recomeça o futuro sem esquecer o passado

10 de julho de 2026

na cozinha da avó

Anda para aqui um gajo a pensar, a ler, procurar, investigar e até consultar o Dr. Google para decifrar o segredo da longevidade e da felicidade. Perda de tempo! O segredo não está nas sementes de chia, nem no jejum intermitente, nem na kombucha, nem na alface ou no bife médio-mal passado. O segredo da verdadeira paz de espírito e do entupimento benigno das artérias esteve sempre guardado numa cozinha com cheiro a refogado, panelas de alumínio batido e num azulejo branco. Falo, pois claro, da comida da avó. A gastronomia avozística rege-se por leis da física e da matemática que desafiam a ciência moderna. A primeira grande lei é a do "Só Mais Um Bocadinho". Na mesa de uma avó, o teu prato nunca está vazio. Ele auto-regenera-se. Tu podes estar a meio de uma garfada, a lutar pela vida após três pratos de cozido, e, num milésimo de segundo em que olhas para o lado, pimba, aparece mais uma coxa de frango e duas batatas assadas. É o único lugar do universo onde a matéria se cria do nada.

- Avó, por amor de Deus, já não consigo respirar. 

- Deixa-te de fitas, que estás macilento. Olha para estes braços, parecem dois caniços. Come que isto é só substância!

A "substância", esse conceito místico. Para uma avó, "substância" é tudo aquilo que flutua em três dedos de azeite da cooperativa, e foi cozinhado em lume brando durante, no mínimo, cinco horas. Saladas? Alface? Isso é "comida de coelho" ou, na melhor das hipóteses, um enfeite que serve apenas para tapar as imperfeições da travessa. Se não faz o som de pão encharcado ao ir ao fundo do tacho, não alimenta.

Depois, há a total ausência de unidades de medida internacionais. Se tentares pedir a receita do arroz de pato ou das iscas, o diálogo será mais ou menos este

- Avó, quanto é que deito de sal?

- Ó filho, deitas um bocadinho na palma da mão, se o olhar te diz que chega, mandas lá para dentro.

- E de farinha?

- A que bastar, até a massa descolar dos dedos.

O olho da avó era mais preciso do que uma balança digital de alta precisão alemã acabadinha de comprar no super-mercado. Ela sabia, só pelo som do borbulhar do molho, se a carne estava tenra ou se precisava de mais um dente de alho que, na verdade, nunca era um dente, era a cabeça inteira, para espantar os espíritos e a tensão baixa.

O mais fascinante é que a comida da avó tinha um superpoder terapêutico. Curava desgostos de amor, exames falhados no liceu, constipações e crises existenciais. Não havia drama humano que resistisse a um prato cozinhado pela avó, uma canja com os miúdos todos lá dentro ou àquele bolo marmore que, por mais que eu tente refazer em casa, usando exatamente os mesmos ingredientes, na minha cozinha, ele fica com a consistência de um tijolo burro e na dela parecia uma nuvem caída do céu tal a leveza com que se comia.

A gastronomia da avó não se comia com o estômago; comia-se com a alma. E com um guardanapo de pano, padrão xadrez, bem encostado ao peito, enquanto ela nos olha de braços cruzados, a sorrir, a ver o prato desce de nível.

Por isso, se este fim de semana fosse visitar a avó, esquecia-me das calorias, do colesterol e deixava a balança no fundo do armário. Se ela me pusesse à frente uma travessa que daria para alimentar um quartel, eu teria que ganhar coragem e avançar. Afinal de contas, o amor mede-se em colheres de sopa. E na cozinha da avó, o amor nunca é demais.



Sanzalando

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