recomeça o futuro sem esquecer o passado

7 de agosto de 2026

Cirurgiando numa noite

O diploma de cirurgião ainda nem tinha secado a tinta quando me vi instalado numa sala do Hospital Distrital. Tinha trinta anos, uma cara de quem ainda pedia autorização à minha mãe para sair à noite e no livro de ponto estava escrito para lá do nome a palavra Chefe. A partir das vinte horas daquela sexta-feira, era o cirurgião principal de serviço e por acaso era o único. A derradeira linha de defesa entre a vida e a morte no hospital.

Nos primeiros trinta minutos, refiz tudo o que aprendera com o bisturi, de forma mental e pratiquei o meu olhar de autoridade sentado numa cadeira, desconfortavelmente. Imaginava-me num episódio dramático de televisão, pronto para salvar vidas em cenários impossíveis com um sopro de genialidade táctica. A realidade, contudo, prefere a comédia ao drama.

A primeira urgência da noite não veio acompanhada por luzes azuis e sirenes estridentes, mas sim pela enfermeira-chefe, uma mulher que já trabalhava naquela urgência desde antes de eu ter aprendido a tabuada dos sete ou a dos nove, pois não sei qual aprendi primeiro. 

- Sr. Doutor, temos uma emergência - anunciou ela, com a tranquilidade glacial de quem me diz o tempo meteorológico.

Levantei-me com rapidez teatral, sentindo o coração marchar no peito como um tambor da banda do Cassequel. Corri pelo corredor em forma de L, já a rever mentalmente os passos de uma laparotomia de urgência, para encontrar um senhor de setenta anos, de pijama às bolinhas, com um osso de galinha entalado na prótese dentária.

A cirurgia de alta precisão durou exatamente doze segundos e exigiu uma pinça e alguma diplomacia para pôr uma compressa onde o osso furara a gengiva.

O resto da noite decorreu de forma surreal de pequenas crises existenciais. Às duas da manhã, entre três cafés intragáveis, tive de emitir um parecer urgente sobre uma ferida no dedo de um padeiro local que jurava ter sido atacado por um espadarte empalhado, não fosse o cheiro a tinto eu nem me apercebia que o pão hoje ia faltar num lugar qualquer. Às quatro, enfrentei o seu maior pesadelo táctico: tentar decifrar a caligrafia do médico da tarde para perceber se o doente da cama quatro tinha alta ou se estava marcado para uma cirurgia qualquer.

Pelas seis da manhã, sem qualquer catástrofe cirúrgica para contar na minha futura biografia, mas com as pálpebras a pesar dez quilos cada uma, percebi a grande lição da medicina na província: a autoridade de um cirurgião principal não se mede pela complexidade do bisturi, mas sim pela capacidade de manter a dignidade enquanto pede a um enfermeiro que lhe mostre, pela terceira vez, onde fica a sala de estar, já que me havia perdido umas tantas vezes.



Sanzalando

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