Em 1983 despedi-me do Porto com uma mala, um diploma de Medicina debaixo do braço e aquela estranha sensação de quem acaba de cumprir uma promessa sem fazer a mínima ideia do que vai acontecer a seguir. Regresso.? Fico? Parto para parte incerta com a certeza que faço-o de consciência?
O curso estava feito. Um sonho estava cumprido. Depois de anos a negociar com anatomias, fisiologias, farmacologias e outras disciplinas cujo principal objetivo era testar até onde podia ir a resistência humana e a capacidade de beber café. Chegara o momento de fechar os livros de escola. No sentido literal e académico. Outros livros havia para consultar, revistas para ler, palavras para escrever. Mas escolares era o ponto final.
Mas despedir-me do Porto não era apenas despedir-me da Faculdade. Era despedir-me de uma cidade que, durante aqueles anos, tinha sido casa, escola, laboratório, refúgio e, sobretudo, cenário de uma extraordinária coleção de amizades.
Em 1983, um curso de Medicina não terminava exatamente como hoje termina uma aplicação no telemóvel: não havia grupos de WhatsApp e outras redes sociais, GPS, nem aquela maravilhosa possibilidade de saber, em três segundos, onde estava toda a gente. Terminava-se o curso e cada um seguia o seu destino, com uma morada escrita num papel, um número de telefone na agenda escrita com uma BIC e a vaga esperança de que as cartas não se perdessem e que haveria de haver um telefone numa qualquer cabina para ligar com duas ou três moedas.
E assim, de repente, os meus colegas ficaram espalhados por Portugal.
Uns foram para Lisboa, outros para Coimbra, Braga, Aveiro, Viseu, Vila Real, Faro ou terras ainda mais misteriosas, onde aparentemente também havia hospitais. Cada um partia com os seus sonhos, os seus receios e aquela confiança um bocadinho exagerada que só se tem aos vinte e poucos anos e depois de sobreviver a seis anos de Medicina.
Eu também parti.
Levei comigo o diploma, algumas fotografias, uma quantidade razoável de memórias e a convicção, completamente ingénua, de que haveria tempo para tudo: trabalhar, visitar os amigos, manter as amizades, descobrir o país, construir uma vida e, se sobrasse algum tempo, talvez dormir.
O Porto ficou para trás.
Ficaram as ruas percorridas tantas vezes, os cafés onde se discutia a vida com a mesma solenidade com que se discutiam os exames, as noites longas, as conversas que começavam com só um café e acabavam sabe Deus quando, e aquela cumplicidade especial de quem passou anos a sofrer pelas mesmas cadeiras, pelos mesmos exames e, sobretudo, pela mesma pergunta: Achas que isto sai?
Hoje, olhando para trás, percebo que o mais importante que trouxe do Porto não coube num diploma.
Trouxe amigos.
Amigos que o mapa distribuiu generosamente por Portugal, como se alguém tivesse pegado num punhado de jovens médicos e os tivesse lançado ao acaso pelo país. Cada um foi fazer a sua vida, construir a sua carreira, constituir família, envelhecer, uns com mais dignidade do que outros e continuar a colecionar histórias.
Naquele tempo não sabíamos ainda que aquelas despedidas seriam o princípio de uma nova etapa. Pensávamos que estávamos simplesmente a acabar o curso. Afinal, estávamos era a começar a vida.
O Porto ensinou-nos Medicina, mas ensinou-nos também uma coisa mais difícil: a importância das pessoas que encontramos pelo caminho.
E talvez seja por isso que, tantos anos depois, quando penso naquele adeus de 1983, não me lembro tanto da mala, nem do diploma, nem sequer da ansiedade pelo futuro.
Lembro-me dos rostos.
E penso que tive muita sorte.
Saí do Porto com um curso de Medicina feito e amigos espalhados por Portugal.
Não era nada mau para quem, poucos anos antes, ainda andava a tentar descobrir onde ficava a saída da Faculdade, como eram as ruas dessa coisa chamada de Europa.
E, olhando bem, talvez ainda ande. Talvez um dia ainda me encontre na Cristal a comer uma francezinha ou no Juca a comer uma moelas, ali na esquina da Praça da República, ou a ouvir a música que saía pela janela da Japonesa. Ou seria a jogar bilhar ali para os lado do Marquês ou em Campanhã a ouvir os Jáfumega?



















