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25 de janeiro de 2026
Conversas à mesa 3 - Cultura e Identidade
Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 24 de Janeiro
- tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
23 de janeiro de 2026
o livro inexistente
22 de janeiro de 2026
uma biblioteca à lusofonia
Na minha imaginação eu criei a Biblioteca Universal da Língua Portuguesa, que fica exatamente entre Ficção e o Isso Depois Eu Leio, os livros da lusofonia aguardavam ansiosos pelo Dia Internacional de ser lido, data em que finalmente eu os tiraria da prateleira e os levasse para algum sítio onde pudessem ser lidos.
Um livro português muito elegante, A Relíquia de Eça de Queirós, alisava a lombada e dizia:
- Espero um leitor atento, com tempo, chá quente e alguma capacidade de ironia.
Um calhamaço brasileiro, Brasil dos Espertos de Ariano Suassuna respondeu, todo retorcido de palavras e muito humor:
- Leitor bom é aquele que topa tropeçar nas frases e ainda agradece pela queda.
Do outro lado, um livro cabo-verdiano, Batuku de Cabo Verde de Glaucia Nogueira, , fino mas orgulhoso, comentou:
- Eu aceito qualquer leitor. Até os que leem na praia e me enchem de areia existencial.
Um poema moçambicano de Paulina Chiziane suspirou:
- O importante é que leiam com respeito. Minhas histórias já sofreram demais para virar marcador de página.
Um volume de Fernando Pessoa, que na verdade eram quatro livros fingindo ser um só, começou a discutir consigo mesmo:
- Este leitor não vai me entender.
- Claro que vai.
- Não vai, não.
- Ainda bem.
O livro Tudo Sobre Deus de José Eduardo Agualusa acrescentou:
— No fundo, somos todos histórias à procura de alguém que nos sonhe acordado.
Fui interrompido por um jovem, enquanto eu delineava esta novela imaginada, olhou-me de cima a baixo, coçou a cabeça e disse:
- Gostava de um dia ler um livro em português, imaginado e escrito… mas não muito difíceis de ler.
Silêncio absoluto. Até que um livrinho Os Olhos Grandes da Menina Pequena de Ondjaki, esquecido num canto da minha memória, gritou:
- Eu! Eu!
Institivamente virei-me para ele e disse:
- Os Olhos Grandes da menina Pequena
Os outros livros, dentro da minha cabeça riram, o que, em termos técnicos, provocou um leve arrepiar no meu corpo. O jovem deixou-me e levou com ele o livro infantil debaixo do braço.
Os grandes clássicos ficaram ali, meio frustrados, meio aliviados.
- Pelo menos - disse Eça - hoje ninguém pulou os parágrafos longos - olhando para Saramago
- Nem sublinhou com caneta fluorescente — completou Rosa Lobato Faria.
E assim a biblioteca voltou ao seu estado natural: livros à espera, palavras cochichando e a lusofonia inteira concordando numa coisa rara — ler é sério, mas os livros adoram rir quando podem.
21 de janeiro de 2026
Programa 102 K'arranca às Quartas
na livraria da minha cidade
Na pequena Livraria Regina, da minha pequena cidade, que inexplicavelmente cheirava a café e também a maresia, os livros da lusofonia resolveram discutir entre si, mal da dona fechou a porta para ir almoçar.
Os livros sorriram num desfolhar de palavras para dentro, o que, no caso de alguns, fez levantar um pouco de pó, satisfeitos por saber que, apesar das diferenças de sotaque, ritmo e temperamento, ainda compartilhavam a mesma língua… e a mesma estante.
E assim ficou provado que a lusofonia é como uma boa biblioteca: cheia de vozes diferentes, mas todas a falar alto demais quando ninguém a está a ver.
20 de janeiro de 2026
eu tentei arrumar a estante
Perto da meia-noite a estante tremeu. Os personagens de Eça, com seus monóculos e um certo tédio aristocrático, ficaram horrorizados com a barulheira e o calor que vinham do cortiço carioca ou como se diria no Porto, de uma Vila no Rio de Janeiro.
- Pelas barbas de D. Pedro! - exclamou o Conselheiro Acácio - Haverá decência nesse ajuntamento de gente suada?
João Romão, do livro vizinho, nem olhou para trás:
- Deixe de mesura, patrício! Aqui a gente trabalha para enriquecer, não para discutir o brilho das botas!
Na manhã seguinte, o dicionário estava em choque. Mia Couto tinha inventado tantas palavras novas que o pobre dicionário sentio que estava a perder o emprego ou a roda da viagem.
- Isso não é português! - reclamava o Dicionário, rígido no seu grosso volume.
- Não é português, é portuguesar o mundo - respondeu um neologismo de Mia, saltando de uma página para a outra como um cabrito ou uma qualquer cabra de leque que africanamente não se sossega.
Enquanto isso, "A Geração da Utopia", de Pepetela, tentava organizar um comitê de libertação para os livros que estavam presos na seção de Autoajuda, por erro meu.
O cúmulo do caos aconteceu quando, por já não saber como organizar a estante, empilhei Guimarães Rosa em cima de José Saramago.
Foi o silêncio mais barulhento da história.
Saramago, dizem porém sem verdade, que recusava-se a usar vírgulas ou pontos finais para reclamar o peso. As suas frases de três páginas formavam um labirinto onde eu quase me perdi.
Guimarães Rosa, trazendo o modernismo da poesia brasileira a tiracolo, apenas observava, e quando respondia fazia-o num dialeto que misturava o sertão com o infinito:
- Viver é muito perigoso, mas ler o senhor Saramago, é um despropósito de frases compridas!
No fim do dia, percebi que a literatura lusófona não pode ser arrumada. Ela é uma festa na cozinha: o português de Portugal traz o vinho e a etiqueta, o Brasil traz a feijoada e o samba, Angola e Moçambique trazem o ritmo e a reinvenção da alma, e Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste chegam com a poesia que une o mar.
Desisti da ordem alfabética. Agora, organizo os livros por níveis de saudade.
19 de janeiro de 2026
um dia, pelo menos, sem internet
Pouquinho que passava das 10 da noite e veio o apagão das comunicações. Assim num segundo se foi a televisão e a internet. Me disseram que o rooter deu o último suspiro e a televisão transformou-se num retângulo plastificado e sem alma. O silêncio que se seguiu foi tão denso que deu para ouvir os pensamentos. No início, houve o pânico: levantei-me, reiniciei o dito, sempre sobre a máxima informática, desliga e volta a ligar. Nada.
E foi aí, no meio desse "nada", que a vida decidiu ficar engraçada.
Sem o brilho hipnótico da Netflix, os olhos demoram uns minutos a ajustar-se à realidade. Descobri, por exemplo, que o meu cão não é apenas um adereço de sofá e não deu por nada.
Acendi luzes, peguei no livro e retomei a leitura que tinha parado a meio da tarde. Meia hora depois novo desliga e volta a ligar e nada. Assistência técnica. Primeiro um diálogo teclado com uma máquina a dizer-me para fazer o que eu já tinha feito. E com a insistência dos meus NÃO, a máquina disse-me que iria encaminhar para um operador real. Um pouco de música e a voz simpática do lado de lá. Já não estava em diálogo virtual. Já fiz, disse eu a várias questões. Ok, amanhã ou depois irá um técnico até aí para ver o que se passa. Aguarde mais um pouco. A blá blá mas agora não podemos fazer mais nada. E assim estou sem internet, sem televisão e sem o mundo saber de mim.
A maior surpresa, porém, foi a interação humana. Sem o escudo da televisão, fui forçado a olhar para a minha parceira.
- "Então... parece que não há rede," disse eu, com a eloquência de um homem das cavernas. — "Pois não," respondeu ela. "Queres jogar às cartas ou preferes descrever-me o teu dia com adjetivos que não incluam emojis?"
Rimos. Rimos porque percebemos que estávamos a desaprender a falar sem o apoio de um desenho, de um boneco, de uma figurinha. Acabámos a inventar biografias fictícias sobre quem passava na estrada, criando uma novela mexicana em tempo real, só nossa, sem anúncios e com muito mais reviravoltas do que qualquer série da HBO.
O mais estranho foi o sossego. Não é a ausência de som, mas a ausência de urgência. O tempo esticou. Uma hora sem internet durou aproximadamente três dias úteis. E, num mundo que corre para lado nenhum, esse abrandamento é um luxo quase subversivo. Fui-me deitar mais cedo.
Acordei sem saber as últimas polémicas do Twitter, o que me tornou, automaticamente, a pessoa mais feliz num raio de cinco quilómetros. A vida sem Wi-Fi não é um regresso à Idade Média; é umas férias forçadas de nós próprios. E, honestamente? A comida tem melhor sabor quando não precisamos de a fotografar antes da primeira garfada.
15 de janeiro de 2026
o meu ferrugem de rolamentos
Não sei quantas estórias contei dos meus carros de rolamentos. Na descida dos Fonsecas, que por acaso também era a minha, era do Corado e dos Santanas, mas era assim conhecida e assim eu não vou desviar-me. Eu tinha um carrinho de rolamentos, que tinha ido buscar à oficina do Abel, e lhe chamei de Ferrugem, era assim mais parecido com Ferrari mas era original, porque era meu, feito por mim e também por mim baptizado.
Ferrugem é claro que não tinha motor, não tinha travões para lá do tacão dos meus sapatos ou sandálias e muito menos cinto de segurança que naquela altura tudo era seguro. O volante era uma corda e mais seguro a gente não podia estar já que segurávamos a corda com duas mãos. O meu carro de rolamentos tinha uma coisa: tinha atitude. Seus rolamentos corriam numa roda viva como quem diz estou aqui mas já ali, com rapidez.
Todos os fins de tarde era corridas. Passeio de cimento lizinho que até parecia tinha sido feito de propósito para as corridas de rolamentos. Tinha o carrinho do Álvaro, do Robalo, do Corado, do Santana. Está aqui e falta alguém mas a velocidade do Ferrugem lhe deixou para trás no esquecimento. P
Tem dias ganho eu, outros ganha outro.
— Hoje eu ganho e é só porque estou a descrever as palavras da descida com a D. Maria Guedes na janela e só abana a cabeça que estes miúdos não têm.
A simplicidade dos carros de rolamentos que a gente fazia era condicionado pelo gosto. O meu tinha direcção assistida porque era gerido com emoção, logo tinha direcção emocional.
A descida terminava numa curva a noventa graus e a velocidade tinha de ser controlada porque de contrário era um estatelado no asfalto ou no poste.
Ferrugem deixou saudades e algumas cicatrizes. Boas memórias para além da algazarra, das reclamações vizinhas que a gente geria com um ar de inocência.
Daqueles tempo ficou uma frase:
Se a vida é uma descida, desço rindo, tendo cuidado com os rolamentos que rolam.
14 de janeiro de 2026
Programa 101
tem dia de limpar
13 de janeiro de 2026
Sol de março em Janeiro
O sol de março parece queima a pele mais que qualquer sol num outro lado qualquer. Mas quando ele queimava a areia da minha praia, parecia estar a convidar as ondas a dançar na beira mar. Eu e os amigos, cheios de energia, mal podíamos esperar para mergulhar nessa aventura. Corríamos pela areia fofa e escaldante, sentindo a velocidade suave com que corríamos na cara e o cheiro salgado do oceano estava cada vez mais próximo.
Depois era o impulso em direcção ao céu e depois um mergulho de cabeça quando não calhava ser chapão ou um estatelado por tropeçar na crista da onda faz de conta ela era galo.
Depois construíamos um castelo de areia outras vezes era só mesmo um buraco, que rapidamente as ondas de março faziam desaparecer.
12 de janeiro de 2026
O arco e o pião
- Duvido que consigas pô-lo a girar na palma da mão! - tinha sempre um que desafiava, agarrando o aro que servia de arco e ia dar uma volta enquanto eu ficava a atirar o pião.
Raramente respondia, mas enrolava a guita com o cuidado de um cirurgião, mal sabendo o futuro que estava à minha espera. Com um movimento brusco e certeiro, lançava o pião. O som parecia música: um zumbido constante enquanto a madeira rodopiava furiosamente, parecendo estática de tão rápida. Com um jeito de mestre, passava a guita por baixo do pião e elevava-o. O pião saltava para a mão, continuava a girar, provocando a primeira vaga de gargalhadas e aplausos que faziam eco no meu ego.
Depois de meia dúzia de vezes a fazer os meus números de pião, o pessoal fartava-se e íamos fazer corrida de arcos, quando ele caía ou esbarrava tinha que se parar e acorrida terminava ali, a daquele arco. Mas não era por questão de afinação do arco, era mesmo por falta de pulmão que eu desistia à segunda ou na terceira volta. Raramente perdia o controlo. Era lindo ouvir o barulho do metal e o respirar ofegante. O suor escorria que nem mulola, mas a alegria fazia esquecer o cacimbo daquele mês de agosto.
Às vezes, exaustos, deitávamo-nos na relva, riamos só porque sim, ou então porque estávamos vivos, ou porque alguém tinha caído num rasteira gramatical ou numa poça de infantilidade.
Quando a cor do céu passava de azul a cor de laranja, a nos dizer que ia embora, era hora de voltar para casa, arco na mão, pião no bolso e alegria na alma.
Depois, muitos agostos depois, veio a adolescência e se foi a inocência. Nasceu a paixão e se foi a alegria infantil das tardes passadas na avenida ou no parque infantil.
As gargalhadas, quando voltavam, eram mais suaves, mais contidas e quando caminhávamos para casa, sabendo que a felicidade ia intervalar durante a noite me lembrava que anos atrás, afinal essa felicidade, cabia toda no arco de um círculo e no bico de um pião.
11 de janeiro de 2026
Na esplanada também há pastei de nata
Numa esplanada, na minha pequena cidade que não era mais pequena porque o mar trazia gente até ela, três pastéis de nata estavam na mesa, cada um o seu futuro mastigador, que, como quem não quer a coisa, os deixavam a arrefecer e filosofavam.
- Digo-vos já — começou o Um, olhando para o estaladiço e vaidoso pastel que até parecia o olhava - que nasci para ser conhecido, sem condimentos nem cunhas apesar de achar que a vida sem canela, pimenta ou gidungo, é vazia.
- Discordo — respondeu o Dois, mais babando-se no seu existencialismo. O verdadeiro sentido da vida é o equilíbrio entre a massa e o conteúdo. A canela, pimenta, sal ou gindungo são meros acessórios emocionais.
Os pastéis estaladiços crocantes aparentemente perderam a sua crocância e gelaram. Literalmente e metaforicamente.
E parecia mesmo. Pelo menos durante duas dentadas e meia, enquanto o Um, o Dois e o Três se emudeceram por verem a rapidez como aquele estranho havia devorado o seu pastel, sem filosofias.




