Acho que a primeira grande crise existencial de um homem não acontece aos 40, quando compra um Porsche, mas aos 6, quando percebe que o seu bólide a pedais tem a aerodinâmica de um frigorífico e a tracção de um caracol com reumático caminhar
Mais ou menos aos 6 eu tive o meu primeiro meu carro, que era de um vermelho berrante, com um número "5" colado de lado que prometia velocidades estonteantes na minha cabeça de criança. Tinha um volante de baquelite que rangia como um navio pirata e umas rodas de borracha rígida, ou seria madeira forrada, aqui a memória me falhou e que em contacto com o alcatrão da rua, faziam mais barulho do que um concerto de tampas de panela na minha cozinha.
O problema é que o design ignorava uma lei fundamental da física: a relação peso-potência que eu aprendi muito mais tarde. O chassis era de madeira pesada, e o piloto que era eu pesava o mesmo que um saco de batatas pequeno. Eu sentia o vento na cara, mesmo se estivesse parado porque era o vento normal da minha rua. Eu dava aos pedais e ele rangendo seguia numa vertiginosa velocidade que até dava para sair em movimento. Mas foi o meu primeiro carro.
Não sei se me cansava mais de dar ao pedal ou fazer VRRRRUUUUMMMM. Mas eu me divertia no meu carro vermelho berrante.
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