Eu tinha escrito um livro que considerava puramente angolano - A Poeira que Aprendeu a Falar. Não se vendeu nem um, mas era para mim como um best-sellers musculado das montras. Mas ele que tinha vontade própria preferia ficar encostado numa prateleira alta, a observar o mundo com a paciência de quem já viu muita coisa, guerras, silêncios, mangas maduras e promessas feitas à sombra de um imbondeiro.
O livro nascera em Luanda, numa tipografia cujas máquinas rangiam como se estivessem sempre a contar segredos. As páginas cheiravam a papel, sal, trânsito e pó, e se por acaso alguém o abria ouvia-se quase um “eh pá” discreto, como quem diz: senta-te, vamos conversar com calma.
A história lá dentro seguia Mateus, um rapaz que falava com a poeira vermelha das estradas. Não por maluquice — em Angola a poeira sabe muita coisa. A poeira lembrava-lhe que a terra tem memória, que cada passo deixa rasto, e que até os silêncios sabem cantar semba baixinho.
Havia capítulos que pareciam mornos como o fim da tarde, outros rápidos como uma zungueira a desviar-se do caos. As palavras misturavam português com kimbundu sem pedir licença, porque ali ninguém precisava de autorização para ser inteiro.
Certo dia, o livro foi parar a Portugal, numa mala apertada entre camisas cuecas e saudades. Quando alguém o abriu, numa noite fria, o livro estremeceu. Não de medo, de alegria. As páginas aqueceram a sala, a poeira vermelha espalhou-se pela imaginação do leitor, e Luanda entrou ali sem bater à porta.
No fim, o leitor fechou o livro devagar, como quem se despede de um velho amigo. E o livro, satisfeito, pensou:
— Pronto. Cumpri. Cruzei o mar outra vez.
E ficou à espera do próximo par de mãos.
Esse livro foi o único que teve saída, no dia que ofereci à minha mãe
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