recomeça o futuro sem esquecer o passado

18 de julho de 2026

posfácio do livro que não escrevi

Viver a saudade misturando humor e nostalgia é uma das formas mais bonitas e saudáveis de manter o passado vivo sem ficar preso a ele. A saudade pura pode ser pesada, mas quando lhe juntamos uma pitada de ironia e um sorriso de canto de boca, ela transforma-se numa espécie de melancolia feliz.

Aqui ficam algumas pistas de como navegar nessa arte que cultivo, transformando o tenho saudade num lembras-te daquela loucura ou daquele dia?

A memória tem a mania de romantizar as coisas, mas o humor vive nos detalhes imperfeitos. Recordar o passado com nostalgia e humor exige que olhemos para quem éramos sem filtros de grandiosidade.

Riu-me das modas e dos penteados: Lembro-me daquela fotografia antiga com um corte de cabelo indefensável ou uma roupa que, na altura, parecia o auge do estilo. As grandes  tragédias que olho hoje e me parecem comédia: Aquela viagem de férias em que o carro avariou no meio do nada, a tempestade que inundou a tenda de campismo, ou o primeiro desgosto de amor que parecia o fim do mundo e hoje é só uma boa história de café.

Olhar para as memórias como se eu fosse um narrador da minha própria vida, ajuda a distanciar a dor e a focar na piada das situações.

Ao lembrar-me de um verão antigo ou da infância, tento focar nos contrastes: como a vida parecia incrivelmente analógica, as praias cheias de de gente picnicando, ou os verões infinitos onde a maior preocupação era saber se a bicicleta tinha ar nos pneus ou eu tinha liberdade para sair.

A nostalgia ganha leveza quando a trato como um filme ligeiro e castiço, cheio de personagens caricatas como aquele tio que contava sempre a mesma estória, ou o vizinho resmungão que nunca vi sorrir.

A música é o gatilho mais rápido para a nostalgia. Mas para manter o humor, brinco com os contrastes temporais. Faça uma viagem no tempo e ouço aquelas canções antigas que hoje soam deliciosamente datadas. Vale tudo: desde os clássicos da rádio dos anos 60 e 70, às que os meus pais ouviam no gira-discos, até aos refrões, agora pimba, ou os pop exagerados da adolescência. Cantar alto um drama musical do passado enquanto se conduz ou se cozinha tira o peso à ausência e transforma a saudade numa celebração vibrante.

A saudade solitária tende a carregar no drama; a saudade partilhada tende a virar comédia. Quando escrevo para os amigos de longa data ou família, recupero as velhas histórias, Uso o clássico recurso do exagero humorístico: aumento o tamanho da onda que quase vos levou na praia, acrescento drama àquela vez em que me esqueci de ir ter com alguém. O acto de contar e rir em conjunto exorciza a melancolia da perda e foca-me no privilégio de ter vivido algo digno de ser lembrado.

Viver a saudade assim é aceitar que o olho pode ficar húmido, mas a boca curva-se para cima. Não há mal nenhum em sentir um aperto no peito por um tempo que já lá vai ou por pessoas que estão longe ou que já partiram. O segredo está em olhar para trás, não com o lamento de quem perdeu, mas com a cumplicidade de quem sabe que foi muito feliz naquelas imperfeições.

Como dizia o outro, a melhor forma de honrar os bons velhos tempos é garantir que eles renderam boas novas gargalhadas cada vez que são lembrados.



Sanzalando

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