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Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
- Pertinências 1 - Carlos Osório - Roblocks e os seus caminhos
- Pertinências 2 - Diagnóstico Dual - GRATO
- Pertinências 3 - "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa"
- Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair
- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
- PERTINÊNCIAS 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso
- PERTINÊNCIAS 10 - H(á) Mercado - Brasa Doirada
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- PERTINÊNCIAS 12
- PERTINÊNCIAS 13 - Por Dentro do CHEGA
- Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião
- Pertinências 15
- Pertinências 16 - As Abelhas
- Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
- Pertinências 18 - James McSill
- Pertinências 19 - Alexandra do Carmo
- Pertinências 20 - Orquestra de Jazz do Algarve
- Pertinências 21 - O Grande Võrtice da Desinformação
- Pertinências 22 - Goncálo M. Tavares
- Pertinências 23 - Jornalismo de Investigação
- Pertinências 24 - Teolinda Gersão
- Pertinências 25 - Júlia Domingues e João Ventura
- Pertinências 26 - A Música na Feira do Lovro em Portimão 2926
- Pertinèncias 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)
- Pertinências 28 - 2ª noite de Há Fado na Lota
- Pertinências 29 - 3º noite de Há fado na Lota
- Pertinências 30 - 4ª noite de há fado na lota
30 de setembro de 2026
Programa 134 - K'arranca às Quartas
era assim a rádio
Ainda me lembro de com os meus cerca de 10 anos sentar-me a ouvir rádio na sala da casa do avô. Era rádio e giradisco, um móvel completo com quatro delicados pés. Era lindo. O ponteiro vermelho navegava a passo de lento pela escala do rádio a válvulas que ocupava o lado direito daquele móvel Pousado na sala, contra-lateral ao móvel dos cristais que mais não eram que um serviço de copos finos, bem como um serviço de mesa que devia ter sido prenda de casamento da minha mãe. Era o mais importante e mexido móvel daquela sala.
Depois de alguns minutos de um chiar que parecia o fritar numa frigideira gigante, um estalido de válvulas em sofrimento e a voz: pontual, nasalada e com uma dicção tão empolada que parecia ter sido engomada com o ferro de engomar a carvão que a minha avó tinha.
"Da Emissora Nacional, transmitimos para todo o Ultramar... e territórios adjacentes!"
Nos anos 60, nas terras de Angola, o rádio não era apenas um aparelho: era o único parente saudável da família. Chegava a todo o lado. Nas roças de café, nos postos administrativos onde o administrador já falava sozinho há três meses, e nas varandas onde a malta se juntava para beber uma Cuca bem fresca enquanto tentava perceber o que se passava no mundo.
O programa começava invariavelmente com uma marcha militar para acordar os mortos, seguida pelo momento mais alto do dia: as mensagens e ofertas musicais. O locutor, com uma gravidade de quem está a ler o Testamento do Rei, começava a desfiar a lista:
“A D. Gertrudes, em Silva Porto, envia saudades ao seu afilhado Tonito, recém-chegado no paquete Vera Cruz, e oferece-lhe a canção ‘Cheirinho a Alecrim’. Nota da redação: a D. Gertrudes lembra também ao Tonito que ainda não pagou a dívida do alfaiate.” É evidente que esta parte já é delírio meu mas que às vezes apetecia brincar apetecia.
Depois também havia as grandes rádios provinciais que entre a publicidade indispensável ao sabão Clarim que garantia lavar desde o fato de domingo até ao motor da carrinha e uns comprimidos milagrosos para a malária que sabiam a sabão de lavar a roupa, lá vinha a música. As emissoras oficiais tentava impingir o fado corporativo e umas orquestras de salão que punham qualquer um a dormir em pé, mas o rádio tinha vida própria. Assim que a Emissora Oficial abrandava o cerco, o ponteiro saltava para as rádios privadas ou vizinhas. E aí a confusão era gloriosa: Roberto Carlos a berrar sobre o seu calhambeque, o semba a começar a partir tudo nos musseques, guitarras elétricas desafinadas dos conjuntos académicos locais e, se o vento soprasse a favor de Brasavile, um rumba congolesa com tanto ritmo que fazia até o cão da família abanar a cauda em contratempo ou a Voz Combatente que dava informações que nós não podíamos ouvir e nunca comentar.
Às nove da noite, no rádio clube local era a hora do Tic-Tac. A família inteira calava-se para ouvir histórias de embalar ou episódios recorrentes na cidade com a malícia própria do Sr. Director da Rádio que tinha um paleio que, acredito vendia areia no próprio deserto. Era hora sagrada de ouvir rádio
À meia noite, quando a A Portuguesa tocava e o sinal se afundava de novo na estática, ficava apenas o som dos tubos a arrefecer com um estalido suave e o rumor dos pirilampos que eu pensava não existirem. A emissão terminava mas com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, à mesma hora, o Sr. Tonito continuaria sem pagar ao alfaiate e os discos pedidos iam voltar...
29 de setembro de 2026
No Cine-Moçâmedes eu também queria ser artista
Ali, entre uma matiné e outra, descobríamos que o mundo era muito maior do que a nossa rua, a praia, o deserto e o caminho para casa. Bastava comprar o bilhete, entrar na sala, sentar e esperar que as luzes se apagassem. Eu tinha a sorte de ir para o balcão, na companhia do meu avô.
E depois começava a verdadeira educação sentimental. Primeiro apareceram Joselito e a sua voz. Joselito cantava com uma força que me deixava estupefacto, não sabendo naquela altura nem soletrar a palavra. Era ele um rapazinho e cantava como se tivesse dentro dele uma orquestra sinfónica, três padres e um coro de anjos. Eu, que ainda tinha dificuldade em cantar o Parabéns a Você sem me enganar na letra, olhava para o ecrãn e pensava:
- Este miúdo é o máximo. E era mesmo. O problema é que nós, sentados no cinema, também começávamos a achar que cantar podia resolver quase tudo. Se havia uma discussão em casa, cantava-se. Se aparecia uma rapariga bonita, cantava-se. Se o professor perguntava quem tinha feito os trabalhos de casa, talvez cantar fosse uma boa estratégia para mudar de assunto.
Depois veio Marisol. Marisol não era simplesmente uma rapariga que cantava. Marisol era uma instituição. Ela aparecia no ecrãn, cantava, sorria, chorava, apaixonava-se, voltava a cantar e parecia sempre saber exatamente o que fazer da vida. Nós, pré-adolescentes, ainda não sabíamos sequer o que fazer das nossas tardes. Eu via Marisol e começava a perceber que as raparigas podiam ser perigosíssimas. Não porque fizessem alguma coisa de mal. Era pior. Faziam-nos sonhar. E um rapaz de doze ou treze anos, com sonhos românticos, era uma criatura bastante desorientada.
Havia ainda Rita Pavone. Pequenina, energética, irreverente e com uma voz que parecia ter tomado café antes de entrar em cena. Rita Pavone cantava e nós ficávamos a pensar que talvez também pudéssemos ser modernos. O problema era explicar isso aos pais ou avós.
- Onde vais?
- Vou ali.
- Ali onde?
- Ao cinema.
- Ver o quê?
- A Rita Pavone.
E o avô ficava com aquele olhar de quem estava a tentar perceber se aquilo era cinema ou uma doença passageira.
Mas o grande perigo sentimental talvez fosse Gianni Morandi. Gianni Morandi tinha aquele ar de rapaz que parecia ter saído diretamente de um postal italiano para complicar a adolescência de meio mundo. Cantava, sorria e fazia parecer que apaixonar-se era uma coisa simples e nós acreditávamos. Só mais tarde descobrimos que não era. Na verdade, apaixonarmo-nos naquela idade era uma espécie de curso intensivo sem professor. Gostávamos de uma menina da escola. Depois de outra. Depois daquela que passava na rua com um vestido bonito. Depois da prima de um amigo. Depois de uma atriz que vivia a milhares de quilómetros e que, evidentemente, nem sabia que nós existíamos. E assim surgiam as primeiras paixões platónicas. Platónicas porque não havia outra maneira. Não havia telemóveis, mensagens, redes sociais, emojis nem likes. Se gostávamos de alguém, tínhamos duas hipóteses, olhar para ela ou apenas escrever o nome dela em todos os cadernos. E mesmo escrever o nome já era uma operação de alto risco.
O Cine-Moçâmedes era, portanto, uma espécie de universidade. Ali aprendíamos geografia, porque conhecíamos países onde nunca tínhamos estado. Aprendíamos música. Aprendíamos romances e paixões. Aprendíamos sofrimento. E, sobretudo, aprendíamos que no cinema toda a gente tinha problemas muito maiores do que os nossos mas, curiosamente, quase todos acabavam a cantar.
À saída, voltávamos para a rua de Moçâmedes. O filme terminado. As luzes acendiam-se. E nós regressávamos à vida real. Sem orquestra. Sem Marisol. Sem Rita Pavone. Sem Gianni Morandi. E sem ninguém a aparecer de repente para nos dizer que éramos talentosos. Mas levávamos qualquer coisa connosco. Levávamos a imaginação.
A magia daqueles filmes foi terem-nos ensinado que crescer não era apenas ficar mais alto. Era começar a imaginar quem gostaríamos de ser. Eu, naquela época, ainda não sabia muito bem quem queria ser. Mas uma coisa sabia, se um dia a minha vida tivesse banda sonora, queria que começasse no Cine-Moçâmedes. E, se possível, com a Rita Pavone a cantar. Porque Joselito podia ter uma voz extraordinária, Marisol podia ser encantadora e Gianni Morandi podia fazer suspirar meio mundo, mas nós, os pré-adolescentes de Moçâmedes, tínhamos uma vantagem, saíamos do cinema e ainda tínhamos uma rua inteira para sonhar.
28 de setembro de 2026
Como fui - Um drama em três actos
Sempre tive a ideia que a minha adolescência daria um best-seller de literatura à séria. Não uma daquelas biografias solenes e em papel encorpado, cheias de fotos de um rapaz contemplativo a olhar a linha recta que é curva ou a saborear a maresia do zulmarinho. Não. O meu livro de memórias juvenis pertencia, por direito próprio, ao género da comédia trágica, com forte pendor para o absurdo e um toque de drama do estilo telenovela.
O título está pensado há anos: Tinha Tudo Para Dar Certo - As Inconfessáveis Memórias de um Genio Incompreendido.
O problema para escrever esse livro é que a memória é uma aldrabona de primeira categoria. Quando fecho os olhos para recordar os meus gloriosos catorze anos, a minha mente tenta vender-me a imagem de um jovem rebelde, de casaco de malha e sandálias de pneu, olhar misterioso e postura de melancólico. Depois cai a ficha da realidade e lembro-me: o casaco de malha era da feira, o olhar misterioso era apenas um disfarce de quem finge que não vê mas dá conta de tudo e a postura de nostálgica devia-se a uma escoliose provocada por uma má postura no dia a dia.
Se a vida é uma praia, a adolescência é a maré baixa em que toda a gente tropeça nos rochedos e fica com a sola dos pés cheia de cortes e raspaduras.
No meu livro, dedicaria um capítulo inteiro às minhas técnicas de sedução. Um compêndio de três páginas sendo que duas seriam em branco para dar luz à sombria existência desse tal D. Juan. Recordo-me de passar tardes inteiras a treinar à frente ao espelho do quarto a forma como encostaria o ombro ao armário para falar com a rapariga da carteira ao lado. Na minha cabeça, o gesto transbordava charme urbano. Na prática, quando chegou o momento, calculei mal a distância, bati com o cotovelo no caixilho da porta, derrubei um ponteiro e o apagador do quadro e limitei-me a tossir pó de gis enquanto lhe perguntava se por acaso ela sabia a matéria para o teste de Geografia. Ela mudou de passeio. Compreensível.
Haveria também espaço para a análise sociológica das festas de garagem. Aqueles eventos épicos onde a iluminação era assegurada por uma lâmpada vermelha roubada do candeeiro da avó de alguém e a mesa de mantimentos exibia três pacotes de batatas fritas de marca branca e uma garrafa de refrigerante de ananás sem gás. Ficávamos ali, em pé, encostados às paredes húmidas, a fingir que percebíamos as letras das músicas em inglês e a rezar fervorosamente para que ninguém nos tirasse para dançar um slow, sob o risco iminente de revelarmos ao mundo a nossa total incapacidade de coordenar dois pés no mesmo ritmo.
E os pais? Ah, os pais no meu livro teriam o papel de vilões involuntários. Para um adolescente, não há figura mais perigosa do que um pai com uma câmara fotográfica nos anos 70, ou uma mãe que decide gritar pela janela da rua, à vista de toda a turma: Não te esqueças de vestir a camiseta que está vento!. Aquela simples frase tinha o poder destruidor de aniquilar anos de construção de reputação social em escassos três segundos.
Gostaria muito de escrever esta obra. Já me vejo na Feira do Livro, a assinar exemplares para leitores que balançam a cabeça em sinal de empatia. Mas depois penso: e se os meus amigos da altura leem o livro e resolvem publicar a versão deles?
Aí, meu caro leitor, a história muda de figura. E o meu best-seller arrisca-se a ser desmentido pelo capítulo mais temido de todos: A verdade sobre o dia em que ele tentou saltar o muro da escola e ficou preso pelos calções.
Acho que vou adiar a escrita mais uns anos. A humanidade ainda não está preparada para tanta revelação.
27 de setembro de 2026
Pertinências 28 - 2º Episódio de Há Fado na Lota , com Custódio Castelo e Ana Paula Martins
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
Fui passear na avenida e dei-me bem
O sol do final de tarde batia na terra vermelha da avenida, mas a verdadeira luz vinha do fato de domingo do meu avô, um azul-petróleo de pano tão rijo, que acho que se o avô se dissolvesse no ar como que por magia, o fato continuava de pé, sozinho, a cumprimentar os passeantes. Corria o ano de 1970, mais coisa menos coisa, e passear na avenida com os meus avós não era um mero exercício físico nem obrigação social, era um desfile militar de etiqueta, vaidade e absoluta desconfiança em relação ao futuro.
O meu avô, sereno e sério, caminhava com a postura de quem tinha fundado o concelho, usando o cabelo grisalho penteado para trás, com brilhantina, sapato de verniz que no fim ia ficar parecia era tijolo, costas direitas, olhos abertos como que a olhar para dentro das pessoas. Não era maldade ne, estava zangado com o mundo. Era só mesmo a pose natural de ser dele. Ao seu lado, a minha avó desfilava de permanente impecável, feita no sábado no salão da D. Carlota, e eu achava que ela dormia sentada para não despentear aquela estrutura arquitetónica à prova de furacões e ventos vespertinos, segurava a mala delicadamente na mão contrária ao lugar do meu avô. D. Leovegilda era primorosa na seu fato de xadrez branco e preto
A avenida em 1970 era o epicentro do choque geracional. De um lado, rapazes de cabelos compridos e patilhas gigantescas para além das calças à boca-de-sino que pareciam varrer a areia vermelha bem pisada à sua passagem. Do outro, o meu avô, que olhava para aquelas bainhas voadoras com o desgosto de quem prevê o fim da civilização.
- Olha para aquilo - resmungava ele tocando-me no ombro - gastam o dobro do tecido para parecerem um sino de igreja e nem um nó de gravata sabem fazer!
Cada dez metros, pelo menos na minha cabeça, exigiam uma paragem estratégica para uma saudação protocolar. O meu avô levantava acenava a cabeça com uma precisão cirúrgica.
- Muito bom dia, Sr. Doutor! Como está minha senhora. - para a senhora que ele sabia perfeitamente ter falado mal da nossa família em 1958 ou mesmo antes de eu ter nascido. Mas ele não tinha zangas, nem amuos, nem maus fígados.
A minha avó, pelo seu lado, desempenhava o papel de radar de intriga social. Não olhava em frente; olhava na diagonal, medindo a bainha dos vestidos das vizinhas e descobrindo escândalos através do movimento das cortinas das janelas.
- Viste a filha do barbeiro?- cochichava ela sem mover os lábios para a minha mãe que caminhava do lado da mala da minha avó. Acho eu que esta técnica de falar baixinho tinha sido apurada nos muitos anos de rezar o terço. - Olha aquela, trouxe uma saia dois dedos acima do joelho. O pai deve estar cego.
O ponto alto da expedição era sentar num banco corrido, de baixo do caramanchão de buganvílias que bordavam um dos lados da avenida. Ali iam passar todos os que iam e vinham nos domingos de tarde no seu passeio pela avenida. A minha mãe, provocadora estava alerta para mais uma qualquer brincadeira com uma sua amiga que estava descuidadamente a passear. Era susto sobre susto. E ainda por cima ria enquanto me olhava.
- Mãe, isso não se faz. As pessoas podem ficar gagas! - repreendia eu a minha mãe. Mais ela fazia.
Passear na avenida em 1970 com os meus avós era a garantia de que o mundo podia estar a mudar a um ritmo vertiginoso lá fora, mas ali, entre quem ia de norte para sul ou vice versa, a autoridade máxima continuava nas mãos de quem guardava rebuçados de mentol no bolso do colete, o meu avô.
26 de setembro de 2026
Bom Doa Mercado 19 - 26 de Setembro de 2026
25 de setembro de 2026
Fui e sou eu na essência de mim
A fita do gravador de cassetes estava a reproduzir o Rock da Stock que tinha gravado directamente do rádio, enquanto a névoa característica do Porto insistia em entrar pelas frestas da janela do lar onde morava com uma outra dúzia de deslocados.
Em 1980, o Porto não era uma cidade para fracos de coração, nem para estudantes de Medicina sem um sentido de humor à prova de aulas de Anatomia às oito da manhã.
Eu tinha vinte e poucos anos, o peito cheio de sonhos e a cabeça cheia de planos que raramente sobreviviam ao primeiro copo de vinho. A Medicina era o meu objetivo supremo, uma espécie de farol luminoso que me atraía com a promessa solene de salvar vidas, vestir um fato branco de bom corte e olhar para radiografias com um ar de quem decifra os segredos do universo. Eu ia ser um daqueles que sabe tudo só de olhar.
O problema é que, entre a teoria e a prática, metia-se a vida. E a vida no Porto, naquele ano de 1980, era incomparavelmente mais sedutora do que os livros infindáveis de Anatomia Humana, Patologia e outras ias que ainda não eram artificiais.
Lembro-me perfeitamente das semanas de campanha para a Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina. Enquanto alguns colegas encaravam a política académica com a gravidade de um conselho de ministros em plena crise governamental, eu descobri que ser jovem e ter piada era uma excelente ferramenta diplomática. Fazer uma piada bem metida no momento certo valia mais do que dez panfletos doutrinários impressos numa policopiadora (stencil?) de qualidade duvidosa. Na verdade, suspeito que metade dos votos que recebi na altura não foram pela minha visão para o associativismo, mas porque devo ter prometido tentar garantir uma distribuição mais equitativa de rissóis e croquetes no bar da faculdade.
A minha rotina dividia-se num equilíbrio precário: de manhã, tentava memorizar a fisionomia do plexo braquial; à tarde, debatia a cotação das francesinhas; à noite, discutia-se a revolução, a música, os amores impossíveis e as notas que teimavam em não subir. Os meus cadernos de apontamentos eram um monumento ao surrealismo, nas margens onde deviam estar esquemas do sistema nervoso central, havia caricaturas de professores, rascunhos de crónicas que nunca cheguei a enviar para o jornal e poemas dedicados a meninas que nem sabiam que eu existia.
Havia qualquer coisa de profundamente mágico naqueles dias cinzentos da Invicta. A humidade entranhava-se-me nos ossos, mas a juventude tratava de aquecer o resto. Olhava para os meus colegas mais dedicados, aqueles que pareciam ter nascido com um estetoscópio ao pescoço e sentia uma ponta e admiração misturada com um enorme alívio por não conseguir ser como eles. Eu queria ser médico, sim, mas não queria que a Medicina engolisse o rapaz engraçado que gostava de ver a vida a acontecer fora do anfiteatro e das enfermarias que cheiravam a tintura de iodo ou mercuruiocrómo.
Afinal de contas, a Medicina podia ser o sonho que me trouxera até àquelas alamedas frias do Hospital de São João, mas a vida com o seu barulho, a sua desordem, a sua ironia e as suas noites infinitas essa sim, era o meu verdadeiro lugar. E, olhando para trás, acho que foi exatamente essa vida que me ensinou tudo o que a faculdade não conseguia pôr nos livros.
E com tudo isto passaram-se 46 anos, mais coisa menos coisa, não fui o que pensei, mas cheguei lá bem perto e ainda tenho a vida que vivo e que é o meu verdadeiro lugar.
24 de setembro de 2026
à conversa com o tempo
Quando eu estava noutra latitude não tinha esse de verão, outono ou primavera. Fazia calor ou cacimbava. Era simples. Mudei latitude e se complicaram as voltas e dou comigo com esse de outono ameaça a bater à porta, mas me recuso a arrumar a toalha de praia. Para mim, o final de setembro na praia não é uma simples mudança de estação, é um retiro espiritual que dura esse de outono e inverno. Me acinzento.
Agora me sento no areal praticamente deserto, ajusto os óculos de sol já ligeiramente tortos da sua idade e suspiro com uma sonoridade poética. O mar de fim de verão ganha uma transparência nostálgica, como se guardasse nos murmúrios da água o segredo de todos os dias quentes. E vêm-me à memória outros mares, outros azuis, outras gentes.
- Pá, podes parar de falar sozinho? Estás a assustar as gaivotas — resmungou alguém que me era totalmente invisível, talvez fosse só a minha consciência. E ainda disse mais:
- Vieste para aqui apanhar uma pneumonia ou quê?
Ninguém percebe a minha sensibilidade. Mantendo o olhar fixo no horizonte fico com uma serenidade mágica na praia. Quando as multidões desaparecem e o mar volta a ser apenas sopro, espuma, imensidão e marulhar com sabor a maresia.
Não a bola de Berlim, não há a gastronomia da marmita da salada fria, da geleira de esferovite, do toldo ou sombrinha a cortar o olhar. Inspiro fundo, fecho os olhos e se tivesse cultura viajava se calhar até à Grécia antiga, mas sendo assim fico-me pela minha adolescência, pelo ardor do pica-pica, pela saudade dos meus dotes atléticos, pelo meu tempo em que tinha tempo e agora vejo que ele se encurta em cada onda de sonho. Aqui consigo conversar com o tempo.
23 de setembro de 2026
Programa 133 - K'arranca às Quartas
Eu, menino, queria ser grande
Eu olhava para eles e pensava:
- Quando eu for grande, vou ser assim.
Não sabia ainda que alguns adultos passavam a vida a procurar as chaves que tinham acabado de pousar em cima da mesa. Nem que o dinheiro desaparecia misteriosamente. Nem que o relógio servia para perceber que já estava atrasado.
Mas havia outra coisa que eu queria experimentar: o amor. E aí começou cedo. Muito cedo. Tive a primeira paixão platónica por uma menina que provavelmente nem sabia da minha existência. Eu sabia tudo sobre ela. Sabia como ela prendia o cabelo, que carteira levava para a escola e até a hora aproximada a que aparecia à janela. Ela, em contrapartida, sabia apenas que havia um rapaz que passava muitas vezes naquela rua. Era uma relação profunda, pelo menos da minha parte.
Depois vieram outras paixões. Houve uma por uma colega de escola que me sorriu duas vezes. Duas vezes! Na minha cabeça, aquilo já era praticamente um noivado. Passei três noites a imaginar o futuro. Na primeira, cassávamos. Na segunda, tínhamos filhos. Na terceira, discutiamos porque eu tinha deixado as meias no chão, a sala desarrumada. Tudo isto sem ela ter sequer sido informada do romance.
Foi então que descobri uma das primeiras grandes leis da vida - o amor pode ser platónico, mas a concorrência é muito concreta. E assim fui crescendo, entre paixões impossíveis, bilhetes nunca entregues, olhares interpretados como declarações de amor e algumas tentativas que acabaram desconseguidas. Uma delas foi particularmente educativa. Criei coragem, aproximei-me da rapariga de quem gostava e, depois de vários minutos a ensaiar mentalmente uma frase brilhante, conseguiu dizer:
- Queres ir comigo ao cinema?
Ela olhou para mim. Sorriu. E respondeu:
- Com quem?
Foi nesse momento que percebi que, afinal, ainda precisava de crescer bastante. O tempo passou. Cresci. Tirei a carta, estudei, fui trabalhar, tomei decisões, paguei contas e percebi que os adultos não tinham assim tanta certeza sobre aquilo que estavam a fazer. Olhei para trás e percebei uma coisa curiosa - tinha conseguido ser grande. Era aquilo que tinha desejado desde a infância. Era adulto, tinha responsabilidades, tinha histórias, tinha algumas cicatrizes, tinha amores que deram certo, outros que deram errado e alguns que nem chegaram a dar. Mas tinha conhecido pessoas que ficaram e outras que desapareceram como certas paixões de adolescência: sem deixar morada para correspondência e então percebi a grande ironia, quando era pequeno, imaginava que ser grande era deixar de ter dúvidas agora sabia que ser grande era aprender a viver com elas. Imaginava que os adultos sabiam sempre o caminho mas descobri que muitos andavam com o mapa ao contrário, imaginava que o amor seria simples e descobriu que algumas paixões precisavam apenas de coragem, outras de sorte e algumas, francamente, precisavam de um milagre. E, sobretudo, imaginava que quando fosse grande deixaria de ser aquele menino. Enganei-me. O menino continua cá. Continuo a apaixonar-me por coisas impossíveis, embora agora tenha mais experiência para reconhecer o perigo. Continuo a sonhar, a olhar para o mundo com alguma curiosidade e, de vez em quando, ainda penso:
- Se eu tivesse vinte anos...
Hoje, quando recordo aquele menino dos anos 70, não sei se lhe diria para ter mais pressa ou mais calma. Talvez lhe dissesse simplesmente:
- Aproveita, porque vais crescer, vais ser grande, vais apaixonar-te, vais desapaixonar-te, vais acertar, vais fazer asneiras, vais conhecer pessoas extraordinárias e outras que devias ter conhecido apenas por fotografia. E vais descobrir que a vida adulta não é o lugar onde os sonhos acabam. É o lugar onde finalmente percebemos que alguns sonhos eram mesmo para cumprir.
22 de setembro de 2026
e às vezes assim se fazia rádio
Dizem que a história é escrita pelos vencedores, mas, na Angola dos anos 1970, a história da música também foi gravada por corajosos miúdos e sonoplastas cúmplices que mereciam, no mínimo, um monumento ao microfone.
Para o cidadão comum, o rádio da época era um aparelho sagrado. Ligava-se e ouvia-se o que a censura ou a ordem vigente mandavam. Tudo muito formal, muito certinho, muito "boa noite, caros ouvintes". Mas o que ninguém contava era que, assim que o sol se punha e o chefe da estação ia para casa dormir o sono dos justos, o estúdio de rádio mudava de dono. À meia-noite, a emissora virava um quartel-general da clandestinidade musical.
Imaginem a cena da porta da rádio a ranger devagarinho e, de repente, entram às escondidas três ou quatro músicos carregando uma viola com o braço meio empenado, uma dikanza feito à pressa e um batuque improvisado. O técnico de som, com cara de quem não está a ver nada mas a controlar todos os botões, dava o sinal:
- Malta, o chefe só volta às sete da manhã. Temos cinco horas para gravar a revolução!
Gravava-se nas condições mais surreais do mundo. Não havia cá isolamento acústico de última geração; o isolamento era o silêncio da noite. Se um cão ranhoso resolvesse latir lá fora a meio do refrão, o latido virava ritmo. Se alguém tossisse, repetia-se. A fita estava ali a metro. Microfones eram dois.
Então, a resistência fazia-se em metáforas culinárias e amorosas. Cantava-se sobre uma vizinha refilona que "não deixava a panela ferver", mas toda a gente na cidade sabia perfeitamente que a "panela" era o país e a "vizinha" era a cusca que bufava no bufo. Era o único país do mundo onde uma canção sobre um prato de moamba podia fazer o poder tremer nas bases.
Assim que a fita magnética terminava de rodar, o milagre acontecia. A bobina clandestina era guardada a sete chaves e no dia certo, que era o domingo de manhã, a gente passava uma ou outra.
E no dia seguinte, quando a rádio começava a emitir, a magia da cumplicidade estava feita e o recado na mesa do director estava a reclamação.
- Mas não temos cá essa música. Quem é o autor? - através do silêncio o segredo era mantido e o pobre do sonoplasta assobiava para o lado para não se denunciar. - Os gajos da censura são doidos e fazem cada confusão.
Domingo seguinte lá estava mais uma das músicas gravadas nas tantas da noite. Desta vez foi Zeca Afonso na versão do Beto. Mas os vampiros não disseram nada.
A rádio e os oficiais pensavam que controlavam o ar, mas os músicos amadores dos anos 70 provaram que a noite sempre foi do ritmo. E se a censura tinha as armas, a madrugada tinha as melhores guitarras.
21 de setembro de 2026
hoje fui ao hóquei
O sol das 6 da tarde em Moçâmedes já não queimava, mas o chão do ringue do Atlético já fumegava como uma frigideira de ferro antevendo um jogo de ferro em brasa depois das 9 da soite. Na bancada, a assistência ia-se acomodando entre um copo de cerveja bem gelado, tremoços e um burburinho carregado de certezas táticas que envergonhariam qualquer treinador lá da metrópole.
Mas o verdadeiro espetáculo não era a táctica. Era a convivência entre a gravidade do desporto e a total falta de condições para a praticar com solenidade perante aquele público que merecia uma casa maior.
Nos anos 70, o hóquei em patins em Moçâmedes era uma mistura fina de arte, velocidade e perigo iminente. A começar pelas patins. As rodas, gastas por mil quilómetros de cimento abrasivo, dividiam-se entre as que ainda giravam e as que protestavam a cada curva com um guincho que parecia o de um animal assustado. O material vinha de longe, durava anos a mais e recebia reparações caseiras com fita cola, massa concistente, arame de fardo e uma dose generosa de fé.
O jogo começava, e o piso de cimento tinha regras próprias. Havia o tal buraco do lado esquerdo da baliza do lado do mar, um pequeno desnível no piso que todos os jogadores locais conheciam de cor. A equipa da casa jogava sempre com esse conhecimento estratégico, bastava empurrar a bola na direção do buraco para que ele ganhasse uma trajetória doida, saltando por cima do stick do defesa visitante, enganado tolos e acessórios. Quando o árbitro apitava e os visitantes protestavam, a resposta do público era em coro:
- É o vento do mar, pá! Aprende a ler as correntes!
Depois, havia os equipamentos. As caneleiras eram rijas como tábuas de pinho e as luvas de cabedal tinham um cheiro tão intenso a suor e mofo antigo que funcionavam quase como arma de arremesso. Defender um remate de meia-distância com o peito exigia mais coragem do que ir à pesca, até porque o equipamento de proteção do guarda-redes parecia montado com sobras de almofadas e mantas velhas.
O ponto alto da tarde, contudo, dava-se quando, uma figura local que se auto-proclamara cronometrista oficial, perdia a cabeça com uma decisão do árbitro. Sem relógio eletrónico — apenas um cronómetro de bolso que já tinha pertencido ao seu avô, ele gesticulava tanto com os braços nas jogadas polémicas que o tempo regulamentar passava a ser uma questão puramente subjetiva.
- Quanto tempo falta?! - gritava o treinador de fora.
- Falta o tempo que for preciso para a gente empatar isto! - respondia ele com toda a serenidade institucional.
E no fim, ganhasse quem ganhasse, o protocolo era sagrado. Desatavam-se as correias de cabedal, descalçavam-se as botas pesadas, ficavam os pés a respirar a brisa da noite e a discussão continuava, agora com o mesmo ardor, mas com uma cerveja na mão e o som das muitas vozes ao fundo. Porque em Moçâmedes, o hóquei podia não ter os requintes dos rinques europeus, mas tinha algo muito melhor: o charme inconfundível do improviso, da poeira e da boa gargalhada no final do jogo e os encontros no bar do Sporting.
20 de setembro de 2026
19 de setembro de 2026
PERTINÊNCIAS 27 - O que é o Fado? e Há Fado na Lota (1)
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar e a Música também.
Imperdível
Fui às Hortas
Eu tinha um plano e disse-o à minha mãe:
- Vou às hortas. Chegou a hora de ver o que consumirmos, de ter contacto com a terra, de ver a comunhão da natureza com o que comemos. Não foi exactamente assim porque naquela altura eu não sabia falar caro e tão claro. O meu português era mais suave, mais oral. Mas agora eu aprendi e conto com as palavras de hoje, mas com o pensamento de então.
Ela olhou para mim por cima dos óculos. Não disse uma palavra, mas o olhar trazia uns tantos anos de sabedoria acumulada sobre as minhas fases. Já tinha sido a fase da pão e a fase do aquário. Agora era a horta.
Peguei na bicicleta e lá fui em direcção ao Bero, à horta do Sr. Carriço. Ele tinha acabado de sair, Levou coisas para o mercado, me disseram. O ar fresco do campo parecia prometer um dia bem passado. À minha frente, estendia-se um mar verde. Um mar verde profundamente misterioso, onde para mim tudo parecia rigorosamente a mesma coisa - ervas com folhas.
- Bom, vou começar pelo básico - declarei, agachando-me junto a um canteiro com ar entendido. Olha para o vigor destas folhas! Isto sim, é uma alface biológica de primeira categoria.- Foi o que eu pensei mas para afastar mau-olhado não disse nada.
- Isso é salsa, menino — disse o capataz parecendo que estava a ler o que eu tinha pensado
- Salsa graúda - disse eu rapidamente, para manter o meu prestígio.
Aproximei-me de um arbusto que me pareceu ter potencial gastronómico. Tinha umas coisas penduradas que me pareceram, sem margem para dúvidas, pequenos frutos em gestação.
- Vejam só! Belos frutos! Quem diria que a terra aqui é tão fértil?
O capataz riu, apoiou-se no pau que trazia sempre, olhou para mim, cuspiu para o lado e disse:
- Isso são tomates. E ainda estão verdes. Se comer isso agora, passa a noite a falar com o cagatório.
Agradeci a dica técnica com um aceno digno e mudei de sector. Decidi que o meu forte seriam os tubérculos. Os tubérculos não enganam: estão debaixo da terra, ninguém vê, logo a probabilidade de eu passar vergonha diminuía drasticamente.
Encontrei umas ramagens verdes a sair do chão.
- Cenouras! - disse triunfalmente. - Sinto o cheiro a cenoura daqui!
Agarrei nos ramos com a determinação de um agricultor ancestral e puxei com toda a força. Saí disparado para trás, caí de costas em cima de um calhau e fiquei a olhar para o troféu na minha mão: uma raiz miserável, do tamanho de um palito, acompanhada por um carolo minúsculo e atrofiado que parecia pedir-me desculpa por existir.
O capataz abanou a cabeça, coçou a testa e comentou para o ar:
- Arrancou erva... Isso nem para os coelhos serve.
- Estava a testar a resistência do solo — justifiquei-me, limpando a terra das calções e tentando recuperar a postura.
Voltei para casa. No caminho, passei pela quitanda da Laurinda, olhei bem para uma alface verdadeira, toquei nos tomates que eu pensava já nasciam vermelhos e prometi a mim mesmo que a minha próxima comunhão com a terra seria, exclusivamente, através de um bom prato de sopa servido à mesa pela minha mãe, sem certificado de origem.
18 de setembro de 2026
Uma hora de rock em 1972 - Formula POP
Porque uma hora de rock, em 1972, não era simplesmente uma hora. Era uma missão. Cada um chegava à rádio com uma pilha de discos debaixo do braço, alguns cuidadosamente escolhidos e outros que tinham aparecido sabe-se lá de onde. Vinil preto, capas grandes, fotografias de músicos com cabelos compridos e expressões que pareciam dizer:
- Nós sabemos uma coisa que vocês ainda não sabem. Eu tenho este que mais ninguém por aqui tem!
Eu também queria parecer que sabia e que tinha. Não sabia e não tinha. Rock não era a minha escolha de compra. Balada sim. Mas aquela hora era de rock e por isso se chamava Formula Pop. Eu só tinha um microfone à frente, um prato de gira discos de cada lado e muita fé em fazer. E isso dava-me uma certa autoridade.
O programa começava com uma voz muito séria e que dizia qualquer coisa como -Boa tarde. Está no ar mais uma hora dedicada ao melhor do rock... Dizer "rock" ao microfone em 1972 fazia-nos sentir quase revolucionários. Depois vinha a música. E que música! Os discos rodavam no gira-discos da rádio e, durante alguns minutos, ninguém falava. O locutor ficava a olhar para o ponteiro, atento à agulha. Um risco no disco e lá vinha um crac, para além de ter de justificar ao dono o que é que tinha acontecido e era uma carga de trabalhos.
Outro risco e outro crac. Mas esse crac já tinha vindo de casa assim. Era de ter sido tanto tocado, tanto emprestado que acho se gastou, dizia para me animar. Mas ninguém reclamava. Era rock. E o rock, naquele tempo, tinha direito a tudo. Entre uma música e outra, era preciso falar. Essa era a parte perigosa. De vez em quando saía argolada porque o disco estava trocado na capa.
- E acabámos de ouvir esta magnífica banda... - Pausa. Olhar para a capa do disco. - ...que dispensa apresentações. Porque a gente tinha dado com a marosca. Mas fechado o microfone saía palavrão contra o autor que normalmente não era o dono do disco. Era uma frase maravilhosa - que dispensa apresentações - Servia para tudo, principalmente quando nós próprios não sabíamos muito bem quem eram. Depois anunciávamos a próxima:
- E agora, vamos ouvir mais um grande tema...
Mais uma vez, a solução universal. Uma hora inteira dava para dizer "grande tema" umas quinze vezes sem ninguém notar. O problema era o relógio. Uma hora de rádio parecia muito tempo antes do programa começar. Depois, já com vinte minutos de música, descobríamos que afinal uma hora passava depressa como um solo de guitarra. E ainda faltavam três discos. Começávamos então a cortar.
- Este tema fica para uma próxima emissão... Era mentira. Nunca mais nos lembrávamos na próxima emissão. Mas ficava bem, isso ficava. Dava aspecto de continuidade.
Acabado o programa lá fora continuava tudo igual. Os carros, as pessoas, as preocupações, os vizinhos e o mundo. Mas durante uma hora tínhamos conseguido uma coisa extraordinária, em 1972, dentro daquela pequena rádio, o mundo tinha cabido num gira-discos.
E o mais curioso é que, quando hoje penso nessa hora de rock, já não me lembro apenas das músicas. Lembro-me do cheiro dos discos, do ruído da agulha, das capas enormes, do medo de deixar o silêncio entrar no ar e daquela sensação maravilhosa de estar a fazer rádio quando fazer rádio ainda parecia uma aventura. Uma hora. Sessenta minutos. E uma quantidade de rock suficiente para convencer qualquer rapaz de 1972 de que o futuro, afinal, podia ter uma guitarra elétrica.
Ao Maló, Van Der Kellen, Carlos Matias e o disco cracou na hora de dizer mais nomes. Talvez o Luís Mendes se lembre.
16 de setembro de 2026
Programa 132 - K'arranca às Quartas
A esplanada dos mais velhos
Os mais velhos sentavam-se sempre no mesmo sítio. Tinham mesa marcada sem que houvesse marcação. Bastava aparecerem e a mesa já era deles. O café podia estar cheio, mas aquela mesa tinha donos. Talvez por direito adquirido. Talvez por cansaço dos empregados. Talvez apenas por respeito e todos sabiam que eles não iam faltar. Acho mesmo que o único motivo válido para faltar era morrer.
Eu sentava-me por perto e ouvia. Eu e uma catrefada de adolescentes sentávamos duas mesas mais para o lado direito deles. Falavam de futebol, de mulheres, de política, de pesca, de doenças e, sobretudo, do tempo. O tempo era um assunto muito importante.
- Antigamente é que fazia calor!
- Agora já não há calor como havia.
- E as chuvas? Essas então...
Tudo antigamente era melhor. Até o frio. Depois começavam as histórias. Um dizia que tinha conhecido um homem que tinha pescado um peixe tão grande que precisara de três homens para o tirar da água. Outro corrigia rindo e dizia que achava que tinham sido quatro. Eu ficava fascinado, de olhos arregalados a lhes ouvir. Não pelo peixe, que provavelmente nunca tinha sido pescado, mas pela facilidade com que aqueles homens mais velhos podiam aparecer numa história onde inicialmente só havia um silêncio. Era assim que funcionava a memória. Uma história começava pequena e, à medida que passava de pessoa para pessoa, engordava. O mais engraçado era que ninguém parecia preocupado com a verdade. A verdade era uma coisa pouco interessante. O importante era a história ser boa. E eu aprendi ali uma coisa que só muito mais tarde compreendi: os adultos também inventavam. A diferença é que chamavam àquilo memória.
Às vezes perguntavam-me:
- Estás a ouvir?
Eu dizia que sim, porque tinha aprendido que, quando um adulto conta uma história, o mais prudente é não interromper. Pode haver um peixe enorme pelo meio. E havia sempre. Hoje, quando penso nessas tardes de 1970, lembro-me menos do que diziam e mais da maneira como diziam. Tinham tempo. Tempo para contar uma história que podia durar meia hora e não chegar a lado nenhum. Tempo para discutir uma coisa que já tinha acontecido há vinte anos. Tempo para beber um café lentamente. Nós hoje temos relógios que sabem tudo. Eles tinham relógios que só sabiam uma coisa: que ainda era cedo. Talvez seja por isso que aquelas esplanadas ficaram na minha memória. Porque eu era miúdo, eles eram velhos e, durante algumas horas, ninguém tinha pressa de chegar ao futuro.
O futuro podia esperar. Até porque, naquela época, ainda não sabíamos que um dia íamos ter telemóveis, internet e tanta pressa para não dizer absolutamente nada.
15 de setembro de 2026
eu e a inteligência artificial
Me sento, já não com a sebenta de capa encarnada mas frente ao computador. Haverá no mundo desgraça maior do que a página em branco duma tela a cintilar para mim? Aquele cursor a piscar, implacável, como uma lombriga vertical à espera que eu o faça avançar à frente de letras. Ele pisca mas não avança. Olho-o como que hipnótizado e ele nada, melhor, pisca. Durante séculos, um escritor sofria em silêncio, fumava cigarros baratos, bebia café frio ou vinho de fraca qualidade, amassava papéis e culpava a musa inspiradora pela esterilidade mental de uma terça-feira ventosa. Hoje, o sofrimento acabou, temos a Inteligência Artificial, essa grande colega que nunca dorme, nunca reclama e finge que acha os nossos pensamentos profundamente originais.
A verdade nua e crua é que a Inteligência Artificial veio democratizar a preguiça mental. Antigamente, para ser um preguiçoso de elite, exigia-se algum talento, era preciso inventar desculpas mirabolantes para não entregar o trabalho, adiar prazos com pretextos vagos ou simplesmente olhar para o teto durante três horas seguidas à espera de uma epifania que nunca vinha. Agora, não. Basta abrir uma janela do computador, escrever "escreve aí uma crónica sobre a minha inércia existencial com um tom espirituoso" e ir ver se o vento acalmou. Uns segundos depois, temos um texto impecável, polido, cheio de metáforas sobre o vazio cósmico e sem um único erro ortográfico. É obra. Nem uma letra trocada, nem uma vírgula num deserto plantada, só travessões e dois pontos, como quem semeia trigo num campo de letras. Ou será joio?
O problema é que este atalho está-nos a transformar em caracóis intelectuais. Se continuarmos a delegar o esforço de juntar sujeito, verbo e predicado a um servidor localizado num armazém gelado na Conchichina, que não sei bem onde fica, mas deve ser lá para os lados do fim-do-mundo, daqui a uns anos o nosso cérebro vai atrofiar ao ponto de só conseguirmos comunicar através de grunhidos e polegares levantados ou emojis préviamente desenhados. O ser humano evoluiu a caçar mamutes, bisontes, a inventar a roda, a criar uma linha de montagem mas o cume da nossa evolução vai ser a admirável capacidade de carregar na tecla Enter para que uma máquina faça o esforço por nós.
Ironias à parte, há algo profundamente poético nesta simbiose entre a nossa preguiça ancestral e a alta tecnologia. A máquina oferece o engenho e nós oferecemos a nobre arte de não fazer nada. Juntos formamos a equipa perfeita. E se me perguntam se fui eu que escreveu este texto ou se recorri a um algoritmo, respondo com a honestidade que me caracteriza, deixem-me ir ver o que a inteligência artificial tem a dizer sobre o assunto, porque pensar dá um trabalho terrível e como ainda não acabou o verão, não trabalho para aquecer.
14 de setembro de 2026
pedradas nos castanheiros
Quando eu era adolescente havia uma ciência rigorosa, quase física e de alta precisão, na arte de atirar pedras às árvores. Eu nunca fui bom nessa disciplina. Para comer castanhas na frente da casa do Sr. Martins alguém tinha que atirar pedra por mim. Hoje em dia, os jovens descarregam apps e jogam jogos num telemóvel, mas quando eu era adolescente os jogos eram o chão, as padras e pedrinhas e o verdadeiro ecrán eram as copas das árvores que davam castanhas, que não são as castanhas que se compra no supermecardo.
O objetivo teórico era simples que era fazer cair o fruto, a castanha. O objetivo prático terminava, noventa por cento das vezes, com três pedras a passarem sobre a árvore, um ou outro vidro de janela partido e nenhuma fruta no chão.
Existiam vários perfis de atiradores na nossa malta. Um que estudava a trajetória, limpava a pedra na camisola, media o vento com o dedão molhado e falhava o alvo por quatro metros, acertando com precisão cirúrgica na telha da casa do vizinho mais rabugento da rua. Outro ignorava a pedra fina e delicada, escolhia autênticos calhaus. Cá para mim ele não queria apanhar fruta; queria derrubar a árvore. O lançamento terminava invariavelmente com um estiramento muscular no ombro e a pedra a cair verticalmente a dois centímetros do seu próprio pé. O Zé tinha uma pontaria assustadora. Acertava exatamente na castanha mais bonita, mas com tanta força que a transformava em compota instantânea ainda no ar. Chegava ao chão apenas um caroço envolvido numa nuvem de polpa amassada.
O verdadeiro drama era quando a pedra ficava presa entre os galhos. Ninguém aceitava perder uma boa pedra, afinal, tínhamos gasto três minutos a escolhê-la por ser perfeita para caber entre dedos. A solução era atirar uma segunda pedra para desembrulhar a outra. O resultado? Duas pedras presas e a fruta continuava lá em cima, a rir-se da nossa ignorância.
O auge do método científico era a chegada do dono da casa em frente, avisado pelo som cadenciado de pedradas contra o telhado ou janelas. A aceleração que atingíamos na fuga provava que, se a gravidade não nos ajudava a fazer cair as castanhas, a adrenalina garantia-nos pelo menos a velocidade necessária para ultrapassar qualquer distância.
Olhando para trás, a árvore comigo nunca perdeu um único combate. Mas nós voltávamos no dia seguinte, de bolsos pesados e pontaria renovada, convictos de que a física e o jeito, finalmente, estariam do meu lado, porque do Zé estavam sempre.
13 de setembro de 2026
Pertinências 26 - A Música na Feira do Livro
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
12 de setembro de 2026
eu e os jogos de futebol
Ah, nos anos 70 era a era de calças à boca de sino, camisa mil-flores e cabelos compridos e uma bola de cabedal que pesava três quilos quando seca e quarenta e dois quando molhada. Se não era assim é porque já me esqueci como é que era. Mas se havia coisa que unia a vizinhança era o futebol de rua, mesmo na minha rua que uns jogavam a descer e outros a subir. Mas havia um problema que era quando a paixão pelo jogo excedia radicalmente a capacidade motora, o chamado jeitinho, o que era o meu caso.
Eu era aquilo a que as pessoas daquele tempo chamavam de desprovido de talento, mas que no bairro se resumia a um simples e cristalino: Ó pá, tu ficas à baliza ou vais para a ponta do pé de microfone! O ritual começava sempre no momento sagrado das escolhas. Dois capitães, habitualmente os rapazes com mais cabedal ou donos da bola, mediam pés para decidir quem escolhia primeiro. Pé, calcanhar, bico, sola... O primeiro a ser escolhido era o melhor dos jogadores, que fintava até a própria sombra e mesmo assim se saía bem. O último era invariavelmente eu. A escolha para me escolher para a equipa não era feita por tática, era porque sim.
As regras do futebol de rua nos anos 70 eram simples, elegantes e imprevisíveis: As Balizas eram duas pedras, duas mochilas ou duas chinelas porque havia quem ia jogar descalço no alcatrão. A altura da baliza era sempre uma discussão filosófica e conforme dava jeito. Qualquer golo por cima do guarda-redes, o verdadeiro chapéu, gerava dez minutos de debate com o clássico passou por cima dos dedos, não conta! O dono da bola era o imperador absoluto. Se ele se chateasse porque levou um túnel que é o mesmo que dizer uma cueca, o jogo acabava, a bola ia para debaixo do braço e nós ficávamos a olhar para o alcatrão a ponderar o sentido da vida. Quanto ao tão falado fora de jogo simplesmente não existia. Existia apenas o conceito de babuja, que consistia em ficar a um centímetro da pedra-baliza adversária a esperar por um milagre.
Como eu não tinha pés para a bola, a minha função principal era a de obstáculo móvel. Uma vez cortei um passe decisivo com o joelho esquerdo enquanto tentava atar o sapato. Fui aclamado como um estratega do desarme.
Jogar na rua nos anos 70 tinha também o factor fauna e flora. Havia o carro do senhor Santos estacionado perto do campo, uma raspadela de bola no espelho lateral equivalia a correr como se não houvesse amanhã, a vizinha que odiava crianças e guardava as bolas que caíam no quintal e o alcatrão gasto que nos deixava os joelhos em carne viva. O mercurocromo da avó fazia milagres.
No fundo, eu nunca soube se jogava à bola ou se a bola é gozava comigo. Mas quando a luz do candeeiro da rua se acendia o sinal universal de que estava na hora de ir jantar antes de levar um raspanete, ficava aquela sensação de dever cumprido. Tinha os pés doridos, as calças rasgadas no joelho, zero golos marcados e uma felicidade que nenhum troféu do mundo conseguiria pagar. Mas que raio havia de me acontecer. Gostava tanto de futebol mas a falta de jeito fez-me um dia ser médico e entrar em campo de braçadeira de médico. Entrei ou não entrei em jogos importantes?














