Naquele meu tempo a tarde caía lentamente, parecia até que era pesada daquele calor quente de verão que colava a camisa às costas e fazia o asfalto parecer cemitério de tampinhas. Naqueles fins de tarde a minha missão era de importância capital, quase a pedir estratégia militar, ficar na esquina da Rua da Fábrica com o caminho do Impala Cine, encostado ao poste, com um ar perfeitamente banal para ninguém desconfiar. A ideia, claro, era parecer que eu tinha acabado de aterrar ali por mero acaso. Assim do estilo alguém que passava, sentia uma súbita vontade de contemplar o trânsito de carros e motorizadas, e que, por coincidência divina, se cruzaria com ela.
A estratégia exigia treino e muita preparação. Cruzar os braços? Muito defensivo. Mãos nos bolsos? Demasiado descontraído, corria o risco de parecer um miúdo sem rumo. Ficar de pé, com um pé apoiado no poste e o olhar fixo no horizonte, parecia a pose ideal. O problema do horizonte é que ele não mudava, mas as pernas começaram a tremer ao fim dos primeiros vinte minutos.
- Estás à espera do machimbombo, ó miúdo? — perguntou o Sr. Latinhas, ao passar saído da barbearia. - Olha que aqui só passa o lá vai um de vez em quando. - e desatou a rir Engoli em seco e tentei esboçar um sorriso de sabedoria incompreendida:
- Não, Sr. Latinhas. Estou só a apanhar ar.
- A apanhar ar na esquina deste tempo? Tá bem, tá. Vê lá no que te metes...
Aos trinta minutos, o ar de verão já me tinha cozido o lado esquerdo da cara a se notar pelo encarnado que estava. A camisa de manga curta, passada a ferro começava a colar-se à pele. Cada carro que eu via ao longe fazia o coração disparar para batimentos cardíacos incompatíveis com a vida humana. Olhava de lado, disfarçando com uma tossezinha seca, só para ver chegar o carro da Laurinda da Quitanda.
Uma hora depois a esquina já não era um posto de observação; era uma tortura como as que eu tinha aprendido nas aulas de História. E então, aconteceu. A esquina iluminou-se e até parece ganhou uma outra luz de fim de tarde. Lá vinha ela, como sempre sentada no banco de trás, mesmo atrás do pai. O carro passou e acho ela nem olhou para esquina.
Acho era eu estava do lado escondido do candeeiro. Foi assim que naquele dia parece ela se tinha evaporado. Pensei rápido e rápidamente decidi que tinha que mudar de lugar, seguindo a rota diária daquele passeio de fim de tarde, de todas as tardes.
Sem comentários:
Enviar um comentário