Quando eu cheguei à escola primária eu descobri três certezas absolutas
- O recreio era curto demais.
- os alunos mais velhos eram ruins
- a professora sabia tudo — inclusive quando alguém estava a mentir… mesmo antes de mentir.
A professora chamava-se Dona Maria. Tinha um radar invisível para os meus disparates. Bastava um lápis voar com ar suspeito e ela já levantava a cabeça devagarinho, naquele movimento que dizia até parecia estar a dizer eu vi… mesmo que eu sabia que ela não tinha visto.
Eu sentava-me na terceira fila, lugar estratégico: nem demasiado à frente para ser voluntário involuntário, nem demasiado atrás para ser automaticamente culpado de todas as coisas ruins que iam acontecendo na aula.
Um dia, a Dona Maria decidiu fazer a pergunta mais perigosa da minha infância:
- Quem quer vir ao quadro?
Silêncio. Um silêncio tão profundo que se ouvia o cérebro do Manel a pensar: Se eu não respirar, ela não me vê.
Mas a professora tinha superpoderes.
- João Carlos!
Quando um professor diz o nome completo, uma pessoa envelhece três anos de imediato. Levantei-me como quem vai cumprir pena leve.
Era uma conta de dividir. Na minha cabeça, os números começaram a dançar. Escrevi qualquer coisa com convicção artística. A matemática, percebi ali, é muito mais sobre fé do que sobre cálculo.
A turma olhava para mim como se eu estivesse a desarmar uma bomba.
- Tens a certeza? — perguntou a professora.
Essa pergunta é uma armadilha. Nunca temos a certeza quando nos fazem essa pergunta. Mas respondi:
- Tenho.
Ela sorriu. Aquele sorriso pedagógico que significa qualquer coisa como ele vai aprender agora.
Estava errado, claro. Mas saí do quadro com a dignidade possível e um aplauso silencioso do Manel, que tinha escapado naquele dia. Mais dias existirão, pensei.
No recreio, éramos todos génios. O campo de futebol era inclinado, as balizas eram duas pedras e as regras mudavam conforme o resultado ou conforme estávamos a jogar contra os mais velhos que até parecia já tinham barba. Se a bola saía do recreio estava democraticamente, que a gente nem sabia existia essa coisa, que tinha sido falta do vento que não travou a bola.
Havia também a Inês, que sabia sempre a matéria toda e ainda tinha letra bonita. Isso, na primária, era praticamente bruxaria.
E depois havia o momento sublime da sexta-feira: Podem arrumar tudo.
Essas duas palavras tinham mais poder do que qualquer hino nacional.
Hoje, quando passo por uma escola primária, ouço o barulho dos miúdos e penso que a vida devia ser sempre assim: metade nervos no quadro, metade gargalhadas no recreio.
E, no fundo, todos continuamos iguais - só mudámos o tamanho e o nome da mochila, que no meu tempo era pasta.
Sem comentários:
Enviar um comentário