Levado pelo meu humor que não morde mas às vezes dá beliscão, eu me disse que a adolescência em Angola não foi uma fase da vida, foi assim uma espécie de estágio intensivo em sobrevivência emocional com especialização em improviso.
Naquele tempo, crescer não vinha nem com instruções, nem má criações, nem outras construções mentais. Vinha com calor, com poeira, com amigos que apareciam sem avisar e com mães que sabiam sempre mais do que nós, mesmo quando fingíamos que não. A adolescência foi como aquelas estradas de terra batida ou mesmo como as picadas: cheia de buracos, mas com uma paisagem tão bonita que a gente perdoava o sacolejar do corpo, da alma e dos enjoos.
Havia uma filosofia muito própria, ainda que ninguém lhe chamasse isso. Era uma mistura de logo se vê com um há de dar, regado com gargalhadas que nasciam mesmo quando não havia grande motivo para rir. Porque rir, lá está, era uma forma de resistência e também uma maneira elegante de dizer à vida que podia tentar, mas não levava nada.
Os amores? Ah, os amores, eram mais rápidos a nascer do que a durar. Bastava um olhar mais demorado, uma música a tocar ao longe, e já estávamos convencidos de que aquilo era eterno até à semana seguinte, quando surgia outro eterno ainda mais convincente. Filosoficamente falando, aprendíamos cedo que o para sempre tinha prazo curto, mas intensidade garantida. E quando era ao contrário era dorido de morrer, que durava até ao renascimento.
E os sonhos? Eram grandes. Enormes. Às vezes maiores do que o mundo que nos rodeava. Queríamos tudo: ser alguém, ir longe, ficar perto, mudar o mundo ou pelo menos impressionar a rapariga que morava na mesma rua. Havia uma certa ingenuidade, claro, mas também uma coragem bonita, daquela que ainda não aprendeu a ter medo.
Se penso bem, talvez a adolescência angolana me tenha ensinado uma das maiores verdades filosóficas sem livros, sem professores, sem citações complicadas que se resume em que a vida não precisa de ser perfeita para ser boa. Precisa é de gente, de histórias, de calor humano e de uma boa dose de humor para atravessar os dias mais tortos, mais cacimbados, mais tristes.
No fundo, éramos filósofos sem saber. Pensávamos pouco e sentíamos muito o que, convenhamos, é uma forma bastante honesta de existir, de viver.
E se hoje sorrio ao lembrar-me disto tudo, sentado no muro da imaginação, não é só pela nostalgia. É porque percebo que, no meio daquela confusão toda, já lá estava o essencial: a capacidade de rir, de gostar, de cair e levantar e de achar com uma convicção quase científica, que o amanhã ia ser melhor mesmo quando não tínhamos a mínima prova disso.
Talvez tenha sido a melhor definição de adolescência, ter sido um acto de fé com banda sonora, poeira nos sapatos e muitos amores perdidos ou inacabados.
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