recomeça o futuro sem esquecer o passado

17 de julho de 2026

futebol de rua

Nos anos 60, o asfalto da rua era o maior campo de futebol do mundo, e não precisava de relva, de holofotes ou de VAR. Bastava que o sol desse tréguas e que alguém abrisse a janela para dar o grito de convocatória: "Ó Manel, traz a bola!", mesmo que não fosse o Manel o dono da bola

A bola, na verdade, era um elemento de luxo. Quase sempre era de plástico leve, que fazia uma curva impossível ao mínimo sopro de vento ou, no melhor dos cenários, de couro já gasto, cosida tantas vezes que parecia ter mais cicatrizes do que os joelhos da gente. Quando não havia nenhuma das duas, jogava-se com uma meia cheia de trapos e restos de jornal. O futebol não escolhia texturas nem classes.

As balizas? Duas pedras de cada lado, ou dois casacos empilhados ou os livros da escola. A largura do golo era medida a passos, e ai de quem tentasse fazer batota:

-Isso foi golo! 

Qual golo, o tanas - palavrão não havia porque a gente não era como o Zé Malcriado! 

- Passou por cima da pedra - dizia o mais espigado.

O trânsito raramente interrompia a partida. Porque na minha cidade isso era coisa de hora de almoço e fim de tarde, no chamado passeio dos tristes. De meia em meia hora, lá aparecia um carocha ou uma carrinha de caixa aberta a avançar lentamente. O jogo parava com o grito clássico: "Olha o carro!". Os jogadores encostavam-se aos muros, sentavam-se no passeio, o veículo passava, e o jogo recomeçava exatamente no mesmo segundo, com a mesma intensidade de uma final da Taça dos Campeões.

O verdadeiro perigo não eram os carros; eram as janelas das vizinhas e os muros intransponíveis. 

Havia também a D. Maria, com a sua permanente impecável, feita na cabeleireira Carlota, que odiava o barulho da bola a bater no portão:

- Se a bola cai aqui dentro, furo-a! — ameaçava.

E, claro, pela lei de Murphy do futebol de rua, era precisamente para o quintal da D. Maria que a bola ia parar depois de um remate em balão. Ficava tudo em silêncio. Olhavam uns para os outros, a medir quem tinha a coragem de ir tocar à campainha ou saltar o muro. O mais novo era quase sempre o sacrificado para a missão de espionagem. E lá estava o salta-muros pronto para a confusão. Tirando um ou outro grito de vez em quando nunca ela furou a bola e nunca com ela ficou.

O jogo só terminava verdadeiramente quando acontecia uma de duas coisas ou a bola rebentava do gasto, ou a noite caía e uma mãe gritava " Jantar!"

Davam de dez a zero uns aos outros, com os pés negros do pó da rua, os sapatos esfolados na biqueira, o pavor das mães e os joelhos corados com o inevitável mercurocromo vermelho. Mas iamos para casa felizes, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, o campeonato recomeçava.



Sanzalando

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