recomeça o futuro sem esquecer o passado

22 de setembro de 2026

e às vezes assim se fazia rádio

Dizem que a história é escrita pelos vencedores, mas, na Angola dos anos 1970, a história da música também foi gravada por corajosos miúdos e sonoplastas cúmplices que mereciam, no mínimo, um monumento ao microfone.

Para o cidadão comum, o rádio da época era um aparelho sagrado. Ligava-se e ouvia-se o que a censura ou a ordem vigente mandavam. Tudo muito formal, muito certinho, muito "boa noite, caros ouvintes". Mas o que ninguém contava era que, assim que o sol se punha e o chefe da estação ia para casa dormir o sono dos justos, o estúdio de rádio mudava de dono. À meia-noite, a emissora virava um quartel-general da clandestinidade musical.

Imaginem a cena da porta da rádio a ranger devagarinho e, de repente, entram às escondidas três ou quatro músicos carregando uma viola com o braço meio empenado, uma dikanza feito à pressa e um batuque improvisado. O técnico de som, com cara de quem não está a ver nada mas a controlar todos os botões, dava o sinal:

Malta, o chefe só volta às sete da manhã. Temos cinco horas para gravar a revolução!

Gravava-se nas condições mais surreais do mundo. Não havia cá isolamento acústico de última geração; o isolamento era o silêncio da noite. Se um cão ranhoso resolvesse latir lá fora a meio do refrão, o latido virava ritmo. Se alguém tossisse, repetia-se. A fita estava ali a metro. Microfones eram dois. 

Então, a resistência fazia-se em metáforas culinárias e amorosas. Cantava-se sobre uma vizinha refilona que "não deixava a panela ferver", mas toda a gente na cidade sabia perfeitamente que a "panela" era o país e a "vizinha" era a cusca que bufava no bufo. Era o único país do mundo onde uma canção sobre um prato de moamba podia fazer o poder tremer nas bases.

Assim que a fita magnética terminava de rodar, o milagre acontecia. A bobina clandestina era guardada a sete chaves e no dia certo, que era o domingo de manhã, a gente passava uma ou outra.

E no dia seguinte, quando a rádio começava a emitir, a magia da cumplicidade estava feita e o recado na mesa do director estava a reclamação.

- Mas não temos cá essa música. Quem é o autor? - através do silêncio o segredo era mantido e o pobre do sonoplasta assobiava para o lado para não se denunciar. - Os gajos da censura são doidos e fazem cada confusão.

Domingo seguinte lá estava mais uma das músicas gravadas nas tantas da noite. Desta vez foi Zeca Afonso na versão do Beto. Mas os vampiros não disseram nada.

A rádio e os oficiais pensavam que controlavam o ar, mas os músicos amadores dos anos 70 provaram que a noite sempre foi do ritmo. E se a censura tinha as armas, a madrugada tinha as melhores guitarras.



Sanzalando

21 de setembro de 2026

hoje fui ao hóquei

O sol das 6 da tarde em Moçâmedes já não queimava, mas o chão do ringue do Atlético já fumegava como uma frigideira de ferro antevendo um jogo de ferro em brasa depois das 9 da soite. Na bancada, a assistência ia-se acomodando entre um copo de cerveja bem gelado, tremoços e um burburinho carregado de certezas táticas que envergonhariam qualquer treinador lá da metrópole.

Mas o verdadeiro espetáculo não era a táctica. Era a convivência entre a gravidade do desporto e a total falta de condições para a praticar com solenidade perante aquele público que merecia uma casa maior.

Nos anos 70, o hóquei em patins em Moçâmedes era uma mistura fina de arte, velocidade e perigo iminente. A começar pelas patins. As rodas, gastas por mil quilómetros de cimento abrasivo, dividiam-se entre as que ainda giravam e as que protestavam a cada curva com um guincho que parecia o de um animal assustado. O material vinha de longe, durava anos a mais e recebia reparações caseiras com fita cola, massa concistente, arame de fardo e uma dose generosa de fé.

O jogo começava, e o piso de cimento tinha regras próprias. Havia o tal buraco do lado esquerdo da baliza do lado do mar, um pequeno desnível no piso que todos os jogadores locais conheciam de cor. A equipa da casa jogava sempre com esse conhecimento estratégico, bastava empurrar a bola na direção do buraco para que ele ganhasse uma trajetória doida, saltando por cima do stick do defesa visitante, enganado tolos e acessórios. Quando o árbitro apitava e os visitantes protestavam, a resposta do público era em coro: 

- É o vento do mar, pá! Aprende a ler as correntes!

Depois, havia os equipamentos. As caneleiras eram rijas como tábuas de pinho e as luvas de cabedal tinham um cheiro tão intenso a suor e mofo antigo que funcionavam quase como arma de arremesso. Defender um remate de meia-distância com o peito exigia mais coragem do que ir à pesca, até porque o equipamento de proteção do guarda-redes parecia montado com sobras de almofadas e mantas velhas.

O ponto alto da tarde, contudo, dava-se quando, uma figura local que se auto-proclamara cronometrista oficial, perdia a cabeça com uma decisão do árbitro. Sem relógio eletrónico — apenas um cronómetro de bolso que já tinha pertencido ao seu avô, ele gesticulava tanto com os braços nas jogadas polémicas que o tempo regulamentar passava a ser uma questão puramente subjetiva. 

- Quanto tempo falta?! - gritava o treinador de fora. 

- Falta o tempo que for preciso para a gente empatar isto! - respondia ele com toda a serenidade institucional.

E no fim, ganhasse quem ganhasse, o protocolo era sagrado. Desatavam-se as correias de cabedal, descalçavam-se as botas pesadas, ficavam os pés a respirar a brisa da noite e a discussão continuava, agora com o mesmo ardor, mas com uma cerveja na mão e o som das muitas vozes ao fundo. Porque em Moçâmedes, o hóquei podia não ter os requintes dos rinques europeus, mas tinha algo muito melhor: o charme inconfundível do improviso, da poeira e da boa gargalhada no final do jogo e os encontros no bar do Sporting.



Sanzalando

19 de setembro de 2026

PERTINÊNCIAS 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota

O Museu de Portimão organiza na Lota Sábados de Fado à noite. Assim, é pertinente, depois de ver uma sala cheíssima, levar até quem não teve lugar, não pode ir pelas mais variadas razões, o que ali se passou.
Neste 1º temos uma parte com a Abertura da Exposição O que é o Fado, que contou com a presença de fadistas, tendo uma chegado a cantar num barco - a moira - e outra a cantar na Janela da Antiga Lota, para além das palavras da Directora do Museu, Do Dr. Paulo Félix, curador da exposição e sua Exa. Sr. Presidente da Càmara. Depois temos então toda a primeira noite de Fado do Há Fado na Lota, com Rafael Pacheco e seus convidados







Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências. Mesmo que as palavras sejam sons de guitarra e viola


Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também. 


Imperdível



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Fui às Hortas

Eu tinha um plano e disse-o à minha mãe:

- Vou às hortas. Chegou a hora de ver o que consumirmos, de ter contacto com a terra, de ver a comunhão da natureza com o que comemos. Não foi exactamente assim porque naquela altura eu não sabia falar caro e tão claro. O meu português era mais suave, mais oral. Mas agora eu aprendi e conto com as palavras de hoje, mas com o pensamento de então.

Ela olhou para mim por cima dos óculos. Não disse uma palavra, mas o olhar trazia uns tantos anos de sabedoria acumulada sobre as minhas fases. Já tinha sido a fase da pão e a fase do aquário. Agora era a horta.

Peguei na bicicleta e lá fui em direcção ao Bero, à horta do Sr. Carriço. Ele tinha acabado de sair, Levou coisas para o mercado, me disseram. O ar fresco do campo parecia prometer um dia bem passado. À minha frente, estendia-se um mar verde. Um mar verde profundamente misterioso, onde para mim tudo parecia rigorosamente a mesma coisa - ervas com folhas.

- Bom, vou começar pelo básico - declarei, agachando-me junto a um canteiro com ar entendido. Olha para o vigor destas folhas! Isto sim, é uma alface biológica de primeira categoria.- Foi o que eu pensei mas para afastar mau-olhado não disse nada.

- Isso é salsa, menino — disse o capataz parecendo que estava a ler o que eu tinha pensado

- Salsa graúda - disse eu rapidamente, para manter o meu prestígio.

Aproximei-me de um arbusto que me pareceu ter potencial gastronómico. Tinha umas coisas penduradas que me pareceram, sem margem para dúvidas, pequenos frutos em gestação.

- Vejam só! Belos frutos! Quem diria que a terra aqui é tão fértil?

O capataz riu, apoiou-se no pau que trazia sempre, olhou para mim, cuspiu para o lado e disse: 

- Isso são tomates. E ainda estão verdes. Se comer isso agora, passa a noite a falar com o cagatório.

Agradeci a dica técnica com um aceno digno e mudei de sector. Decidi que o meu forte seriam os tubérculos. Os tubérculos não enganam: estão debaixo da terra, ninguém vê, logo a probabilidade de eu passar vergonha diminuía drasticamente.

Encontrei umas ramagens verdes a sair do chão. 

- Cenouras! - disse triunfalmente. - Sinto o cheiro a cenoura daqui!

Agarrei nos ramos com a determinação de um agricultor ancestral e puxei com toda a força. Saí disparado para trás, caí de costas em cima de um calhau e fiquei a olhar para o troféu na minha mão: uma raiz miserável, do tamanho de um palito, acompanhada por um carolo minúsculo e atrofiado que parecia pedir-me desculpa por existir.

O capataz abanou a cabeça, coçou a testa e comentou para o ar: 

- Arrancou erva... Isso nem para os coelhos serve.

- Estava a testar a resistência do solo — justifiquei-me, limpando a terra das calções e tentando recuperar a postura.

Voltei para casa. No caminho, passei pela quitanda da Laurinda, olhei bem para uma alface verdadeira, toquei nos tomates que eu pensava já nasciam vermelhos e prometi a mim mesmo que a minha próxima comunhão com a terra seria, exclusivamente, através de um bom prato de sopa servido à mesa pela minha mãe, sem certificado de origem.


Sanzalando

18 de setembro de 2026

Uma hora de rock em 1972 - Formula POP

Em 1972, fazer um programa de rádio de uma hora dedicado ao rock era uma coisa muito séria. E a gente fazia. Quando cheguei na rádio já lhe tinham começado faz tempo. Partiram para ir estudar fora e novos fomos entrando. Uns mais tempo, outros menos tempo, mas o programa diário se mantinha. Mas era sério mesmo que a gente ainda não parecesse ser. Tão séria que, antes de começar, era preciso ter a certeza de que ninguém em casa tinha decidido ir passear, que o vizinho não estava a partir uma parede e a mãe não tinha resolvido chamar para ir comprar pão. 

Porque uma hora de rock, em 1972, não era simplesmente uma hora. Era uma missão. Cada um chegava à rádio com uma pilha de discos debaixo do braço, alguns cuidadosamente escolhidos e outros que tinham aparecido sabe-se lá de onde. Vinil preto, capas grandes, fotografias de músicos com cabelos compridos e expressões que pareciam dizer:

- Nós sabemos uma coisa que vocês ainda não sabem. Eu tenho este que mais ninguém por aqui tem!

Eu também queria parecer que sabia e que tinha. Não sabia e não tinha. Rock não era a minha escolha de compra. Balada sim. Mas aquela hora era de rock e por isso se chamava Formula Pop. Eu só tinha um microfone à frente, um prato de gira discos de cada lado e muita fé em fazer. E isso dava-me uma certa autoridade. 

O programa começava com uma voz muito séria e que dizia qualquer coisa como -Boa tarde. Está no ar mais uma hora dedicada ao melhor do rock... Dizer "rock" ao microfone em 1972 fazia-nos sentir quase revolucionários. Depois vinha a música. E que música! Os discos rodavam no gira-discos da rádio e, durante alguns minutos, ninguém falava. O locutor ficava a olhar para o ponteiro, atento à agulha.  Um risco no disco e lá vinha um crac, para além de ter de justificar ao dono o que é que tinha acontecido e era uma carga de trabalhos.

Outro risco e outro crac. Mas esse crac já tinha vindo de casa assim. Era de ter sido tanto tocado, tanto emprestado que acho se gastou, dizia para me animar. Mas ninguém reclamava. Era rock. E o rock, naquele tempo, tinha direito a tudo. Entre uma música e outra, era preciso falar. Essa era a parte perigosa. De vez em quando saía argolada porque o disco estava trocado na capa.

- E acabámos de ouvir esta magnífica banda... - Pausa. Olhar para a capa do disco. - ...que dispensa apresentações. Porque a gente tinha dado com a marosca. Mas fechado o microfone saía palavrão contra o autor que normalmente não era o dono do disco. Era uma frase maravilhosa - que dispensa apresentações -  Servia para tudo, principalmente quando nós próprios não sabíamos muito bem quem eram. Depois anunciávamos a próxima:

- E agora, vamos ouvir mais um grande tema...

Mais uma vez, a solução universal. Uma hora inteira dava para dizer "grande tema" umas quinze vezes sem ninguém notar. O problema era o relógio. Uma hora de rádio parecia muito tempo antes do programa começar. Depois, já com vinte minutos de música, descobríamos que afinal uma hora passava depressa como um solo de guitarra. E ainda faltavam três discos. Começávamos então a cortar.

- Este tema fica para uma próxima emissão... Era mentira. Nunca mais nos lembrávamos na próxima emissão. Mas ficava bem, isso ficava. Dava aspecto de continuidade.

Acabado o programa lá fora continuava tudo igual. Os carros, as pessoas, as preocupações, os vizinhos e o mundo. Mas durante uma hora tínhamos conseguido uma coisa extraordinária, em 1972, dentro daquela pequena rádio, o mundo tinha cabido num gira-discos.

E o mais curioso é que, quando hoje penso nessa hora de rock, já não me lembro apenas das músicas. Lembro-me do cheiro dos discos, do ruído da agulha, das capas enormes, do medo de deixar o silêncio entrar no ar e daquela sensação maravilhosa de estar a fazer rádio quando fazer rádio ainda parecia uma aventura. Uma hora. Sessenta minutos. E uma quantidade de rock suficiente para convencer qualquer rapaz de 1972 de que o futuro, afinal, podia ter uma guitarra elétrica.

Ao Maló, Van Der Kellen, Carlos Matias e o disco cracou na hora de dizer mais nomes. Talvez o Luís Mendes se lembre.


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16 de setembro de 2026

Mostra da Pintura de João Sena - K'arranca às Quartas 132


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África da Palavra de Lopito Feijó


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Tesourinhos Musicais 106 - Jaime Nascimento e Conjunto Helder Reis - K'arranca às Quartas 132


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Esta Música tem uma História 70 - Ana Moura - Tens os olhos de Deus - K'arranca às Quartas 132


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Crónicas de Carlos Osório (30) - K'arranca às Quartas132


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Crónica de João Portelinha da Silva (37) - K'arranca às Quartas 132


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Crónica 119 - K'arranca às Quartas 132


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Programa 132 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 09 de Setembro de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é
 Esta Música tem uma história com Ana Moura e Tens olhos de Deus, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, Jaime Nascimento e o Conjunto Helder Reis
Carlos Osório falou do terraplanismo e aconselhou ouvir Trigacheiro e os Quatro e Meia
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 No livro falei  Palavra de África de Lopito Feijó
Falei do Quadro Fado de João Sena que foi apresentado na abertura da Exposição O que é o Fado e apresentei a gravação do acto, na voz de João Valongo

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

A esplanada dos mais velhos

Em 1970, sentar-me numa esplanada era uma forma bastante eficiente de aprender coisas que ninguém tinha intenção de me ensinar. Na Oásis eu era recebido como o puto que queria ser grande. Me gostavam e eu gostava de estar ali. Eu era miúdo e os adultos tinham aquela qualidade extraordinária de falar como se soubessem tudo. E, pior ainda, falavam com uma segurança que tornava desnecessário verificar. Não é como agora que a gente tem de verificar tudo porque tudo pode ser mentira, mesmo a verdade que a gente pensa que está a ver. Mas deixemos este futuro e voltemos àquele presente.

Os mais velhos sentavam-se sempre no mesmo sítio. Tinham mesa marcada sem que houvesse marcação. Bastava aparecerem e a mesa já era deles. O café podia estar cheio, mas aquela mesa tinha donos. Talvez por direito adquirido. Talvez por cansaço dos empregados. Talvez apenas por respeito e todos sabiam que eles não iam faltar. Acho mesmo que o único motivo válido para faltar era morrer.

Eu sentava-me por perto e ouvia. Eu e uma catrefada de adolescentes sentávamos duas mesas mais para o lado direito deles.  Falavam de futebol, de mulheres, de política, de pesca, de doenças e, sobretudo, do tempo. O tempo era um assunto muito importante.

- Antigamente é que fazia calor!

 - Agora já não há calor como havia.

 - E as chuvas? Essas então...

Tudo antigamente era melhor. Até o frio. Depois começavam as histórias. Um dizia que tinha conhecido um homem que tinha pescado um peixe tão grande que precisara de três homens para o tirar da água. Outro corrigia rindo e dizia que achava que tinham sido quatro. Eu ficava fascinado, de olhos arregalados a lhes ouvir. Não pelo peixe, que provavelmente nunca tinha sido pescado, mas pela facilidade com que aqueles homens mais velhos podiam aparecer numa história onde inicialmente só havia um silêncio. Era assim que funcionava a memória. Uma história começava pequena e, à medida que passava de pessoa para pessoa, engordava. O mais engraçado era que ninguém parecia preocupado com a verdade. A verdade era uma coisa pouco interessante. O importante era a história ser boa. E eu aprendi ali uma coisa que só muito mais tarde compreendi: os adultos também inventavam. A diferença é que chamavam àquilo memória.

Às vezes perguntavam-me:

 - Estás a ouvir?

Eu dizia que sim, porque tinha aprendido que, quando um adulto conta uma história, o mais prudente é não interromper. Pode haver um peixe enorme pelo meio. E havia sempre. Hoje, quando penso nessas tardes de 1970, lembro-me menos do que diziam e mais da maneira como diziam. Tinham tempo. Tempo para contar uma história que podia durar meia hora e não chegar a lado nenhum. Tempo para discutir uma coisa que já tinha acontecido há vinte anos. Tempo para beber um café lentamente. Nós hoje temos relógios que sabem tudo. Eles tinham relógios que só sabiam uma coisa: que ainda era cedo. Talvez seja por isso que aquelas esplanadas ficaram na minha memória. Porque eu era miúdo, eles eram velhos e, durante algumas horas, ninguém tinha pressa de chegar ao futuro.

O futuro podia esperar. Até porque, naquela época, ainda não sabíamos que um dia íamos ter telemóveis, internet e tanta pressa para não dizer absolutamente nada.




Sanzalando

15 de setembro de 2026

eu e a inteligência artificial

Me sento, já não com a sebenta de capa encarnada mas frente ao computador. Haverá no mundo desgraça maior do que a página em branco duma tela a cintilar para mim? Aquele cursor a piscar, implacável, como uma lombriga vertical  à espera que eu o faça avançar à frente de letras. Ele pisca mas não avança. Olho-o como que hipnótizado e ele nada, melhor, pisca. Durante séculos, um escritor sofria em silêncio, fumava cigarros baratos, bebia café frio ou vinho de fraca qualidade, amassava papéis e culpava a musa inspiradora pela esterilidade mental de uma terça-feira ventosa. Hoje, o sofrimento acabou, temos a Inteligência Artificial, essa grande colega que nunca dorme, nunca reclama e finge que acha os nossos pensamentos profundamente originais.

A verdade nua e crua é que a Inteligência Artificial veio democratizar a preguiça mental. Antigamente, para ser um preguiçoso de elite, exigia-se algum talento, era preciso inventar desculpas mirabolantes para não entregar o trabalho, adiar prazos com pretextos vagos ou simplesmente olhar para o teto durante três horas seguidas à espera de uma epifania que nunca vinha. Agora, não. Basta abrir uma janela do computador, escrever "escreve aí uma crónica sobre a minha inércia existencial com um tom espirituoso" e ir ver se o vento acalmou. Uns segundos depois, temos um texto impecável, polido, cheio de metáforas sobre o vazio cósmico e sem um único erro ortográfico. É obra. Nem uma letra trocada, nem uma vírgula num deserto plantada, só travessões e dois pontos, como quem semeia trigo num campo de letras. Ou será joio?

O problema é que este atalho está-nos a transformar em caracóis intelectuais. Se continuarmos a delegar o esforço de juntar sujeito, verbo e predicado a um servidor localizado num armazém gelado na Conchichina, que não sei bem onde fica, mas deve ser lá para os lados do fim-do-mundo, daqui a uns anos o nosso cérebro vai atrofiar ao ponto de só conseguirmos comunicar através de grunhidos e polegares levantados ou emojis préviamente desenhados. O ser humano evoluiu a caçar mamutes, bisontes, a inventar a roda, a criar uma linha de montagem mas o cume da nossa evolução vai ser a admirável capacidade de carregar na tecla Enter para que uma máquina faça o esforço por nós.

Ironias à parte, há algo profundamente poético nesta simbiose entre a nossa preguiça ancestral e a alta tecnologia. A máquina oferece o engenho e nós oferecemos a nobre arte de não fazer nada. Juntos formamos a equipa perfeita. E se me perguntam se fui eu que escreveu este texto ou se recorri a um algoritmo, respondo com a honestidade que me caracteriza, deixem-me ir ver o que a inteligência artificial tem a dizer sobre o assunto, porque pensar dá um trabalho terrível e como ainda não acabou o verão, não trabalho para aquecer.



Sanzalando

14 de setembro de 2026

pedradas nos castanheiros

Quando eu era adolescente havia uma ciência rigorosa, quase física e de alta precisão, na arte de atirar pedras às árvores. Eu nunca fui bom nessa disciplina. Para comer castanhas na frente da casa do Sr. Martins alguém tinha que atirar pedra por mim. Hoje em dia, os jovens descarregam apps e jogam jogos num telemóvel, mas quando eu era adolescente os jogos eram o chão, as padras e pedrinhas e o verdadeiro ecrán eram as copas das árvores que davam castanhas, que não são as castanhas que se compra no supermecardo.

O objetivo teórico era simples que era fazer cair o fruto, a castanha. O objetivo prático terminava, noventa por cento das vezes, com três pedras a passarem sobre a árvore, um ou outro vidro de janela partido e nenhuma fruta no chão.

Existiam vários perfis de atiradores na nossa malta. Um que estudava a trajetória, limpava a pedra na camisola, media o vento com o dedão molhado e falhava o alvo por quatro metros, acertando com precisão cirúrgica na telha da casa do vizinho mais rabugento da rua. Outro ignorava a pedra fina e delicada, escolhia autênticos calhaus. Cá para mim ele não queria apanhar fruta; queria derrubar a árvore. O lançamento terminava invariavelmente com um estiramento muscular no ombro e a pedra a cair verticalmente a dois centímetros do seu próprio pé. O Zé tinha uma pontaria assustadora. Acertava exatamente na castanha mais bonita, mas com tanta força que a transformava em compota instantânea ainda no ar. Chegava ao chão apenas um caroço envolvido numa nuvem de polpa amassada.

O verdadeiro drama era quando a pedra ficava presa entre os galhos. Ninguém aceitava perder uma boa pedra, afinal, tínhamos gasto três minutos a escolhê-la por ser perfeita para caber entre dedos. A solução era atirar uma segunda pedra para desembrulhar a outra. O resultado? Duas pedras presas e a fruta continuava lá em cima, a rir-se da nossa ignorância.

O auge do método científico era a chegada do dono da casa em frente, avisado pelo som cadenciado de pedradas contra o telhado ou janelas. A aceleração que atingíamos na fuga provava que, se a gravidade não nos ajudava a fazer cair as castanhas, a adrenalina garantia-nos pelo menos a velocidade necessária para ultrapassar qualquer distância.

Olhando para trás, a árvore comigo nunca perdeu um único combate. Mas nós voltávamos no dia seguinte, de bolsos pesados e pontaria renovada, convictos de que a física e o jeito, finalmente, estariam do meu lado, porque do Zé estavam sempre.



Sanzalando

13 de setembro de 2026

Pertinèncias 26 - Feira do Livro e a sua Música


Sanzalando

Pertinências 26 - A Música na Feira do Livro

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 26 - Música na abertura, no meio e no final da Feira do Livro






Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar. 


Imperdível



Sanzalando

12 de setembro de 2026

eu e os jogos de futebol

Ah, nos anos 70 era a era de calças à boca de sino, camisa mil-flores e cabelos compridos e uma bola de cabedal que pesava três quilos quando seca e quarenta e dois quando molhada. Se não era assim é porque já me esqueci como é que era. Mas se havia coisa que unia a vizinhança era o futebol de rua, mesmo na minha rua que uns jogavam a descer e outros a subir. Mas havia um problema que era quando a paixão pelo jogo excedia radicalmente a capacidade motora, o chamado jeitinho, o que era o meu caso.

Eu era aquilo a que as pessoas daquele tempo chamavam de desprovido de talento, mas que no bairro se resumia a um simples e cristalino: Ó pá, tu ficas à baliza ou vais para a ponta do pé de microfone! O ritual começava sempre no momento sagrado das escolhas. Dois capitães, habitualmente os rapazes com mais cabedal ou donos da bola, mediam pés para decidir quem escolhia primeiro. Pé, calcanhar, bico, sola... O primeiro a ser escolhido era o melhor dos jogadores, que fintava até a própria sombra e mesmo assim se saía bem. O último era invariavelmente eu. A escolha para me escolher para a equipa não era feita por tática, era porque sim.

As regras do futebol de rua nos anos 70 eram simples, elegantes e imprevisíveis: As Balizas eram duas pedras, duas mochilas ou duas chinelas porque havia quem ia jogar descalço no alcatrão. A altura da baliza era sempre uma discussão filosófica e conforme dava jeito. Qualquer golo por cima do guarda-redes, o verdadeiro chapéu, gerava dez minutos de debate com o clássico passou por cima dos dedos, não conta! O dono da bola era o imperador absoluto. Se ele se chateasse porque levou um túnel que é o mesmo que dizer uma cueca, o jogo acabava, a bola ia para debaixo do braço e nós ficávamos a olhar para o alcatrão a ponderar o sentido da vida. Quanto ao tão falado fora de jogo simplesmente não existia. Existia apenas o conceito de babuja, que consistia em ficar a um centímetro da pedra-baliza adversária a esperar por um milagre.

Como eu não tinha pés para a bola, a minha função principal era a de obstáculo móvel. Uma vez cortei um passe decisivo com o joelho esquerdo enquanto tentava atar o sapato. Fui aclamado como um estratega do desarme.

Jogar na rua nos anos 70 tinha também o factor fauna e flora. Havia o carro do senhor Santos estacionado perto do campo, uma raspadela de bola no espelho lateral equivalia a correr como se não houvesse amanhã, a vizinha que odiava crianças e guardava as bolas que caíam no quintal e o alcatrão gasto que nos deixava os joelhos em carne viva. O mercurocromo da avó fazia milagres.

No fundo, eu nunca soube se jogava à bola ou se a bola é gozava comigo. Mas quando a luz do candeeiro da rua se acendia o sinal universal de que estava na hora de ir jantar antes de levar um raspanete, ficava aquela sensação de dever cumprido. Tinha os pés doridos, as calças rasgadas no joelho, zero golos marcados e uma felicidade que nenhum troféu do mundo conseguiria pagar. Mas que raio havia de me acontecer. Gostava tanto de futebol mas a falta de jeito fez-me um dia ser médico e entrar em campo de braçadeira de médico. Entrei ou não entrei em jogos importantes?




Sanzalando

Bom dia Mercado 18 - Rádio Portimão





Programa de Rádio feito no Mercado de Portimão, ao vivo hoje, 12 de Setembro de 2026.
Convidados e música ao vivo. Tal e qual foi feito

Ouça-nos tal e qual lá estivemos







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

10 de setembro de 2026

Fui ao Cinema domingo de manhã

As manhãs de domingo cheiravam a café fresco na cozinha da minha avó e a pão torrado no fogareiro com azeite. A mim, vestiam-me os calções de algodão, que podiam ser de chita ou outro tecido qualquer que eu não protestava desde que não picassem nas coxas, meias altas até ao joelho e um par de sapatos de fivela encerados até parecerem espelhos. Era domingo, que é que julgam.

O meu avô agarrava-me pela mão e marchávamos pelo passeio a caminho do Cine Moçâmedes. Marchávamos porque não podíamos chegar tarde e não havia distrações no caminho. Para mim, ele era uma espécie de capitão de mar e guerra, impecável e postura ereta, mas com um ponto fraco terrível, não gostava de ir à praia.

Naquele domingo em particular, a fita era do Cantinflas. O cinema estava composto por uma legião de miúdos irrequietos e avôs resignados. Os projetores arranjaram vida, o feixe de luz cortou o escuro e, exactamente aos três minutos de filme, ouvi o ruído, gargalhada geral. Não era uma gargalhada qualquer. Era uma sinfonia, num crescendo que parecia competir com a orquestra da banda sonora.

Às tantas, na tela, o Cantinflas saltou para cima de um comboio em movimento e disparou um tiro para o ar, o meu avô deu um pulo na cadeira, e eu e eles os miúdos todos. Inesperadamente estávamos aos gritos. A sala de cinema parou. Pelo menos uns vinte miúdos atiraram-se literalmente para debaixo das cadeiras, espalhando medo por todo o lado. Eu, de calções e meias altas, encolhi-me no assento, dividindo-me entre a vergonha absoluta e uma gargalhada histérica.

O meu avô gargalhou como eu nunca tinha lhe visto. Era domingo e era um filme para crianças

Quando voltámos para casa, a minha avó perguntou se o filme tinha sido bonito. O meu avô piscou-me o olho e disse: 

- Uma palhaçada, Leovegilda. Mas o miúdo tem bons reflexos



Sanzalando

9 de setembro de 2026

Esta Música tem uma História 69 - António Zambujo - Eu Já Não Sei - K'arranca às Quartas 131


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Tesourinhos Musicais 105 - Roberto Carlos - K'arranca às Quartas 131


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Prantos, Amores e Outros Desvarios – Teolinda Gersão - K'arranca às Quartas 131


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O que é o FADO - Entrevista com o Dr. Pedro Félix - K'arranca às Quartas 131


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Crónica de João Portelinha da Silva (36) - K'arranca às Quartas 131


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Crónica 118 - K'arranca às Quartas 131


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Programa K'arranca às Quartas 131





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 09 de Setembro de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é
 Esta Música tem uma história com António Zambujo e Eu já não sei, com Roberta Sá e Yamandu Costa , numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, Roberto Carlos
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 No livro falei de Prantos, Amores e Outros Desvarios – Teolinda Gersão
E estive à conversa com o Dr. Pedro Félix sobre o Há Fado na Lota e o facto do Fado ser património Imaterial da Humanidade

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

8 de setembro de 2026

A humildade política

Há uma coisa que a política moderna ainda não conseguiu ter que é a humildade. Inventou sondagens, assessores de imagem, especialistas em comunicação, consultores de estratégia, discursos com teleponto e até aquela expressão maravilhosa que tantos dizem humildemente, temos de reconhecer e que é normalmente pronunciada por alguém que, cinco minutos antes, acabara de explicar ao país que tinha razão em tudo.

A humildade política é uma espécie rara. Quase tão rara como um político que, depois de perder umas eleições, diga simplesmente:

 - Perdemos. O povo não gostou. Vamos pensar no assunto.

Em vez disso, ouvimos:

 - Tivemos uma vitória moral. -  rebuscando palavras e ideias que nada têm a a haver com o número final.

A vitória moral é uma coisa extraordinária. Não aparece nas urnas, não consta dos resultados oficiais e não se sabe muito bem onde se guarda. Mas é sempre muito útil quando faltam votos.

Há também o político humilde que diz:

- Eu não estou aqui por interesses pessoais.

E imediatamente pensamos: que homem extraordinário! Depois percebemos que está rodeado por quinze assessores, três carros, quatro câmaras, dois microfones e uma equipa de comunicação que já publicou nas redes sociais uma fotografia dele a apertar a mão a uma senhora de oitenta anos. A humildade foi fotografada de vários ângulos. Na política, até a modéstia precisa de produção.

O problema é que muitos políticos confundem humildade com baixar ligeiramente o tom de voz. Falam mais devagar, fazem uma pausa dramática e dizem:

 - Eu sou apenas um servidor do povo.

Servidor até que é uma palavra bonita. Sobretudo quando quem a pronuncia está há vinte anos a tentar continuar a servir. Eu cá gostava de ver um político verdadeiramente humilde. Um que entrasse numa conferência de imprensa e dissesse:

- Meus amigos, não sei! - seria revolucionário. E repetia - Não sei resolver isto! - e acrescentava depois de uma pausa para desembargar a voz - Enganei-me e enganei-vos! - seria revolucionário.

Aí, provavelmente, teríamos de chamar a UNESCO para classificar aquele instante como património imaterial da humanidade. Porque reconhecer um erro, na política, parece ser mais difícil do que reconhecer uma vitória.

E há outra forma muito interessante de humildade, ouvir. Não aquela coisa de ficar calado enquanto o outro fala, já preparando mentalmente a resposta. Ouvir mesmo. Ouvir quem discorda. Ouvir quem não votou em nós. Ouvir aquele cidadão que aparece numa reunião e faz uma pergunta incómoda. Aliás, uma pergunta incómoda é, para certos políticos, uma espécie de exame médico, preferem não fazer.

Porque a humildade não diminui ninguém. Pelo contrário: aproxima. O cidadão não espera políticos perfeitos. Espera políticos humanos. E talvez a maior demonstração de humildade política fosse perceber que o poder é emprestado. Hoje estamos no palco. Amanhã estamos na plateia.

E o público, esse, tem uma memória extraordinária. Não precisa sequer de apontamentos. Guarda tudo. Por isso, se algum político quiser realmente praticar a humildade, proponho-lhe um exercício muito simples - De vez em quando, desligue o microfone, deixe o teleponto em casa e vá ouvir as pessoas. Porque, às vezes, a verdadeira humildade política começa precisamente quando ninguém está a olhar.

(não falo de política, de futebol ou religião mas hoje cansei-me de ouvir as notícias. Todas!)

Sanzalando

7 de setembro de 2026

Pertinências 25 - Júlia Domingues e João Ventura

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas

Pertinências 25 - Júlia Domingues e Analita conversa com João Ventura






Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.

Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar. 


Imperdível



Sanzalando

no barco do Luís

O zulmarinho estava de um azul de capa de revista, mas o barco do Luís inspirava bem menos confiança que a própria física. O barco de madeira e lona, montado na própria praia e muita fé, rangia só de olhar para ele. Era de compra mas era único. Parecia uma construção de papel que se ia abrindo e ficava uma canoa de puxar estilo quando paraleleava a beira mar e elas me olhavam.

- Isto aguenta quanto peso? - perguntavam...

- Aguenta três pessoas! - respondi ajustando um boné cheio de salitre, enquanto pensava que só tinha lá andado com o Luís, mas a maior parte das vezes andava sozinho porque ele o tinha deixado à minha guarda, vantagem de não ser trabalhador das 8 às 17 e sim estudante em partime. 

A viagem começou gloriosa. O motor, um monstro de dois tempos, uma remada para a direita, uma para a esquerda e um rastro de água revolta na retaguarda que chamam de ré e que por acaso fica nas minhas costas. Eu parecia um campeão olímpico.

A duzentos metros  paralelo à costa e eu era sorriso e peito inchado. Eles, os que estavam na areia acho me invejavam. Bem, gente acabou na areia e dou a volta para regressar. O vento está do contra, Um tempo para a frente, um vento para trás. Acho já me faltava de ar no carburador, coração e pulmões, com autoridade remei mais forte mas o remo acho encolheu e ficou assim tipo colher de pau. Ao menos eu não saía do lugar pelo que optei por vir para terra. .

- Calma, que o centro de gravidade disto é dinâmico, pelo que deitei-me na areia como que a banhar-me de sol. Recuperei o folego. Fechei o barco como quem o põe dentro dum envelope e à beira mar fiz a circunavegação de regresso. Não sei se foi por acaso ou se foi de propósito, fiz esse regresso sempre a olhar para o horizonte. 

E assim, com o barco do Luís fiz muitas viagens de beira-mar remado ou a pé

Sanzalando

6 de setembro de 2026

Fiquei na esquina

Naquele meu tempo a tarde caía lentamente, parecia até que era pesada daquele calor quente de verão que colava a camisa às costas e fazia o asfalto parecer cemitério de tampinhas. Naqueles fins de tarde a minha missão era de importância capital, quase a pedir estratégia militar, ficar na esquina da Rua da Fábrica com o caminho do Impala Cine, encostado ao poste, com um ar perfeitamente banal para ninguém desconfiar. A ideia, claro, era parecer que eu tinha acabado de aterrar ali por mero acaso. Assim do estilo alguém que passava, sentia uma súbita vontade de contemplar o trânsito de carros e motorizadas, e que, por coincidência divina, se cruzaria com ela.

A estratégia exigia treino e muita preparação. Cruzar os braços? Muito defensivo. Mãos nos bolsos? Demasiado descontraído, corria o risco de parecer um miúdo sem rumo. Ficar de pé, com um pé apoiado no poste e o olhar fixo no horizonte, parecia a pose ideal. O problema do horizonte é que ele não mudava, mas as pernas começaram a tremer ao fim dos primeiros vinte minutos.

- Estás à espera do machimbombo, ó miúdo? — perguntou o Sr. Latinhas, ao passar saído da barbearia. -  Olha que aqui só passa o lá vai um de vez em quando. - e desatou a rir Engoli em seco e tentei esboçar um sorriso de sabedoria incompreendida:

 - Não, Sr. Latinhas. Estou só a apanhar ar.

 - A apanhar ar na esquina deste tempo? Tá bem, tá. Vê lá no que te metes...

Aos trinta minutos, o ar de verão já me tinha cozido o lado esquerdo da cara a se notar pelo encarnado que estava. A camisa de manga curta, passada a ferro começava a colar-se à pele. Cada carro que eu via ao longe fazia o coração disparar para batimentos cardíacos incompatíveis com a vida humana. Olhava de lado, disfarçando com uma tossezinha seca, só para ver chegar o carro da Laurinda da Quitanda.

Uma hora depois a esquina já não era um posto de observação; era uma tortura como as que eu tinha aprendido nas aulas de História. E então, aconteceu. A esquina iluminou-se e até parece ganhou uma outra luz de fim de tarde. Lá vinha ela, como sempre sentada no banco de trás, mesmo atrás do pai. O carro passou e acho ela nem olhou para esquina. 

Acho era eu estava do lado escondido do candeeiro. Foi assim que naquele dia parece ela se tinha evaporado. Pensei rápido e rápidamente decidi que tinha que mudar de lugar, seguindo a rota diária daquele passeio de fim de tarde, de todas as tardes.



Sanzalando

5 de setembro de 2026

O ininfluenciador

Antigamente as pessoas precisavam de ter um talento, uma profissão ou, no mínimo, uma história bizarra para contar nas reuniões de família para serem ouvidas. Hoje, graças à democratização do ecossistema digital, basta ter um telemóvel, uma luz circular de de 15 euros e uma determinação inabalável para chamar comunidade a três amigos, duas tias e um robô algures no mundo que vende criptomoedas e tem bué de perfis nas redes e eis que surge a figura mais fascinante do nosso século: o Influenciador Digital.

O influenciador vive num estado perpétuo de prontidão executiva. Acorda às seis da manhã — não para trabalhar, mas para fotografar uma chávena de café fumegante acompanhada pela legenda: A preparar as grandes novidades de hoje. Fiquem atentos!. Ninguém fica atento. O seu público é composto por pessoas que clicaram em seguir por engano, ou até por vício, enquanto tentavam fechar um anúncio de aspiradores.

O seu momento de maior apogeu acontece quando recebe a primeira parceria. Não estamos a falar de marcas de luxo ou estadias em Bora-Bora, mas sim de uma marca de chá de hibisco que lhe envia uma caixa de amostras em troca de dez vídeos, três reels e a alma da sua avó. O influenciador grava um vídeo de dez minutos a fazer o unboxing da caixa de cartão com as mãos a tremer de emoção:

- Vocês têm-me perguntado MUITO sobre o meu chá favorito...

(Spoiler: ninguém perguntou. A caixa de mensagens está tão deserta quanto um centro comercial às quatro da manhã de uma terça-feira. Mas a ilusão precisa de continuar.)

O verdadeiro drama do influenciador reside no impacto real da sua palavra. Se ele disser não comprem este casaco, a loja esgota o stock por pura coincidência estatística. Se organizar um evento de encontro com seguidores num parque público, a única entidade a marcar presença é a polícia municipal, intrigada com aquele jovem a falar sozinho para um tripé enquanto segura um um stick com um telemóvel na ponta.

E, no entanto, há algo de profundamente poético e admirável nesta bravura. O influenciador é o último romântico da internet. Ele mantém a fé num algoritmo que o ignora com a mesma dedicação com que continua a partilhar o look do dia no meio da paragem do autocarro, debaixo de chuva, sorrindo como se estivesse na semana da moda de Milão ou no Festival de Cannes.

No fundo, todos devíamos aprender com eles. Num mundo obcecado por métricas, alcance e conversões financeiras, o ininfluenciador (é de propósito) é a prova viva de que é possível ter uma autoconfiança de nível olímpico sem ter absolutamente nenhum resultado para mostrar. E se isso não é inspirador, então não sei o que será.

nota - tem por aqui palavras que tive que ir ver se as havia em português mas desencontrei e nem sei bem o que querem dizer.

Sanzalando

4 de setembro de 2026

relaxamento de bicicleta

Há uma ilusão perigosa que circula na nossa sociedade que é a ideia de que subir para cima de um selim de dois centímetros de largura é uma forma válida de relaxamento.

Dizem os entendidos e por entendidos refiro-me às pessoas que usam fato de treino de licra fluorescente, justíssimo ao corpo mostrando a famosa barriguinha criada pela idade, e mais nada para além disso, às oito da manhã de um domingo, que pedalar limpa a mente. O que ninguém avisa é que limpa a mente porque a substitui imediatamente por instintos primitivos de sobrevivência. Não há espaço para pensar nas contas da água ou nos prazos do trabalho quando 90% do cérebro está focado em manter o equilíbrio e os outros 10% em rogar pragas ao inventor das estradas de  paralelepípedos irregulares, ou asfalto com várias formas de arrefecimento tipo buracos e buraquinhos. Para não contabilizar os 100% do subconsciente, que vai com a sua atenção virada para os automóveis e seus palavrões.

O ritual do descanso sobre rodas começa logo na escolha da vestimenta. Olhamo-nos ao espelho enfiados num equipamento justo e a pergunta surge inevitável: estarei pronto para o Tour de France ou apenas para ser confundido com um pirilampo gigante em crise da idade? Superada a fase estética, vem a afinação da máquina. Pinta-se a ideia idílica de deslizar suavemente pela brisa marinha, mas a realidade do primeiro quilómetro resume-se a uma batalha campal contra um vento frontal que parece ter sido destacado pessoalmente pelo Instituto do Mar e da Atmosfera para nos testar a paciência e transformar um plano em subida que ontem ao fim do dia não estava ali.

Depois há a relação com o relevo. No mapa, a subida parecia apenas uma ligeira inclinação poética. Na prática, transforma-se no Evereste. A partir do terceiro minuto de subida, o tal descanso evapora-se com o suor que se solta. O coração bate num ritmo que faria inveja a um baterista de heavy metal, os joelhos emitem estalidos em código morse e a respiração ganha o tom melodioso de um fole de acordeão estragado. É neste preciso momento que cruzamos com outro ciclista que desce a montanha, fresco como uma alface, e nos lança um alegre Bom dia!  A nossa resposta, claro, é um aceno de cabeça, agonizante e um esboço de sorriso, que tenta transparecer dignidade, enquanto internamente ponderamos vender a bicicleta ao primeiro que passe a pé.

Mas o verdadeiro milagre acontece quando finalmente paramos. Encaminhamo-nos para a esplanada mais próxima, arrastando os pés como quem acabou de completar uma maratona nas dunas, e pedimos uma imperial. Sentamo-nos. Os músculos das pernas ainda tremem ligeiramente, a brisa finalmente sabe bem e o mundo parece rodar a um ritmo imensamente mais calmo.

É aí que se percebe a grande mentira do ciclismo recreativo, andar de bicicleta não descansa rigorosamente nada durante o percurso. O verdadeiro descanso é a paz absoluta, a glória incomparável e o alívio indescritível de, finalmente, conseguir desmontar da dita.


Sanzalando

3 de setembro de 2026

Tesourinhos Musicais 104 - Corina Freire - Programa 130


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Esta Música tem uma História 68 - Gal Costa - Contigo Aprendi - K'arranca às Quartas 130


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O Pintor debaixo do Lava loiças - Afonso Cruz (Anabela Quelhas) Livro - K'arranca às Quartas 130


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Crónica de João Portelinha da Silva (35) - K'arranca às Quartas 130


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Crónicas de Carlos Osório (29) - K'arranca às Quartas 130


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Crónica 117 - K'arranca às Quartas 130


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2 de setembro de 2026

Programa 130 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 02 de Setembro de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Agora só voltamos em Setembro

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que éEsta Música tem uma história com Gal Costa e Contigo Aprendi, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, Corina Freire
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 Crónicas de Carlos Osório que falou sobre notícias e catastrofismos, e do livro fui buscar as palavras a Anabela Quelhas - O Pintor debaixo do Lava loiças - Afonso Cruz.
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Joselito, Marisol e a minha infância cinematográfica

Quando eu era criança, havia uma coisa que eu levava muito a sério, os filmes de Joselito e Marisol que o avô Serafim me levava a ver no Cine-Moçâmedes. Ontem estava a falar com um amigo sobre as memórias que os avós deixam na nossa infância. E eu me lembrei e lhe disse que as melhores memórias que tenho desse tempo é mesmo com os avós. Com os pais estamos todos os dias e vira rotina. Os avós marcam, tatuam a alma e grafitam o nosso cérebro. Eles acabam por ser os nossos heróis.

Hoje penso nisso e acho extraordinário. 

O meu avô Serafim levava-me ao cinema.

Eu podia não perceber grande coisa da vida, mas sabia perfeitamente que, num filme de Marisol, haveria sempre uma menina loira, um vestido impecável, uma canção e alguém a tentar estragar-lhe a felicidade. E Joselito tinha sempre aquela voz que parecia vir de um sítio onde as crianças normais nunca tinham entrado.

Eu ia ao cinema preparado para tudo.

Sentava-me na cadeira, olhava para o ecrã e, quando começava a música, ficava completamente hipnotizado. Aquilo era cinema a sério. Não havia super-heróis, efeitos especiais nem explosões. Havia uma criança a cantar e nós, na plateia, em absoluto silêncio, como se estivéssemos perante um acontecimento histórico.

Eu, naturalmente, também queria cantar como Joselito.

O problema é que a minha voz não tinha sido informada dessa decisão. Lá em casa, eu cantava qualquer coisa que me lembrasse os filmes. A família ouvia com aquela expressão de quem está a tentar perceber se aquilo era uma manifestação artística ou um pedido de socorro.

- Cala-te, miúdo! - dizia-me um mais velho que não fosse um dos avós.

Eu interpretava aquilo como falta de sensibilidade musical.

Com Marisol era diferente. Marisol não precisava de fazer grandes esforços. Bastava aparecer e sorrir. Eu ficava convencido de que a vida era assim: as pessoas bonitas sorriam, cantavam, tinham bons vestidos e os problemas acabavam antes de aparecer em inglês que o filme tinha acabo.

Mais tarde descobri que não era bem assim.

Na infância, porém, o cinema ensinava-nos uma coisa maravilhosa, tudo podia acabar bem.

Se havia um órfão, aparecia alguém para o adoptar. Se havia uma injustiça, fazia-se justiça. Se havia uma menina triste, começava uma canção. E se Joselito cantava, até os adultos pareciam acreditar que o mundo tinha solução.

Eu saía do cinema convencido de que também podia ser artista. Chegava a casa, pegava numa vassoura como se fosse um microfone e começava o espectáculo. A família, que não tinha comprado bilhete para a sessão seguinte, tentava discretamente abandonar a sala. Eu não desistia. Porque naquela altura eu ainda não sabia que havia pessoas que nasceram para cantar e outras que nasceram para assistir aos que cantam. Eu pertencia claramente ao segundo grupo. Mas ficaram Joselito, Marisol e aquelas tardes de cinema. Ficou a música, ficou a emoção e ficou sobretudo aquela sensação de que, durante duas horas, o mundo lá fora podia esperar.

Hoje, quando penso nesses filmes, já não vejo apenas Joselito ou Marisol. Vejo o miúdo que eu era, sentado numa sala escura, olhos bem abertos, a acreditar que o cinema era capaz de explicar a vida. E talvez fosse. Pelo menos ensinou-me uma coisa que continuo a praticar: há memórias que não precisam de legendas. Basta começar a música.



Sanzalando

1 de setembro de 2026

uma história de amor que não aconteceu

O destino tem um sentido de humor muito particular. Brinca com a gente e a gente lhe olha de espanto. Não estou a falar daquele humor refinado do estilo dos ingleses, é mais no género vamos atirar uma casca de banana à vida deste ser humano só para ver no que é que dá.

Eu e ela tínhamos tudo para ser o casal do século passado transposto para este. Não me refiro a um século modesto, refiro-me àqueles romances de proporções que até dá dor nos braços de levar a tira-colo e que fazem as pessoas suspirar no cinema. Partilhávamos o mesmo ódio visceral por passas e frutas cristalizadas, gostávamos de bandas desenhada se ela ensinava alguma coisa e gostávamos de algo tipo alforrecas que só três pessoas na Islândia também gostavam e ambos achávamos que salsa é uma planta divina na comida e não uma dança latina. Em termos, falando numa língua actual, de algoritmo amoroso, a taxa de compatibilidade era de 99,9% para não ser número quadrado e totalmente redondo.

O problema afinal estava nos restantes 0,1%. Essa margem de erro microscópica vestia-se de desencontros com uma pontualidade britânica, que não teve piada nenhuma vez.

Na primeira vez em que devíamos ter ficado juntos, numa festa de aniversário, ganhei coragem para ir falar com ela. Quando estava a meio metro de distância, uma perna de frango voadora arremessada por um convidado demasiado entusiasmado bateu no meu peito e fez o meu prato de croquetes voar diretinho para a camisa branca dela. Foi uma tonelada de maionese que me estragou a coragem e a oportunidade. Passei o resto da tarde a pedir desculpa e a tentar tirar as nódoas com Pedras de Água que alguém disse que limpava tudo, o que, como se sabe, é uma das atividades menos romântica do planeta. E afinal as Pedras Água sé tiram a azia e os gases do estômago, porque as nodoas lá ficaram. Pelo menos na minha cabeça e na raiva dela.

Anos mais tarde, o universo fez sinal com outra oportunidade. Num encontro por acaso, encontrámo-nos no Monte do Estoril. A iluminação era péssima, mas a química era palpável e via-se a olhos vistos. Trocámos olhares, sorrisos e a promessa de que desta vez era a sério e não nos iríamos perder. Ela me perguntou se eu andava à procura dela e eu disse que não. Era mesmo por acaso. Fez um sinal com a mão, apontou para uma cabine de telefone, mas as portas do comboio fecharam-se com um barulho dramático. Foi lindo, digno de Hollywood. O pequeno detalhe é que nenhuma das portas tinha deixado passar a informação importantíssima, nenhum de nós tinha o número do outro.

E assim o tempo foi-se gastando ao ritmo dele. Eu tinha decidido ter uma crise existencial e mudar-me para uma cidade desconhecida chamada de Porto, não para comer regueifas nem brincar ao S. João. Ficámos assim tipo dois cometas com órbitas impecáveis, programados para brilhar juntos, mas condenados a passar um pelo outro a quatrocentos quilómetros por hora, a contar na distância.

Um dia vi-a passar na rua a caminho de um Congresso que eu também ia. Ela não sorriu, não acenou e eu preparei-me para atravessar a estrada e finalmente resolver esta dependência de anos. Dei o primeiro passo com a determinação de quem vai tomar o destino nas mãos. Foi exatamente nesse segundo que lhe disse olá e ela respondeu que não falava com estranhos que eu senti que tinha sido atropelado por um tractor. Quando o tractor saiu de cima de mim, recuperei o olhar e já não voltei a vê-la. No Congresso desviou a cara sempre que o meu olhar lhe marcava tipo raio laser. Descruzamo-nos para todo o sempre.

Acho que o universo não queria que ficássemos juntos porque sabia que, se a coisa funcionasse, seríamos felizes demais. E um amor perfeito, sem drama nem desencontros, estragaria qualquer boa história.


Sanzalando