O destino tem um sentido de humor muito particular. Brinca com a gente e a gente lhe olha de espanto. Não estou a falar daquele humor refinado do estilo dos ingleses, é mais no género vamos atirar uma casca de banana à vida deste ser humano só para ver no que é que dá.
Eu e ela tínhamos tudo para ser o casal do século passado transposto para este. Não me refiro a um século modesto, refiro-me àqueles romances de proporções que até dá dor nos braços de levar a tira-colo e que fazem as pessoas suspirar no cinema. Partilhávamos o mesmo ódio visceral por passas e frutas cristalizadas, gostávamos de bandas desenhada se ela ensinava alguma coisa e gostávamos de algo tipo alforrecas que só três pessoas na Islândia também gostavam e ambos achávamos que salsa é uma planta divina na comida e não uma dança latina. Em termos, falando numa língua actual, de algoritmo amoroso, a taxa de compatibilidade era de 99,9% para não ser número quadrado e totalmente redondo.
O problema afinal estava nos restantes 0,1%. Essa margem de erro microscópica vestia-se de desencontros com uma pontualidade britânica, que não teve piada nenhuma vez.
Na primeira vez em que devíamos ter ficado juntos, numa festa de aniversário, ganhei coragem para ir falar com ela. Quando estava a meio metro de distância, uma perna de frango voadora arremessada por um convidado demasiado entusiasmado bateu no meu peito e fez o meu prato de croquetes voar diretinho para a camisa branca dela. Foi uma tonelada de maionese que me estragou a coragem e a oportunidade. Passei o resto da tarde a pedir desculpa e a tentar tirar as nódoas com Pedras de Água que alguém disse que limpava tudo, o que, como se sabe, é uma das atividades menos romântica do planeta. E afinal as Pedras Água sé tiram a azia e os gases do estômago, porque as nodoas lá ficaram. Pelo menos na minha cabeça e na raiva dela.
Anos mais tarde, o universo fez sinal com outra oportunidade. Num encontro por acaso, encontrámo-nos no Monte do Estoril. A iluminação era péssima, mas a química era palpável e via-se a olhos vistos. Trocámos olhares, sorrisos e a promessa de que desta vez era a sério e não nos iríamos perder. Ela me perguntou se eu andava à procura dela e eu disse que não. Era mesmo por acaso. Fez um sinal com a mão, apontou para uma cabine de telefone, mas as portas do comboio fecharam-se com um barulho dramático. Foi lindo, digno de Hollywood. O pequeno detalhe é que nenhuma das portas tinha deixado passar a informação importantíssima, nenhum de nós tinha o número do outro.
E assim o tempo foi-se gastando ao ritmo dele. Eu tinha decidido ter uma crise existencial e mudar-me para uma cidade desconhecida chamada de Porto, não para comer regueifas nem brincar ao S. João. Ficámos assim tipo dois cometas com órbitas impecáveis, programados para brilhar juntos, mas condenados a passar um pelo outro a quatrocentos quilómetros por hora, a contar na distância.
Um dia vi-a passar na rua a caminho de um Congresso que eu também ia. Ela não sorriu, não acenou e eu preparei-me para atravessar a estrada e finalmente resolver esta dependência de anos. Dei o primeiro passo com a determinação de quem vai tomar o destino nas mãos. Foi exatamente nesse segundo que lhe disse olá e ela respondeu que não falava com estranhos que eu senti que tinha sido atropelado por um tractor. Quando o tractor saiu de cima de mim, recuperei o olhar e já não voltei a vê-la. No Congresso desviou a cara sempre que o meu olhar lhe marcava tipo raio laser. Descruzamo-nos para todo o sempre.
Acho que o universo não queria que ficássemos juntos porque sabia que, se a coisa funcionasse, seríamos felizes demais. E um amor perfeito, sem drama nem desencontros, estragaria qualquer boa história.