar um amor desamado.
Sem comentários:
Enviar um comentário