No dia em que a minha amiga decidiu fugir, ela não fez as malas. Ela levou apenas a roupa do corpo, a carteira e uma determinação feroz de deixar o passado para trás.
- Não olho mais para trás - decretou para si mesma, pisando no acelerador do seu corpo. Ela queria fugir da rotina, das cobranças, dos olhares e, acima de tudo, do tempo que parecia correr depressa demais na cidade da vida.
Cinco quilómetros depois, uma primeira paragem para abastecer o olhar e repousar o corpo do cansaço, Ela olhou para o lado.
Ali, confortavelmente sentado ao seu lado e a ajustar um par de óculos de leitura imaginários, estava o Tempo. Não o tempo metafórico, mas um senhor de barba cinzenta, vestido com um fato feito de folhas de calendário e a segurar uma ampulheta como se fosse uma caneca de café.
- O que é que estás aqui a fazer? - gritou ela, assustada. - Eu fugi!
- Eu sei - disse o Tempo, bocejando. - Mas tu fugiste à pressa. E quem corre contra o tempo, acaba por me levar de boleia. Tu não olhaste para trás, mas eu estava no banco da tua frente.
Ela tentou ignorar a assombração cronológica e continuou o caminho para bem longe, em direção a um outro qualquer litoral. Pensou que, se vivesse sem horários, ele acabaria por desaparecer.
Não funcionou.
No dia seguinte, na praia, ela decidiu relaxar e não fazer absolutamente nada durante horas. Olhou para o lado e o Tempo estava deitado numa espreguiçadeira, a banhar-se em protetor solar fator 50.
- Ah, o ócio! - exclamou o Tempo, satisfeito. - Adoro quando não fazes nada. É aí que eu passo mesmo devagarinho. Repara como este minuto está a parecer uma hora?
Irritada, ela decidiu mudar de estratégia. Começou a fazer tudo a correr. Comeu o pequeno-almoço em trinta segundos, correu dez quilómetros na areia e limpou o quarto da vida duas vezes. Quando olhou para o lado, o Tempo estava a fazer flexões ao ritmo de uma música de aeróbica dos anos 80.
- Uau! - disse o Tempo, transpirando ponteiros. - Assim passamos num sopro! Já é noite, viste? Nem deste por ela!
Ela percebeu que não importava o quanto rápido corria, para onde viajava ou o quanto tentava ignorar o relógio. O Tempo era o passageiro mais fiel e irritante que ela alguma vez teria. Ele mudava de forma: às vezes pesado como chumbo quando ela estava aborrecida, às vezes veloz como um foguetão quando ela se estava a divertir.
Uma noite, sentada num restaurante a beber um copo de vinho e a ver o pôr do sol, ela parou de lutar. Olhou para o Tempo, que agora operava o saca-rolhas com uma precisão cirúrgica.
- Sabes - disse ela, a sorrir pela primeira vez em dias - eu fugi para não te ver passar.
O Tempo serviu o vinho, sentou-se e cruzou as pernas.
- O teu erro foi achar que eu estava a perseguir-te. Eu só estava a acompanhar-te. O truque não é fugir de mim. É saber o que fazer comigo enquanto estamos na estrada.
Ela brindou ao seu companheiro inevitável. Ela tinha fugido sem olhar para trás, mas percebeu que o futuro só valia a pena porque o Tempo tinha decidido ir com ela.
Sanzalando
Sem comentários:
Enviar um comentário