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21 de fevereiro de 2026
fui na praia azul com a família
20 de fevereiro de 2026
Fui eu que fiz isto
Na minha cidade de imaginação é verão e verão comigo é brincar na praia. Brincar na praia é o único desporto radical onde um indivíduo de mais de 40 anos pode passar três horas de rabo para o ar, a cavar um buraco sem nexo, e ainda ser considerado uma pessoa normal pela sociedade em redor e mais longe também.
Há uma mística na areia que suspende o juízo crítico. Mal pomos o pé na areia quente, o suficiente para estrelar um ovo, obrigando-nos àquela dança caricata e tribal de quem pisa brasas até chegar à toalha, o nosso QI regride alegremente para os seis anos de idade ou menos.
Tudo começa com a construção do Castelo. Nunca é apenas um castelo que tem um fosso a toda a volta, torres autossustentáveis embora toscas, fossos com ligação direta ao Atlântico e uma muralha capaz de deter a qualquer invasão anfíbia. Na Realidade é um monte de areia húmida que parece um pudim que correu mal, decorado com três beatas de cigarro e uma casca de ameijoa ou quitéta partida.
A tragédia grega acontece quando a maré sobe. Há sempre um momento de pânico coletivo quando a primeira onda lambe a fundação. É aqui que vemos homens feitos, licenciados e com contas para pagar, a tentar deter o oceano atlântico com uma pá de plástico amarela que custou 2 euros na loja do Camonano. O mar ganha sempre. O mar é o maior destruidor da engenharia civil.
Depois temos os clássicos das modalidades de praia, que deviam constar nos Jogos Olímpicos da Paciência: o futebol, um desporto desenhado para garantir que, a cada três jogadas, a bola acerta na nuca de uma senhora que está calmamente a ler o seu romance ou o jogador atropela uma criança que inconscientemente brinca à beira mar, e que tem como objetivo meter golos e pedir desculpa 47 vezes por hora. Ao que se segue o mergulho estilo croquete, aquele momento em que decidimos entrar no mar, mas a água está a uma temperatura que faz os pinguins pedirem um aquecedor. Ficamos ali, a molhar os tornozelos, a tentar convencer o cérebro de que "depois de entrar, está-se bem". Não está. É mentira. e terminamos com a apanha da concha em que caminhamos quilómetros com o pescoço dobrado, como se estivéssemos à procura de uma nota de 50 escudos, apenas para trazer para casa um saco de pedras calcárias que, no dia seguinte, cheiram a peixe morto e acabam no lixo.
A brincadeira acaba sempre com o pior inimigo da humanidade, a areia acumulada. Brincar na praia implica aceitar que a areia é agora um novo membro da família. Ela vai estar no carro, vai estar nas orelhas, vai estar dentro da sanduíche de fiambre e, misteriosamente, vai aparecer nos lençóis da cama em dezembro.
No fundo, brincar na praia é um exercício de humildade. Ficamos queimados pelo sol em lugares onde nem sabíamos que tínhamos pele, bebemos mais água salgada do que seria medicamente recomendável e acabamos exaustos. Mas nada bate a satisfação de olhar para um buraco gigante na areia e pensar: "Fui eu que fiz isto."
19 de fevereiro de 2026
hoje mergulhei na praia
Fui hoje para a praia com ar determinado. O mar estava azul, calmo, com aquela aparência enganadora de sopa morna. Tirei a camisa, estiquei os braços, alonguei o corpo e como se fosse protagonizar um documentário da Tv que nunca vi e avancei.
Primeiro passo: água pelos tornozelos.
Segundo passo: água pelos joelhos.
Terceiro passo: lembrei que não é assim pelo que veio o arrependimento.
Aquele Atlântico, meus amigos, não é uma piscina e nem eu sou Mapundeiro para achar a água fria boa para mergulhar. É uma entidade com personalidade própria. Na minha terra o mar não está frio, está em modo teste de caráter. Quando a água me chegou à cintura, senti que todos os pecados da minha adolescência estavam a ser perdoados à força.
Mas eu tinha decidido mergulhar. Havia crianças de seis anos a fazer cambalhotas aquáticas ao meu lado. Um senhor mais velho nadava com elegância olímpica. Não podia voltar atrás na minha decisão. Voltei para a areia, respirei fundo, fiz aquela contagem mental de atleta profissional um, dois, três e corri para o mar e mergulhei.
Durante dois cagagésimos de secundo fui um pássaro voando elegantemente sobre a espuma do mar. No terceiro, engoli meio litro de oceano ao bater de chapa e no quarto, perdi completamente o sentido de dignidade. Emergi a tossir, com o cabelo colado à testa, enquanto uma onda mais pequena do que a minha autoestima me batia na cara gargalhando.
Tentei recuperar a compostura. Fiz um segundo mergulho, desta vez mais calculado e compassado. Resultado: areia em sítios que a anatomia não previa.
E é nesse momento que acontece sempre o fenómeno social da praia que é toda a gente parece que está a olhar. Não estão, claro, disfarço eu. Mas nós sentimos que sim. até parece estou a ouvir um qualquer apanhador de sol profissional a comentar:
- E ali vemos um exemplar, claramente urbano, a lutar contra 17 graus de temperatura da água.
Decidi sair com dignidade. O problema é que o mar não aceita despedidas formais. Quando virei costas, uma onda traiçoeira empurrou-me, tropecei, fiz meio mortal involuntário e saí da água numa posição que só pode ser descrita como foca desastrada.
Já na toalha, a tremer, declarei solenemente:
- Amanhã volto a mergulhar.
Vou fazer mais como se eu gostaria de saber mergulhar mas o mergulho no mar humilha-nos, congela-nos, desorienta-nos… mas deixa-nos com uma sensação heroica. Sobrevivemos ao Atlântico. Não ganho medalhas, mas ganho histórias.
18 de fevereiro de 2026
Programa K'arranca às Quartas 106
eu e o mergulho imperfeito
Diz o ditado que "para baixo todos os santos ajudam", mas quem nunca tentou um mergulho ornamental sem saber a técnica sabe que, na verdade, a gravidade é um mestre muito rigoroso.
Tinha para aí os meus 14 ou quinze anos e tinha como plano simples: impressionar. O cenário era o a ponte velha de uns três metros de altura da minha praia. Muitos mergulhavam em grande estilo, muitos olhavam, incluindo eu. Foi então que pensei que seria capaz e com isso impressioná-la. Rodeado por espectadores que tinha certeza de que estavam a ver porque diziam que eu era capaz e coisas que só um gajo forte consegue resistir. E estavam a assistir e a incentivar, mas talvez não pelos motivos que eu imaginava.
No ângulo direito da ponte fiquei como que em sentido e sentindo a confiança de um mergulhador olímpico. Olhei para baixo, a água cristalina, vista de cima, pareceu-me subitamente sólida. Olhei para ela, que estava aí a uns 50 metros na areia, de mãos na cabeça e com os lábio a dizer qualquer coisa que os meus ouvidos não ouviram.
Memorizei cada passo da técnica que tinha visto os mais velhos fazerem. Braços esticados por cima da cabeça como se fizessem um v invertido, flecti ligeiramente os joelhos para me dar balanço para a altura, lá em cima teria que fazer um golpe de rins e cair na vertical perfeita.
No momento em que os pés perderam o contato as tábuas velhas da idosa ponte, a física assumiu o controle. No ar, o cérebro entrou em paragem, em vez de manter o corpo recto no ascendente tentei recuar numa trajetória de desistência no meio do caminho. O resultado foi uma posição corporal que os especialistas poderiam chamar de desesperado.
O silêncio cerebral foi interrompido por um som seco, um estalo que ecoou como um tiro: O famigerado mergulho de barriga.
Enquanto afundava, não como uma flecha irrompendo até ao fundo, mas mais como uma folha de papel amassada, sentia o ardor na pele da barriga. A água não me recebeu, ela me esbofeteou de chapa inteira. Ao emergir, a barriga exibia um tom de vermelho camarão faria inveja a um qualquer tomate maduro. Nadei até à praia e a saída da água não teve nada de cinematográfico não apoteótico. Foi uma luta frenética para encontrar a um lugar seguro enquanto tentava manter a dignidade de não se ter passado nada.
Um senhor abeirou-se de mim e comentou:
- Nota 2 pelo esforço, mas nota 10 pela som. Parecia uma salva de palmas de uma pessoa só.
Ela, deixei de a ver e a partir daquele instante comecei a pensar que a água tem memória e por isso passei a tratá-la com muito respeitinho e sempre que saltei para o mar nunca mais foi de mais de meio-metro de altura e sempre feito um barril, não vá o diabo esticar-me.
Mergulhar sem saber é um exercício de humildade instantânea. É aprender que a água tem memória e que ela revida se você não a tratar com respeito. Ricardo não aprendeu a dar um mortal naquele dia, mas aprendeu a técnica mais importante de todas: o mergulho de pé, mantendo o nariz devidamente tapado.
17 de fevereiro de 2026
O Grande Dilema do Chinelo
Isto foi o suficiente para desequilibrar o meu "nada". Tentei ignorar. Mas o chinelo parecia que estava a olhar para mim e a me chamar. Ainda por cima com um olhar de julgamento. Estiquei o pé para puxar o chinelo. Errei. Tentei de novo. O chinelo escorregou do pé e foi para debaixo da poltrona.
Agora, tinha um problema: para continuar a fazer o meu nada precisava do chinelo. Mas para pegar o chinelo, eu teria que fazer alguma coisa.
Fiquei ali, com um pé descalço e outro calçado, vivendo um hiato existencial. Pensei:
Se eu ficar perfeitamente parado, eu me torno parte da mobília. A poeira vai cair sobre mim e eu serei, finalmente, o mestre do vazio.
Nesse exato momento, uma mosca entrou na sala, daquelas que parecem helicóptero e param no ar.
A mosca não tinha o mesmo compromisso com o minimalismo. Ela pousou-me na testa. Eu não movi um só músculo. Eu era era um móvel imóvel. Eu era... um homem com a testa arrepiada e abanei-a.
A mosca voou, segui-a com os olhos até que ela pousou-me no nariz, entrando na narina.
O resultado? Eu soltei um espirro tão violento que ou a mosca fugiu para outra dimensão, ou o chinelo ficou esquecido ou eu me esparramei no chão.
Dez minutos depois, estava eu na cozinha a pôr gelo no joelho e de cu para o ar à procura do segundo chinelo. Percebi então que fazer nada dá um trabalho danado. O universo simplesmente não aceita o vácuo; se não se preenche o seu tempo com algo, o destino preenche com moscas e incidentes ortopédicos.
16 de fevereiro de 2026
eu e o tal de carnaval
Diz o povo que "a vida são dois dias e o Carnaval são três", mas para quem sofre de alergia crónica a serpentinas, o Carnaval são quatro meses: dois de ansiedade prévia, quatro dias de clausura e o resto do tempo a encontrar confetis dentro de sapatos que nem sequer usámos.
O problema de não gostar de nos mascararmos não é a falta de imaginação. É o excesso de realismo.
Toda a gente tem um amigo entusiasta que, em dezembro, já está a planear uma mascarada de grupo. A sugestão é sempre algo coletivo e humilhante, tipo "vamos todos de peças de Tetris". O Dilema Logístico que eu levanto: Como é que uma peça de Tetris vai à casa de banho? ou então o factor térmico: em Portugal, o Carnaval rege-se por uma lei física cruel: se a máscara é gira, vais morrer de hipotermia; se a máscara é quente (tipo um fato de peluche de urso), vais suar mais do que num ginásio sem ar condicionado; ou vem-me à cabeça a Identidade Perdida: não há nada mais triste do que estar numa conversa séria sobre a inflação enquanto se usa um chapéu de pirata de plástico que teima em cair sobre o olho esquerdo.
Na verdade começamos com uma simples máscara tipo zorro e, quando dou por mim, estou a ser arrastado para um comboio ao som de "Apita o Comboio", com uma peruca azul que cheira a petróleo e a dignidade algures esquecida num balcão de bar.
Enquanto a multidão se acotovela na avenida para ver passar o carro alegórico que satiriza um político de 2026 o não-mascarado cultiva prazeres mais refinados como ver os diretos da TV e jogar ao "Onde Está o Wally" com a vergonha alheia, comer filhós e sonhos sem medo de sujar um fato de cetim de 15 euros comprado na loja chinesa ou poder olhar-me ao espelho na manhã seguinte sem ter de esfregar a cara com diluente para tirar os restos de maquilhagem de palhaço triste.
No fundo, o Carnaval é uma época de liberdade. E não há maior liberdade do que o direito constitucional de não usar uma peruca que pica. Se me virem na rua nestes dias, não se enganem: não estou mascarado de pessoa norma". É mesmo a minha cara de quem está a contar os minutos para a Quaresma.
14 de fevereiro de 2026
Dia dos namorados
O Dia dos Namorados é aquela data em que o amor acorda com recibo verde, número de contribuinte, factura e esperança na troca. No resto do ano ele é espontâneo, anda de pantufas, oferece um “gosto de ti” entre a sopa e o telejornal. Mas a 14 de fevereiro transformou-se num gestor de expectativas.
Dizem que a tradição vem de São Valentim. Um homem que, ao que consta, defendia o amor. O que ele não imaginava era que, séculos depois, o seu nome estaria associado a filas nas floristas, em restaurantes e mensagens começadas com “Amor, não era preciso nada de especial…”.
Nada de especial. Frase perigosa. “Nada de especial” pode significar um jantar romântico à luz de velas ou apenas que o outro acerte no tamanho do presente e na intensidade do sentimento. É uma ciência imprecisa.
Os restaurantes, neste dia, praticam uma espécie de atletismo emocional. Mesas coladas umas às outras, velas que derretem mais rápido do que a conta bancária e um violinista que aparece misteriosamente sempre na altura em que estamos a decidir se pedimos sobremesa ou se pagamos a prestação do carro.
E depois há os solteiros. Esses olham para o calendário como quem observa um fenómeno astronómico raro. Alguns organizam o “anti-Valentim”, outros dizem que é uma invenção comercial, o que não deixa de ser verdade, mas depois aceitam um chocolate “só porque estava em promoção”. O amor pode não ter preço, mas o chocolate tem desconto.
Os casais de longa data vivem o dia com pragmatismo. Trocam olhares cúmplices que dizem: “Vamos celebrar o nosso amor… mas sem exageros, que a mensalidade vai a meio” Já sobreviveram a discussões sobre comandos de televisão e temperaturas do ar condicionado; um ramo de flores já não os intimida.
E há sempre aquele casal que publica uma declaração épica nas redes sociais. Uma ode digna de Luís de Camões, com metáforas marítimas e promessas eternas. Nós lemos, emocionados… e depois lembramo-nos que ainda estamos à espera que nos respondam à mensagem das 15h32.
No fundo, o Dia dos Namorados é um lembrete, às vezes exagerado, às vezes ternurento, de que amar dá trabalho. Não o trabalho do embrulho perfeito, mas o de ouvir, ceder, rir das manias do outro e continuar a escolher a mesma pessoa, mesmo quando ela deixa a tampa da pasta de dentes aberta ou o tampo da sanita levantado.
Talvez o verdadeiro romantismo não esteja no jantar caro nem no presente ultimamente fotografado em rede social. Talvez esteja naquele gesto simples de dividir a última fatia de bolo… ou de fingir que não vimos a série sem o outro.
Porque o amor, quando é a sério, não precisa de data marcada. Mas já que existe um dia oficial, aproveitemos. Nem que seja para lembrar que o melhor presente continua a ser alguém que, no meio da confusão do mundo, ainda escolhe sentar-se ao nosso lado.
E isso, convenhamos, não vem embrulhado, mas é o que mais conta.
13 de fevereiro de 2026
Hoje eu sou rádio sintonizado no mundo
Há algo de profundamente terapêutico em ligar o aparelho e ser recebido por uma voz que não sabe quem eu sou nem onde estou, mas fala como se estivéssemos a partilhar uma imperial. Enquanto o mundo lá fora exige que eu tenha uma opinião sobre a inflação ou o corte de cabelo que está na moda igualizando todas as cabeças, a rádio apenas me pede para estar presente.
É o único sítio onde a solidão deixa de ser um peso para passar a ser uma audiência.
A relação é simples, mas tem as suas regras: A voz do locutor torna-se aquele amigo que nunca me pede dinheiro emprestado e tem sempre uma playlist melhor que a minha. As notícias são o lembrete de que o mundo continua a girar, geralmente de pernas para o ar, o que me faz sentir muito melhor por estar apenas sentado no sofá a comer cereais diretamente da caixa ou a tirar uns capins do canteiro de casa e há a estática, aquele chiar entre estações é o som do universo a dizer para ter calma e que estamos a tentar ligar-te à realidade, aguarda um momento.
Estar sozinho com a rádio é a forma mais pura de convívio social para introvertidos. É o luxo de estar com pessoas sem ter de usar calças com fecho éclair ou fingir que estou a ouvir quando, na verdade, estou apenas a pensar se o queijo no frigorífico ainda está dentro do prazo de validade ou se o frio e a chuva são eternos.
O mundo pode estar um caos, as redes sociais podem ser um campo de batalha de egos, mas ali, entre os 87.5 e os 108.0 MHz, a vida é mais simples. Sou eu, a voz de alguém que provavelmente está num estúdio escuro a beber café frio, e a música que preenche os espaços vazios da casa.
No fundo, a rádio ensinou-me que estar sozinho não é o mesmo que ser solitário. Ser solitário é um deserto; estar sozinho com a rádio é uma festa privada onde eu sou o convidado de honra e o segurança que decide quando é hora de toda a gente se calar.
12 de fevereiro de 2026
a minha vida desportiva
11 de fevereiro de 2026
Programa 105 K'arranca às Quartas
Eu, a bicicleta e os travões que não tinha
No coração da cidade, onde as duas colinas parecem ter sido feitas para testar a gravidade, vivia eu. Não era rapaz de meias medidas, nem de meias luas e nem de meias solas quanto mais de meias palavras. E, como vim a descobrir, também não era um homem de travões. Pelo menos, não na bicicleta.
A bicicleta, alaranjada pálida de gasta pelo sol, era uma relíquia semi-enferrujada que parecia ter sobrevivido a todas as tempestades do deserto antes do meu nascimento. Não tinha mudanças, o selim era tão duro que fazia inveja a uma pedra, sem para-lamas e também, sem travões. Acho este um pormenor charmoso. Sem travões. Ela era uma relíquia que com o dinheiro que tinha mais não podia comprar. De vez em quando lá tinha eu um diálogo com um candeeiro de rua ou simplesmente com alcatrão.
Mas eu via isto como uma vantagem. "Quem precisa de travões?", costumava dizer, com um brilho maluco nos olhos. Também dizia que travões era para os fracos! Eu tenho os meus pés, os sapatos, e a minha fé no destino! E assim, todas as manhãs, subia a minha ladeira até ao liceu. Na volta os pés pairavam sobre o chão, pronto para a travagem de emergência que consistia em arrastar os sapatos até o fumo começar a sair ou eu me lembrar de pôr o pé no pneu de trás.
Um dia, enquanto descia a Rua das hortas, apercebi-me de que tinha esquecido o pão para o lanche.
- Ó céus! O pão!, exclamei enquanto decidi que era uma excelente ideia virar-se na hora para a padaria do João Padeiro que tinha acabado de passar. Uma manobra que só se pode descrever como "kamikaze ciclístico".
Enquanto virava a bicicleta, os pés bailaram no ar, procurando desesperadamente o chão sabendo que o céu estava mais perto, zigue-zagueava pelo que passei por uma senhora mais velha que me olhou, encolheu os ombros e eu ouvi
- Mais uma anormal... depois foi silêncio total.
Por pouco acertava na porta e por azar meu acertei na parede entre duas portas e não me lembro se comprei o pão ou fui a mais algum sítio. Acordei de cabelo molhado, estatelado no passeio e uma voz que vinha de longe a chamar por mim, Ou era algo assim parecido. Dizem que revirei os olhos, que parecia uma árvore a cair com tudo direitinho no passeio cimentado da loja do João Padeiro.
10 de fevereiro de 2026
eu, o deserto e a cidade
O deserto não era o Saara, mas sempre me disseram que era o mais antigo do mundo e isso era o suficiente para fazer um homem esquecer o próprio nome se ficasse tempo demais sob o sol dele. O curioso é que, do topo da duna mais alta, ainda era possível ver as luzes da cidade cintilando no horizonte, como um céu estrelado na terra
Eu, sentado no capôt de um jipe que do senhor Miranda que por acaso era também Leovegildo, esperava a hora de voltar
No deserto, quando eu ia ver-lhe um pedaço, ainda não tinham inventado o GPS e nem eu tinha deixado migalhas ou pedrinhas para saber o caminho de volta. Se não fossem as luzinhas da cidade eu ia dizer que estava perdido. Eles não. Eles sabiam que era para aquele lado. Eu no deserto era um perdido de dia e um desachado mal o sol se punha. Esqueci de nascer com sentido de orientação geográfica. O sr. Miranda já sabia a me perguntava sempre para que lado nós voltamos. Sempre errava. O Rui sabia. Era mesmo só defeito de fabrico, pensava eu.
Seguindo a constelação que se via em terra eu estava seguro. Eu sabia que o sr. Miranda jamais se ia perder.
De repente, o silêncio foi quebrado por um som seco. Não era um motor. Era o bater de asas de um drone de entrega, pintado de preto fosco para sumir na noite que caía.
O deserto guarda segredos, mas apenas para aqueles que sabem que a cidade é apenas uma miragem que dura um pouco mais que as outras.
9 de fevereiro de 2026
sentir saudade sem mágoa
Lembramos do peso de um álbum de fotos, do esforço de girar o disco de um telefone ou da espera por uma carta que poderia chegar com boas ou más notícias.
8 de fevereiro de 2026
O Superpoder Mais Barato do Mundo
O voto é aquela rara ocasião em que o cidadão comum, que normalmente só manda no comando da televisão passa a mandar, teoricamente e nem que seja por um pequeno instante, no destino da nação. Nem que seja por dois minutos, dentro de uma cabine que parece um provador de loja dos anos 80, com uma caneta presa por um fio, tal como nós estamos à vida, como se alguém fosse fugir com ela para fundar um novo partido: o Partido da Caneta Roubada.
Há quem diga:
- Eh pá, o meu voto não conta para nada.
Pois não, mas também não conta muito não ir ao ginásio uma vez por mês, e depois queixamo-nos da barriga grande, da flacidez muscular ou da falta de vontade de fazer coisinhas. A democracia também faz barriga se ninguém a exercita. Fica mole, cansada e começa a prometer coisas que nunca cumpre.
Votar tem outro grande benefício: dá-nos o direito moral de reclamar. Quem vota pode dizer com autoridade:
- Eu avisei.
Quem não vota só pode dizer:
- Eu estava ocupado a ver uma série ou está um frio do caraças.
E convenhamos: não há nada mais satisfatório do que reclamar com fundamento. É quase terapêutico. Sai mais barato do que a ida a um psicólogo e não engorda, ao contrário dos pastéis de nata.
Além disso, votar é um ótimo exercício de humildade. Entramos cheios de certezas, saímos cheios de dúvidas e, no meio, percebemos que afinal não sabemos assim tanto sobre programas eleitorais, mas sabemos muito sobre desconfiança geral. Ainda assim, escolhemos. Porque a alternativa é deixar que alguém escolha por nós e isso é como deixar outro decidir o jantar: acabamos sempre com algo que não gostamos e ainda pagamos a conta.
No fundo, votar é como plantar uma árvore. Não dá sombra logo, mas se ninguém plantar, daqui a uns anos estamos todos ao sol, a queixar-nos do calor e a dizer:
- Isto antigamente não era assim.
Pois não. Antigamente alguém foi lá, votou, plantou e fez o trabalho chato.
Por isso, vá votar. Nem que seja só para poder dizer depois, com ar importante:
- Eu fiz a minha parte.
Em tempos de super-heróis, é bom lembrar que o verdadeiro herói nacional não usa capa. Usa cartão de eleitor, paciência e uma caneta presa por um cordel.
6 de fevereiro de 2026
O Solidário de Ocasião ou o Drama da Sopa de Letrinhas
A solidariedade, hoje em dia, começa muitas vezes com um dilema logístico. Queremos ajudar, mas o universo parece conspirar contra a nossa santidade repentina.
Tudo começa naquele momento com chuva, introspecção e em que decidimos ser pessoas melhores ou melhor pessoa no nosso intimo. Abrimos o armário e decretamos: Vou dar isto tudo aos pobrezinhos! É um momento catártico. O problema é que, no nosso delírio altruísta, achamos que a carência alheia é diretamente proporcional à nossa falta de noção.
Separamos para doação:
- Uma t-shirt de um festival de 2004 com um furo estratégico na axila ou amarelecida das lavagens.
- Umas sapatilhas a dar para o desgaste de uso e desbotado de gasto.
- Um comando de televisão que já não existe no mercado, ou aqule caixa de transformadores que já nem nos lembramos para que serviam.
Olhamos para aquele monte de tralha e sentimos um calorzinho no peito. Sou o Gandhi da Porcalhota ou simplesmente o Zé da Ria, pensamos, enquanto ignoramos que estamos apenas a transferir o nosso lixo doméstico para uma instituição que já tem t-shirts de festivais suficientes para estofar um estádio.
Depois, temos o clássico do supermercado. À entrada, recebemos o saco plástico, que transportamos como a "capa de herói" do cidadão comum. É ali que a psicologia humana se torna fascinante.
Há quem entre em pânico de performance. Olham para as prateleiras e pensam: "Se eu levar massa, sou básico. Se levar grão, sou conservador. Será que os necessitados gostam de leite de aveia com sabor a baunilha?". Acabam por comprar três quilos de quinoa biológica e um frasco de corações de alcachofra, porque "toda a gente merece um mimo gourmet".
Do outro lado, temos o solidário estratégico, que passa o tempo todo a espreitar o carrinho do vizinho. Se o senhor ao lado leva dez pacotes de arroz, ele sente-se na obrigação moral de levar doze. É a única competição desportiva onde o prémio é uma palmadinha nas costas dada por um escuteiro de 12 anos.
Não podemos esquecer a solidariedade das redes sociais. É aquela partilha de um vídeo emocionante acompanhada pela legenda: "O mundo precisa de mais disto. Partilhem!".
É a forma mais eficiente de ser bondoso: não custa dinheiro, não suja as mãos e ainda nos dá aquele brilho de "pessoa consciente" nos algoritmos. Se o mundo fosse salvo por partilhas de Facebook, já estaríamos todos a viver num jardim do paraíso com Wi-Fi gratuito e unicórnios a distribuir sumos naturais e outras mordomias.
A verdade é que a solidariedade real é muito menos charmosa. É aquele vizinho que ajuda a senhora do terceiro andar a carregar as compras sem ninguém estar a filmar. É a pessoa que faz um donativo mensal por débito direto e se esquece que o faz. É, no fundo, perceber que o outro não é um depósito para a nossa consciência pesada, mas alguém que, às vezes, só precisa que não o ignoremos no elevador.
Ser solidário é um desporto radical de humildade. E se, pelo caminho, conseguirmos não dar aquele pijama de flanela com buracos, já estamos no caminho certo para a canonização.
5 de fevereiro de 2026
A guerra contra os Donos da Razão
Estas pessoas são conhecidas como Donos da Razão. Andam por aí como se tivessem um certificado invisível pendurado ao pescoço: “Atenção: estou sempre certo desde 1999.”
Tentar discutir com um Dono da Razão é como jogar xadrez com um pombo. O pombo derruba as peças, faz cocó no tabuleiro e no fim sai a andar como se tivesse ganho.
Pronto. Acabou. Nem vale a pena ligar o cérebro. Aquilo já vem com resposta automática. É tipo assistente virtual, mas com menos atualizações e mais convicção.
O problema é que eles existem em todo o lado: no trabalho, na família, no grupo do WhatsApp e até na fila do pão. Há sempre alguém que explica ao padeiro como se faz pão. Ao padeiro! Um homem que faz pão desde antes de nós sabermos dizer “carcaça”, já ele chamava papo-seco de olhos fechados.
Com o tempo, aprendemos uma grande lição: não se vence um Dono da Razão. No máximo, empata-se. E o empate consiste em sorrir, mudar de assunto e pensar: “Pronto, hoje já alimentei o ego de alguém.”
Porque, no fundo, lutar contra quem tem sempre a mania que está certo é como discutir com o GPS quando já estamos perdidos. Ele recalcula, nós suspiramos, e a vida continua.
E talvez a verdadeira vitória seja esta: não ganhar a discussão… mas chegar ao fim do dia com paciência suficiente para não nos tornarmos também Donos da Razão.
4 de fevereiro de 2026
Programa K'arranca às Quartas 104
O General, o Peru e a Frequência de Rádio
O almoço era um peru gordo e mal-encarado que todos chamavam de Marechal. O problema? O Marechal não queria ser canja e devido à sua violência e intransigência passou de alimento a animal de estimação.
No meio de uma picada o jipe do Pé-de-Vento deu um estoirado barulho e parou. Do outro lado da mata, surgiu um grupo dos rebeldes inimigos. O silêncio foi total. Armas apontadas, suor escorre mesmo se não está calor... até que o peru, nervoso e, se calhar a estranhar tanto sossego e falta de pulos, soltou um GLU-GLU-GLU tão alto que parecia uma rajada de metralhadora.
O rádio de um dos soldados inimigos chiou:
-Aqui Posto Delta, qual é a situação? Câmbio.
Pé-de-Vento, que era mais esperto que a fome, gritou antes que alguém atirasse:
- Não atira, manos! Estamos a testar uma nova arma biológica soviética! É o emissor de ondas subsônicas disfarçado de ave!
O sargento do outro lado, um homem chamado Zeca Curioso, baixou a arma, confuso:
- Arma biológica? Esse bicho aí que faz barulho de pneu furado?
- Exatamente! — mentiu Pé-de-Vento, ganhando confiança. - Se ele cantar três vezes seguidas, a frequência do rádio de vocês entra em curto-circuito e explode a bateria na vossa cara. É tecnologia de ponta, diretamente de Moscovo! - suando em bica até parecia ter mergulhado no rio.
Nesse momento, o peru, que parecia ter entendido o plano, deu mais dois GLU-GLU furiosos e tentou bicar a bota do Zeca Curioso.
Os soldados inimigos deram um salto para trás. Zeca, suando frio, gritou:
- Pah! Levem esse bicho daqui! Não queremos problemas com a tecnologia! Mas... vocês têm tabaco?
Pé-de-Vento sorriu. No final, a guerra daquela tarde foi resolvida na base da troca:
Pelo lado do Pé-de-Vento: Dois maços de cigarro e a promessa de não ligar a "arma biológica".
Pelo lado do Zeca: Ajudar a empurrar o jipe para pegar.
Dizem que o General Mutamba nunca entendeu porque o seu peru de estimação voltou para Luanda com uma fita vermelha no pescoço e status de herói nacional. E o Cabo Pé-de-Vento? Bom, ele sempre dizia que em Angola, quem tem um peru e uma boa conversa, não precisa de blindado.
3 de fevereiro de 2026
eu, a memória e os nonkakus
Houve um tempo em que o mundo cabia num par de calções gastos ou já rotos e nuns pés calçados com sandálias de pneu, que na minha terra jurei chamar nonkakus. Não eram sandálias: eram armaduras. Feitas de borracha rija de pneu gasto, cheiravam a estrada e a oficina, e tinham fivelas que rangiam como se protestassem contra cada passo. Mas aguentavam tudo: espinhos, pedras, poças de água barrenta e até a queimadura do chão quente ao meio-dia.
Os calções eram curtos por necessidade e por liberdade. Curto era sinónimo de correr mais depressa. As pernas, sempre riscadas de arranhões, eram como mapas de batalhas: aqui uma queda de bicicleta, ali uma pedrada mal calculada, mais acima o arranhão dum espinho de uma silva vingativa. Cada marca tinha uma história, e todas davam direito a exagero.
Saía de casa depois do pequeno-almoço e só regressava quando o sol começava a corar o céu, com a promessa sagrada: “Já vou, mãe!”, que queria dizer “daqui a uma hora… talvez”. As sandálias de pneu batiam no chão, chap-chap como um tambor de guerra anunciando mais uma aventura: ir ao rio, jogar à bola com uma meia enrolada, subir à figueira do senhor Martins (sempre às escondidas) ou espreitar o quintal onde diziam que havia uma cobra, que afinal era sempre um lagarto muito ofendido.
No verão, os pés ganhavam uma cor própria, uma espécie de preto-oficina, mistura de pó, suor e sol. E mesmo assim, ninguém se queixava. Porque aqueles pés sabiam o caminho para todo o lado: para a mercearia onde havia rebuçados e podia comprar fiado, para o campo de futebol improvisado, para o sítio secreto onde se guardavam berlindes e segredos. Todo o lado era o meu lado, desde que não saísse da cidade do alcatrão. Eu era menino do mato, mas só na cidade do alcatrão. Para lá dele eu era um perdido medricas de me perder e não encontrar o caminho de volta.
Hoje, quando calço sapatos sérios, desses que prometem postura e respeitabilidade, às vezes sinto a falta do barulho seco das sandálias de pneu e da leveza dos calções. Não era só roupa: era uma maneira de estar no mundo. Com os joelhos ao vento e o coração sem relógio.
E, no fundo, ainda ando por aí assim — só que agora as sandálias são invisíveis, e os calções ficaram guardados numa gaveta chamada memória, que cheira vagamente a borracha quente e a tardes sem pressa.
2 de fevereiro de 2026
sonho sem realidade
Mas na hora, a língua ficava de férias e só sobrava um “olá” torto, meio engasgado, que ela respondia com simpatia, aquela simpatia que não promete nada, mas também não magoa. E isso era o pior: não doía o suficiente para desistir, nem alegrava o bastante para sonhar.
À noite, deitado, eu inventava filmes na cabeça. Nuns, ela sorria só para mim. Noutros, ela dizia “somos só amigos”, com uma voz tão suave que parecia um pedido de desculpas. Bolas, acordava sempre antes do final. O raio da realidade tem menos imaginação que um sonho.
1 de fevereiro de 2026
deve ter sido grito de bruxa
Certa tarde, no lancil do passeio onde brincavamos ao fim de todas as tardes, decidi que o silêncio estava barulhento demais.
- Não faz sentido a gente não ser a gente de verdade, nos gostamos mas nunca nos falamos de nós - disse aquilo como poia ter dito que os camiões voavam, suava, tremia e sentia um medo de me ouvir que não tem como explicar como é que aquelas palavras saíram.
Ela fechou os olhos. Na sua voz calma, serena que eu ouvi como estivesse a levar com uma bola de canhão no peito me disse:
- És é a melhor parte do meu dia. Mas eu não quero namorar. Nem contigo nem com ninguém. Seremos amigos sempre se não me falares mais sobre isto.
O mundo acabou naquele instante depois de uma pancada enorme no orgulho, na estima e na coragem. Naquele instante aprendi que o sentimento sentido por cada um não tem a mesma intensidade nas pessoas à volta.
Balbuciei qualquer coisa que nem eu sei o quê enquanto tentava pensar.
Tinha duas escolhas: ficar implorando e transformar aquela amizade num campo de batalha ou aceitar que o não dela era sobre o momento dela, e não sobre o meu valor.
Escolhi respirar. Arquivei todos os planos mentais e decidi que, se não podia ser o namorado, ainda queria ser quem a fazia rir. Só que, sem esperar nada em troca.
Um dia, muitos anos depois, lhe falei novamente do assunto arquivado num lancil de passeio. Estava na Universidade, barba por fazer, cabelo despenteado, ar martelado num revolucionário modo de querer ver o mundo.
Me olhou, já não serena, já sem a calma de tantos anos atrás.
- Desaparece! gritou
E até hoje eu ainda não apareci. Deve ter sido grito de bruxa.
