22 de janeiro de 2026

uma biblioteca à lusofonia

Na minha imaginação eu criei a Biblioteca Universal da Língua Portuguesa, que fica exatamente entre Ficção e o Isso Depois Eu Leio, os livros da lusofonia aguardavam ansiosos pelo Dia Internacional de ser lido, data em que finalmente eu os tiraria da prateleira e os levasse para algum sítio onde pudessem ser lidos.

Um livro português muito elegante, A Relíquia de Eça de Queirós, alisava a lombada e dizia:
- Espero um leitor atento, com tempo, chá quente e alguma capacidade de ironia.

Um calhamaço brasileiro, Brasil dos Espertos de Ariano Suassuna respondeu, todo retorcido de palavras e muito humor:

- Leitor bom é aquele que topa tropeçar nas frases e ainda agradece pela queda.

Do outro lado, um livro cabo-verdiano, Batuku de Cabo Verde de Glaucia Nogueira, , fino mas orgulhoso, comentou:

- Eu aceito qualquer leitor. Até os que leem na praia e me enchem de areia existencial.

Um poema moçambicano de Paulina Chiziane suspirou:
- O importante é que leiam com respeito. Minhas histórias já sofreram demais para virar marcador de página.

Um volume de Fernando Pessoa, que na verdade eram quatro livros fingindo ser um só, começou a discutir consigo mesmo:
- Este leitor não vai me entender.
- Claro que vai.
- Não vai, não.
- Ainda bem.

O livro Tudo Sobre Deus de José Eduardo Agualusa acrescentou:
— No fundo, somos todos histórias à procura de alguém que nos sonhe acordado.

Fui interrompido por um jovem, enquanto eu delineava esta novela imaginada, olhou-me de cima a baixo, coçou a cabeça e disse:
- Gostava de um dia ler um livro em português, imaginado e escrito… mas não muito difíceis de ler.

Silêncio absoluto. Até que um livrinho Os Olhos Grandes da Menina Pequena de Ondjaki, esquecido num canto da minha memória, gritou:
- Eu! Eu!

Institivamente virei-me para ele e disse:

- Os Olhos Grandes da menina Pequena

Os outros livros, dentro da minha cabeça riram, o que, em termos técnicos, provocou um leve arrepiar no meu corpo. O jovem deixou-me e levou com ele o livro infantil debaixo do braço.

Os grandes clássicos ficaram ali, meio frustrados, meio aliviados.
- Pelo menos - disse Eça - hoje ninguém pulou os parágrafos longos - olhando para Saramago
- Nem sublinhou com caneta fluorescente — completou Rosa Lobato Faria.

E assim a biblioteca voltou ao seu estado natural: livros à espera, palavras cochichando e a lusofonia inteira concordando numa coisa rara — ler é sério, mas os livros adoram rir quando podem.



Sanzalando

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