recomeça o futuro sem esquecer o passado

14 de julho de 2026

quem me dera descriançar

O processo voluntário de descriançar, a transição oficial para o mundo dos adultos, devia vir com um manual de instruções e um aviso de letras garrafais: Atenção, contém altos níveis de stress e dores nas costas. A verdade é que nenhum de nós quer realmente crescer. Nós fomos enganados pela falsa promessa de que ser adulto significava apenas comer gelado quando apetece e ir para a cama à hora que quisermos. Ninguém nos avisou sobre o preço da eletricidade ou sobre a humilhação que é escolher uma marca de detergente para a roupa com base no nível de suavidade, no perfume e na qualidade da água.
O diagnóstico de que fomos definitivamente descriançados não vem com a certidão de nascimento, mas sim com pequenos e trágicos sinais do quotidiano. O entusiasmo que antes sentíamos no corredor dos brinquedos foi substituído por uma alegria genuína ao encontrar um gel anti-inflamatório em promoção. Antigamente, dormir era um castigo penoso e havia birra na hora de ir. Hoje, dormir oito horas seguidas sem acordar com o pescoço preso é considerado um milagre divino e o ponto alto da semana. Damos por nós a discutir a qualidade do isolamento térmico das janelas com vizinhos que nem sequer conhecemos pelo nome.
Que saudades de quando o único despertador era o grito da mãe a dizer que já estás atrasado, em vez deste toque eletrónico infernal que nos causa micro-enfartes diários. E agora é o relógio de pulso que até parece está a ter uma convulsão no braço.
Se a maturidade é obrigatória por lei, a nostalgia devia ser um direito constitucional com direito a subsídio. Há dias em que a única coisa que realmente apetece é acionar um botão de emergência, encolher um metro de altura e voltar para o tempo em que o mundo se resolvia com uma moeda de dois e quinhentos na Oásis.

Sanzalando

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