Enquanto os colegas estudavam Matemática, eu calculava ângulos com uma precisão que faria inveja a qualquer professor. A diferença era que, no meu exame, se falhasse uma conta, a bola branca não tocava na terceira bola e toda a gente ria e alguns até que aplaudiam.
- Rapaz, com a quantidade de horas que passas aqui, já devias pagar renda em vez do que marca o contador. - diziam-me o encarregado daquele estabelecimento de batota e pouco aéreo, pelo menos ali.
Eu respondia que estava a investir na minha formação profissional.
E era verdade. Aprendi a perder sem fazer drama, a ganhar sem fazer alarde e, sobretudo, a fugir pela porta das traseiras quando passava algum professor ou familiar.
Um dia encontraram-me por mero acaso.
- Então, Carranca, porque não está na escola?
Olhei para a mesa, para o taco e depois para ele.
- Professor, estou numa aula prática de Física. Estamos a estudar o movimento, os choques e as leis da reflexão e refracção.
Ele sorriu, abanou a cabeça e respondeu:
- O problema é que, no fim do período, quem leva com a tabela és tu.
Tinha razão. Eu perdi o ano. Quer dizer, ele passou, eu é que não, portanto foi o ano que me perdeu.
Pouco tempo mais tarde percebi que as aulas faziam falta. Mas também descobri que o bilhar me tinha ensinado uma coisa importante: antes de cada jogada é preciso parar, pensar e escolher bem a bola. Ela, não a bola, foi a razão da tacada aos estudos ter primazia em relação à tacada de bilhar de fim de tarde, depois da voltinha dos tristes que eu em triste figura ficava na esquina a ver o carro passar.
Com muito mais estratégia eu até que apanhei o comboio e lá encontrei o tal de futuro, que não só foi promissor como me é grato olhar para todo o passado e ter orgulho de ter tido tal passado. O taco está na caixa, a mesa mantem o pano verde, algum pó e o passeio dos tristes agora dou eu com alegria estampada no rosto
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