Quando tinha para aí uns doze ou treze anos, decidi que o meu destino estava traçado: ia ser homem da rádio.
Não foi uma decisão muito pensada. Foi uma daquelas revelações súbitas que acontecem aos adolescentes. Há quem descubra que quer ser astronauta, futebolista ou cantor romântico. Eu descobri que queria falar para um microfone, já que andar na lua não era coisa rara para mim porém a bola com ar era coisa que me atrapalhava os movimentos e conseguia fazer-me cair assim dum nada.
O problema era um pequeno detalhe que era a opinião da minha família era contrária à ideia, já que eu não tinha grande jeito para estar calado nem grande vontade para esperar respostas.
Mas mesmo assim, avancei.
Lá fui na Rádio da cidade e deram-me o lugar de estagiário do som. Agudos e graves não eram o meu forte e ouvido para instrumentos era coisa que me faltava e muito. Mas todos os dias lá estava, porque todos os dias eu treinava. E brincava na cabine do estúdio fechado, nas horas mortas de fitas e bobinas.
- Boa tarde, ouvintes! Aqui fala o famoso locutor internacional... bem conhecido na minha rua.
Eu não desistia.
Ao director de produção eu inventava programas. Ele dizia que não. Semana seguinte outro e o não era garantido.
Um dia aconteceu o milagre. Não apareceu ninguém para abrir a emissão. Eu tinha tudo ligado. Faltava a voz. Aquela voz que diz bom dia, que lia o movimento marítimo e dizia a programação do dia. Um director telefone a saber o que se passava e eu respondi ao telefone:
- O locutor não chegou!
Aos berros ouvi:
- Abre tu essa M"#DA!!!!!
Tinha luz verde e abri.
Na segunda vez que abri o microfone disse:
- A Câmara Municipal, recebe em carta aberta fechada e lacrada proposta para banca no mercado.
Ao notar o que eu tinha dito que é que fiz?
Ri alto e esqueci desligar o micro.
Passaram-se mais dois meses até ter ordem de abrir o micro outra vez.
O curioso é que, muitos anos depois, continuo a achar que a rádio tem magia.
A diferença é que agora tenho um microfone verdadeiro, que abro nos dias marcados, nuns programas idealizados por mim.
Embora, às vezes ainda me apeteça entrevistar um urso de peluche, calçar uma pantufas e ouvir uma boa música sem ter que a escolher.
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