Amanhã faço nascer um novo programa de rádio. Esta é a minha história de como o Pertinências salvou uma cidade do esquecimento, não com grandes manchetes, mas com o som de uma colher de chá a bater numa chávena de porcelana.
Aos 69 anos, pensando no "Pertinências", imaginava que conseguia ouvir a diferença entre uma mentira e uma hesitação apenas pela frequência dos graves. O programa não será um sucesso de massas — não tem passatempos, nem música. É feito num estúdio, com uma chávena de café, às vezes frio e um computador que já foi veloz.
A premissa é simples, mas sei que perigosa: "Trazer o que é dito no escuro para a luz da antena."
Tudo começou com uma comunicação que fui ouvir. Esperava-se uma multidão, mas nem à dezena se chegou. Então pensei:
"Eles dizem que é progresso, são jogos, hão de crescer e mudar, mas não sabem o que se esconde por trás daquelas horas perdidas no computador ou no telemóvel. Talvez seja demasiado tarde quando descobrirem."
Talvez uns decidam apenas ignorar, outros proibir e eu penso "e porquê?"
Eu fui ouvir uma denuncia sonora, uma preocupação sincera. Eu e poucos mais.
Tenho de levar isto para outros ouvidos, pensei.
Tratei o som. Para muitos talvez seja ruído, para outros silêncio e para muitos apenas ignorância. Para mim é preocupação.
Nasceu O Pertinências com o sinal horário das 21 num sábado, mas a cidade, lá fora, já não sei se ouvirá o mesmo silêncio de antes.

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