Tinha 12 ou 13 quando fui no Rádio Clube oferecer o meu trabalho. Curiosamente aceitaram e lá durante uns dois meses eu fui aprendendo com os mais velhos numa aprendizagem de que é assim que se faz. Tirando a rádio só havia os jornais e revistas. Ah, também havia os documentários antes dos filmes no cinema., mas estes não eram em cima da hora, alguns até tinham teias de aranha no texto. Mas não é isto que me levou a sentar aqui e a pensar. O marulhar hoje está estranho porque o mar ora está revoltado, ora está calmo. Desconcentra-me.
Ouço dizer que o rádio está para morrer desde que a primeira televisão ligou um tubo catódico. Depois veio a internet, o streaming, os podcasts e até geladeiras que tocam música e têm ecran a dizer o que é que falta. Mas aqui vai uma verdade inconveniente que me ecoa no cérebro, se o rádio acabar, o tecido da realidade se desfaz em 45 minutos.
O rádio não é apenas um meio de comunicação, é o último fio de sanidade que nos liga à civilização. Já reparou? No dia em que o sinal de FM sumir, o caos será absoluto. Imagine.
Primeiro, o trânsito. Sem o rádio, o condutor fica entregue aos seus próprios pensamentos. Isso é perigoso. O rádio serve para nos dizer que o IC19 está parado ou que a Marginal virou um estacionamento a céu aberto nas horas de ponta.
Sem o locutor com voz de veludo dizer que há lentidão devido a excesso de veículos, o condutor percebe que está preso no inferno por livre e espontânea vontade. Sem a piadinha sem graça do apresentador matinal, o cidadão médio percebe que odeia o seu emprego. O rádio é o amortecedor psicológico da classe trabalhadora.
E quem vai manter a indústria das pilhas? Ninguém compra pilhas para controles remotos que agora a gente carrega via USB. As pilhas existem para o rádio de pilhas. Aquele radiozinho prateado ou preto que o pedreiro coloca no topo do andaime e que, por algum milagre da engenharia acústica, toca uma moda que se ouve a três quarteirões.
Se o rádio acabar, as obras param. Não se assenta um tijolo neste país sem a trilha sonora de uma rádio. Sem rádio, o PIB da construção civil cai a zero.
Em todo filme de fim de mundo, o que é que o herói faz? Ele não tenta abrir o TikTok para ver se há sobreviventes. Ele gira o botão dum rádio velho que está ali na cena esquecido.
Se o rádio acabar, o apocalipse perde a etiqueta. Se um meteorito estiver a caminho da terra e não houver um radialista de serviço para dizer "É isso aí, gente boa, o mundo vai acabar, mas fiquem agora com esse clássico do Queen", e a gente nem vai saber como se comportar no pânico. O rádio dá o tom do desastre. Sem ele, a gente morre no vácuo, sem uma publicidadezinha ao super mercado pague menos.
Por fim, o futebol. Assistir ao jogo na TV é bestial, mas ouvir no rádio é uma experiência mística, é um quadro sonoro do renascimento. No rádio, um tipo para a bandeirola de canto vira um tiro que passou a rasar a pintura da trave esquerda!. O rádio melhora a vida. Ele transforma o jogo medíocre entre dois clubes da Série caseira numa final de Taça do Mundo.
Sem o rádio, a realidade vai ser crua e seca. Vamos ver as coisas como elas realmente são: chatas, silenciosas e sem um locutor para nos convencer de que agora o bicho vai tocar.
Portanto, protejam as antenas. Enquanto houver uma rádio a tocar um hit dos anos 80 com interferência de um walkie-talkie da polícia, do frigorífico ou da máquina de lavar, a humanidade terá uma chance. Se o rádio se calar, podem desligar o sol. O último que sair, por favor, deixe o rádio sintonizado na saudade.
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