recomeça o futuro sem esquecer o passado
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4 de agosto de 2026

177 anos de Moçâmedes

Cinquenta anos longe de Moçâmedes é tempo suficiente para um homem esquecer onde guardou os óculos, mas jamais para esquecer o sabor da sua beira-mar ou a teimosia do vento que insistia em despentear a memória.

No meu tempo  e que tempo, a cidade não precisava de grandes luxos para nos convencer de que era o centro do mundo. Bastava aquele azul do Atlântico a piscar o olho, o deserto logo ali a fazer de quinta de recreio e as Welwitschias a darem-nos lições de persistência sem cobrarem nada por isso. Hoje, a minha querida Moçâmedes sopra 177 velas. É uma idade respeitável, embora continue com ar de quem tem 20 anos e passou a tarde inteira a apanhar sol na baía, mesmo que o cacimbo tenha feito madrugada.

Eu, por outro lado, carrego cinco décadas de ausência. Meio século! Quando saí, o mundo ainda era a preto e branco e a malta achava que o futuro ia trazer carros voadores. O futuro chegou, os carros continuam no chão a gastar pneus, e a única coisa que realmente voou foi o meu tempo. Se eu voltasse lá hoje, desconfio que o deserto do Namibe me olharia com ar de gozo: 

- Olha este... envelheceu, e eu aqui, com as minhas dunas impecáveis!

Dizem-me que a cidade mudou, que ganhou novas cores, novos nomes, novas rotas, mas tenho a certeza absoluta de que a brisa do mar continua com o mesmo cheiro a sal e liberdade. E as Welwitschias? Espertas como sempre, com centenas de anos nas costas, a olharem para os 177 de Moçâmedes como quem diz: 

- Ainda és uma miúda!

Mesmo que a minha cidade não exista mais para além da minha memória, cinquenta anos sem nos vermos é muito tempo, minha velha amiga. Mas a vantagem da distância é que as memórias não ganham rugas. Para mim, continuas a mesma cidade luminosa, fresca e cheia de vida. Parabéns pelos 177 anos, Moçâmedes. Prometo não esperar mais meio século para te mandar um abraço até porque a matemática já não joga a meu favor!


Sanzalando