E quando às vezes me apetece falar a sério mas o meu humor próprio não me deixa. Dizem que nunca se deve lutar com um porco na lama: ambos ficam sujos, mas o porco diverte-se. O problema é que, às vezes, a vida não nos dá o benefício da escolha. Um dia acordamos, pomos a nossa melhor roupinha ou a nossa melhor postura de adulto funcional e, sem aviso, estamos com o joelho enterrado no estrume, a tentar imobilizar uma fera de muitos quilos que não partilha do nosso sentido de decoro e educação.
Lutar com um porco na pocilga é a metáfora perfeita para as discussões estéreis, para as burocracias kafkianas ou para aqueles dias em que tudo decide desmoronar-se ao mesmo tempo. É um exercício de futilidade coreografada. No meio do caos, o mais fascinante não é a sujidade em si, mas o esforço hercúleo que fazemos para brincar de ser sério enquanto o rabo nos escorrega no lodo.
Há uma dignidade cómica no ser humano que tenta manter a compostura em situações absurdas. É o senhor que, após escorregar numa casca de banana, se levanta e sacode o casaco com um olhar fulminante, como se a gravidade tivesse cometido uma gafe social.
Nas nossas "pocilgas" quotidianas — seja um escritório em chamas ou uma crise existencial de segunda-feira — insistimos em usar o tom de voz de um diplomata da ONU. Falamos sobre "metas" e "otimização de processos". Simulamos uma profundidade que, na verdade, é apenas o pânico de quem não sabe onde pôr as mãos. Agarramo-nos às regras porque, se as largarmos, sobramos apenas nós, enlameados, diante de um porco que apenas quer chafurdar.
O porco, claro, é honesto. Ele não finge ser um unicórnio. Ele é massa, grunhido e instinto. A nossa luta com ele torna-se ridícula não porque ele seja sujo, mas porque nós tentamos lutar num terreno onde só conta o peso e a manha.
Brincar de ser sério é o nosso mecanismo de defesa. É a tentativa de aplicar lógica ao que é puramente visceral. Queremos convencer o porco (ou o destino, ou o chefe intratável) através de um memorando bem estruturado. Queremos que a lama respeite o vinco das nossas calças.
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