21 de janeiro de 2026

na livraria da minha cidade

Na pequena Livraria Regina, da minha pequena cidade, que inexplicavelmente cheirava a café e também a maresia, os livros da lusofonia resolveram discutir entre si, mal da dona fechou a porta para ir almoçar.

Os Lusíadas, muito sério e um pouco empoeirado, cantou:
- É evidente que eu sou o mais viajado de todos. Dei a volta ao mundo em versos, eu conto a História de um caminho de mar!

Um romance de Machado de Assis, apoiado na prateleira ao lado, sorriu do canto:
- Viajar é fácil quando se tem heróis. Difícil é entender a alma humana sem sair da sala de estar.

Lá bem do fundo da estante, um livro de Mia Couto espreguiçou as páginas e deixou cair uma palavra inventada no chão.
- Meus amigos, não briguem. O mundo é grande demais para caber num só poema ou num bigode irónico.

Um livro de Jorge Amado, com cheiro de mukeka literária, interrompeu:
— Grande mesmo é a Bahia, que cabe em qualquer lugar. Inclusive nesta livraria, entre um soneto e uma metáfora africana.

Uma coletânea de poemas de Fernando Pessoa, dele mesmo ou dele feito outro, começou a falar… depois mudou de ideia… depois falou de novo, e aí com com outra voz:
— Discordo de todos vocês.
— Qual de nós? — perguntou o Lobo Antunes.
— Sim. De todos, incluindo eu nos outros! afirmou Pessoa sem saber já se era ele ou outro

Enquanto isso, um livro de Pepetela observava tudo em silêncio revolucionário e comentou:
— Pelo menos concordamos numa coisa: sobrevivemos a leitores apressados e a resumos malfeitos.

De repente, a porta da livraria se abriu. Todos se calaram, fingindo respeitável quietude de papel. A dona havia chegado e havia que mostrar respeito. Entretanto entrou uma leitora curiosa, que passou os dedos pelas lombadas e disse:
— Adoro literatura em português. Dá para viajar sem precisar de passaporte, bilhete ou avião.

Os livros sorriram num desfolhar de palavras para dentro, o que, no caso de alguns, fez levantar um pouco de pó, satisfeitos por saber que, apesar das diferenças de sotaque, ritmo e temperamento, ainda compartilhavam a mesma língua… e a mesma estante.

E assim ficou provado que a lusofonia é como uma boa biblioteca: cheia de vozes diferentes, mas todas a falar alto demais quando ninguém a está a ver.



Sanzalando

Sem comentários:

Enviar um comentário