19 de janeiro de 2026

um dia, pelo menos, sem internet

Pouquinho que passava das 10 da noite e veio o apagão das comunicações. Assim num segundo se foi a televisão e a internet. Me disseram que o rooter deu o último suspiro e a televisão transformou-se num retângulo plastificado e sem alma. O silêncio que se seguiu foi tão denso que deu para ouvir os pensamentos. No início, houve o pânico: levantei-me, reiniciei o dito, sempre sobre a máxima informática, desliga e volta a ligar. Nada.

E foi aí, no meio desse "nada", que a vida decidiu ficar engraçada.

Sem o brilho hipnótico da Netflix, os olhos demoram uns minutos a ajustar-se à realidade. Descobri, por exemplo, que o meu cão não é apenas um adereço de sofá e não deu por nada.

Acendi luzes, peguei no livro e retomei a leitura que tinha parado a meio da tarde. Meia hora depois novo desliga e volta a ligar e nada. Assistência técnica. Primeiro um diálogo  teclado com uma máquina a dizer-me para fazer o que eu já tinha feito. E com a insistência dos meus NÃO, a máquina disse-me que iria encaminhar para um operador real. Um pouco de música e a voz simpática do lado de lá. Já não estava em diálogo virtual. Já fiz, disse eu a várias questões. Ok, amanhã ou depois irá um técnico até aí para ver o que se passa. Aguarde mais um pouco. A blá blá mas agora não podemos fazer mais nada. E assim estou sem internet, sem televisão e sem o mundo saber de mim. 

A maior surpresa, porém, foi a interação humana. Sem o escudo da televisão, fui forçado a olhar para a minha parceira. 

- "Então... parece que não há rede," disse eu, com a eloquência de um homem das cavernas. — "Pois não," respondeu ela. "Queres jogar às cartas ou preferes descrever-me o teu dia com adjetivos que não incluam emojis?"

Rimos. Rimos porque percebemos que estávamos a desaprender a falar sem o apoio de um desenho, de um boneco, de uma figurinha. Acabámos a inventar biografias fictícias sobre quem passava na estrada, criando uma novela mexicana em tempo real, só nossa, sem anúncios e com muito mais reviravoltas do que qualquer série da HBO.

O mais estranho foi o sossego. Não é a ausência de som, mas a ausência de urgência. O tempo esticou. Uma hora sem internet durou aproximadamente três dias úteis. E, num mundo que corre para lado nenhum, esse abrandamento é um luxo quase subversivo. Fui-me deitar mais cedo.

Acordei sem saber as últimas polémicas do Twitter, o que me tornou, automaticamente, a pessoa mais feliz num raio de cinco quilómetros. A vida sem Wi-Fi não é um regresso à Idade Média; é umas férias forçadas de nós próprios. E, honestamente? A comida tem melhor sabor quando não precisamos de a fotografar antes da primeira garfada.



Sanzalando

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