Dizem que a história é escrita pelos vencedores, mas, na Angola dos anos 1970, a história da música também foi gravada por corajosos miúdos e sonoplastas cúmplices que mereciam, no mínimo, um monumento ao microfone.
Para o cidadão comum, o rádio da época era um aparelho sagrado. Ligava-se e ouvia-se o que a censura ou a ordem vigente mandavam. Tudo muito formal, muito certinho, muito "boa noite, caros ouvintes". Mas o que ninguém contava era que, assim que o sol se punha e o chefe da estação ia para casa dormir o sono dos justos, o estúdio de rádio mudava de dono. À meia-noite, a emissora virava um quartel-general da clandestinidade musical.
Imaginem a cena da porta da rádio a ranger devagarinho e, de repente, entram às escondidas três ou quatro músicos carregando uma viola com o braço meio empenado, uma dikanza feito à pressa e um batuque improvisado. O técnico de som, com cara de quem não está a ver nada mas a controlar todos os botões, dava o sinal:
- Malta, o chefe só volta às sete da manhã. Temos cinco horas para gravar a revolução!
Gravava-se nas condições mais surreais do mundo. Não havia cá isolamento acústico de última geração; o isolamento era o silêncio da noite. Se um cão ranhoso resolvesse latir lá fora a meio do refrão, o latido virava ritmo. Se alguém tossisse, repetia-se. A fita estava ali a metro. Microfones eram dois.
Então, a resistência fazia-se em metáforas culinárias e amorosas. Cantava-se sobre uma vizinha refilona que "não deixava a panela ferver", mas toda a gente na cidade sabia perfeitamente que a "panela" era o país e a "vizinha" era a cusca que bufava no bufo. Era o único país do mundo onde uma canção sobre um prato de moamba podia fazer o poder tremer nas bases.
Assim que a fita magnética terminava de rodar, o milagre acontecia. A bobina clandestina era guardada a sete chaves e no dia certo, que era o domingo de manhã, a gente passava uma ou outra.
E no dia seguinte, quando a rádio começava a emitir, a magia da cumplicidade estava feita e o recado na mesa do director estava a reclamação.
- Mas não temos cá essa música. Quem é o autor? - através do silêncio o segredo era mantido e o pobre do sonoplasta assobiava para o lado para não se denunciar. - Os gajos da censura são doidos e fazem cada confusão.
Domingo seguinte lá estava mais uma das músicas gravadas nas tantas da noite. Desta vez foi Zeca Afonso na versão do Beto. Mas os vampiros não disseram nada.
A rádio e os oficiais pensavam que controlavam o ar, mas os músicos amadores dos anos 70 provaram que a noite sempre foi do ritmo. E se a censura tinha as armas, a madrugada tinha as melhores guitarras.














