Ah, os anos 60! Se hoje o drama é a senha do Wi-Fi, em 1968 o drama era o volume do gira-discos e a quantidade de laca ou brilhantina necessária para manter um penteado intacto diante de uma ventoínha,
Aqui vou contar uma versão de uma estória quase verdadeira, com mini-hondas, brilhantina e o terror de todos os pais daquela época: o conjunto rock que abrilhantavam os bailes e festas de garagem.
Tudo começou quando o Álvaro, que acabava de completar 16 anos e achava que era a reencarnação do James Dean ou, na pior da hipóteses, o Alan Delon, já para não falar do Morandi ou no Holliday. Ele resolveu que a festa iria ser na Discoteca e que ia ser um estouro.
A senhora sua mãe deve ter passado os três dias anteriores a fazer croquetes, rissóis, panados e um tal de ponche de frutas que agora baptizaram de sangria.
O pai, estava na sala a testar o gira-discos e os muitos vinis afim de colmatar qualquer falha da banda convidada. Ele tinha uma regra clara:
- Se eu ouvir esse tal de Roberto Carlos gritar que 'está proibido fumar', eu desligo a luz e acaba-se a festa. É que ele não respirava, fumava.
Os convidados foram chegando, uns nas sua mini-hondas, outros na Mini Suzuki, outros a pé e poucos à boleia do carro dos pais. As meninas tentavam desesperadamente manter as saias rodadas, curtas e sem vincos. Não era moda a saia plissada e os pais não deixavam as saias se encurtarem mais.
Entrar na festa exigia um protocolo: os rapazes entravam com o pente de bolso na mão, dando aquele retoque final na franja e as moças chegavam com uma invisível névoa de perfume e um palmo dos joelhos à mostra.
Quando o conjunto rock começou a tocar Twist and Shout dos Beatles, a sala parecia tinha virado um campo de batalha. O objetivo era mexer os joelhos o mais rápido possível sem derrubar nada.
O ápice foi o lent". Quando a música diminuiu o ritmo, o pai do Álvaro levantou-se do sofá como se tivesse ouvido um alarme de incêndio. Ele circulava pelo salão com uma lanterna, sim, uma lanterna, garantindo que houvesse, no mínimo, o espaço de uma Bíblia Sagrada entre cada par que dançava.
No meio da festa, o conjunto tentou tocar os Rolling Stones. A senhora mãe dele logo apareceu ali a gritar que aquilo é música de quem não toma banho nem se penteia. A banda parou, amuou e abalou. Não era refrão, foi mesmo decisão. Aí estava o prevenido pai com os seus vinís e todos dançaram um banho de lua ao som do gira-discos. Tinha acabado de anoitecer, porque depois das nove é coisa só de cinema americano, a festa terminou.
Depois de quase todos terem saído, contrariados, uns de mão dada outros apenasmente a ter visão dupla por causa da tal ponche bebida em exagero.
Eu era quase da casa, assim com mais uns dois ou três ficámos para a limpeza combinada.
O cenário era de dar dó:
O chão estava tão grudento de ponche derramado que os sapatos faziam ploc a cada passo. Havia marcas de brilhantina em todas as almofadas de cetim. o Álvaro estava no canto, a tentar convencer futura namorada de que ele ia ganhar um Simca Chambord de presente, mentira deslavada.
O pai, soprando uma baforada afirmou:
- Para Ano que vem, vais comemorar na igreja, que é mais seguro.
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