Me deixei sentado na mesma arcada de onde todas as tardes revejo um passado que guardo com alegria. A banda sonora é o marulhar, por vezes frio, por vezes com sabor a sal, por vezes silêncio de um fim de tarde ameno.
Neste sentado, me deixo vagabundar pela imaginação, tropeçando palavras, plantando frases, debitando vidas, estórias, encantos, desencontros, sorrisos, memórias.
Diz-se que o primeiro amor é como uma cicatriz, fica lá para sempre, mas que com o tempo deixa de doer. A metáfora real é quase literal, com a ironia adicional do que hoje me ocorreu, quando me lembrei que durante anos fechei feridas e deixei cicatrizes nos outros.
A paixão aos 16 anos, foi um clássico de biologia e hormonas. Jurámos amor eterno entre resumos de fotossíntese e partilhas de trabalhos de casa. Assim se passaram três anos platónicos. Carregados de paixão que se via a olhos vistos, sem ser necessário testes laboratoriais, exames psicológicos ou trocas de vocábulos que materializassem tal paixão em ambos sentidos. Quando as notas do exame de admissão saíram ambos entrámos em Medicina e o mundo parecia um guião de cinema simples, cor-de-rosa e fácil de mais. Mas o destino, que tem um sentido de humor muito particular, decidiu que o dia da matrícula seria também o dia do óbito da relação.
Um mal-entendido num corredor da vida, um visto não respondido num qualquer recanto e pronto, cortaram relações com a precisão de um bisturi bem afiado.
Seguiram-se anos de silêncio absoluto. Seis anos de curso, mais uns quantos de especialidade, e cada um seguiu a sua trajetória como se o outro tivesse sido apenas uma alucinação da adolescência. Eu tornei-me um cirurgião capaz de martelar um esterno ou de delicadamente coser uma veia cava rota num acidente. Ela, ao que sei, virou uma cirurgiã minuciosa, daquelas que olha para um corpo e vê milímetros de perfeição à espera de acontecer.
O mais fascinante? Nunca trabalharam no mesmo raio de dez quilómetros e nunca se cruzaram em reuniões ou congressos. É uma espécie de física quântica hospitalar: dois corpos que ocupam o mesmo espaço profissional, mas nunca o mesmo tempo.
Vivemos décadas na mesma cidade e sendo ambos cirurgiões foi como jogar um jogo de euromilhões de desencontros.
Se hoje se encontrassem num bloco operatório por erro de agendamento, o diálogo seria digno de um episódio escrito por um autor de comédia absurda. Ou seria a escuridão do silêncio?
É uma coincidência estatística notável. Dois miúdos que se apaixonaram, prometendo pela troca de olhar, pela doçura nas palavras, cuidar um do outro, acabaram de facto a cuidar da humanidade apenas em salas de operações separadas e com um bloqueio permanente nas ruas da vida.
No fundo, talvez tenha sido melhor assim. Algumas paixões de adolescência não foram feitas para durar, mas para servir de treino. Eles aprenderam a abrir corações aos 16 para poderem abrir abdómenes aos trinta. E se algum dia o destino os colocar frente a frente numa urgência de sábado à noite, esperemos que o paciente não tenha pressa, porque a primeira coisa que eles vão precisar é de uma consulta de psicologia para decidir quem é que liga o aspirador primeiro.
Ups... deixei-me dormir na arcada e sonhei. Foi um sonho lindo que não tenho oportunidade de partilhar com a minha mãe que sempre me disse para não sonhar alto, para nunca me esquecer de que os meus pés devem estar assentes na terra. Na verdade, sempre que voei, foi de avião.
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