20 de janeiro de 2026

eu tentei arrumar a estante

Tudo começou quando eu tentei colocar "O Cortiço", do brasileiro Aluísio Azevedo, ao lado de "Os Maias", do português Eça de Queirós, na estante da minha sala.

Perto da meia-noite a estante tremeu. Os personagens de Eça, com seus monóculos e um certo tédio aristocrático, ficaram horrorizados com a barulheira e o calor que vinham do cortiço carioca ou como se diria no Porto, de uma Vila no Rio de Janeiro.

- Pelas barbas de D. Pedro! - exclamou o Conselheiro Acácio - Haverá decência nesse ajuntamento de gente suada?

João Romão, do livro vizinho, nem olhou para trás: 

 - Deixe de mesura, patrício! Aqui a gente trabalha para enriquecer, não para discutir o brilho das botas!

A confusão aumentou quando eu trouxe os angolanos e moçambicanos para a mesma prateleira. Coloquei "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, perto de um dicionário da Porto Editora

Na manhã seguinte, o dicionário estava em choque. Mia Couto tinha inventado tantas palavras novas que o pobre dicionário sentio que estava a perder o emprego ou a roda da viagem.

- Isso não é português! - reclamava o Dicionário, rígido no seu grosso volume.

- Não é português, é portuguesar o mundo - respondeu um neologismo de Mia, saltando de uma página para a outra como um cabrito ou uma qualquer cabra de leque que africanamente não se sossega.

Enquanto isso, "A Geração da Utopia", de Pepetela, tentava organizar um comitê de libertação para os livros que estavam presos na seção de Autoajuda, por erro meu.

O cúmulo do caos aconteceu quando, por já não saber como organizar a estante, empilhei Guimarães Rosa em cima de José Saramago.

Foi o silêncio mais barulhento da história.

Saramago, dizem porém sem verdade, que recusava-se a usar vírgulas ou pontos finais para reclamar o peso. As suas frases de três páginas formavam um labirinto onde eu quase me perdi.

Guimarães Rosa, trazendo o modernismo da poesia brasileira a tiracolo, apenas observava, e quando respondia fazia-o num dialeto que misturava o sertão com o infinito: 

- Viver é muito perigoso, mas ler o senhor Saramago, é um despropósito de frases compridas! 

No fim do dia, percebi que a literatura lusófona não pode ser arrumada. Ela é uma festa na cozinha: o português de Portugal traz o vinho e a etiqueta, o Brasil traz a feijoada e o samba, Angola e Moçambique trazem o ritmo e a reinvenção da alma, e Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste chegam com a poesia que une o mar.

Desisti da ordem alfabética. Agora, organizo os livros por níveis de saudade.




Sanzalando

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