recomeça o futuro sem esquecer o passado

5 de setembro de 2026

O ininfluenciador

Antigamente as pessoas precisavam de ter um talento, uma profissão ou, no mínimo, uma história bizarra para contar nas reuniões de família para serem ouvidas. Hoje, graças à democratização do ecossistema digital, basta ter um telemóvel, uma luz circular de de 15 euros e uma determinação inabalável para chamar comunidade a três amigos, duas tias e um robô algures no mundo que vende criptomoedas e tem bué de perfis nas redes e eis que surge a figura mais fascinante do nosso século: o Influenciador Digital.

O influenciador vive num estado perpétuo de prontidão executiva. Acorda às seis da manhã — não para trabalhar, mas para fotografar uma chávena de café fumegante acompanhada pela legenda: A preparar as grandes novidades de hoje. Fiquem atentos!. Ninguém fica atento. O seu público é composto por pessoas que clicaram em seguir por engano, ou até por vício, enquanto tentavam fechar um anúncio de aspiradores.

O seu momento de maior apogeu acontece quando recebe a primeira parceria. Não estamos a falar de marcas de luxo ou estadias em Bora-Bora, mas sim de uma marca de chá de hibisco que lhe envia uma caixa de amostras em troca de dez vídeos, três reels e a alma da sua avó. O influenciador grava um vídeo de dez minutos a fazer o unboxing da caixa de cartão com as mãos a tremer de emoção:

- Vocês têm-me perguntado MUITO sobre o meu chá favorito...

(Spoiler: ninguém perguntou. A caixa de mensagens está tão deserta quanto um centro comercial às quatro da manhã de uma terça-feira. Mas a ilusão precisa de continuar.)

O verdadeiro drama do influenciador reside no impacto real da sua palavra. Se ele disser não comprem este casaco, a loja esgota o stock por pura coincidência estatística. Se organizar um evento de encontro com seguidores num parque público, a única entidade a marcar presença é a polícia municipal, intrigada com aquele jovem a falar sozinho para um tripé enquanto segura um um stick com um telemóvel na ponta.

E, no entanto, há algo de profundamente poético e admirável nesta bravura. O influenciador é o último romântico da internet. Ele mantém a fé num algoritmo que o ignora com a mesma dedicação com que continua a partilhar o look do dia no meio da paragem do autocarro, debaixo de chuva, sorrindo como se estivesse na semana da moda de Milão ou no Festival de Cannes.

No fundo, todos devíamos aprender com eles. Num mundo obcecado por métricas, alcance e conversões financeiras, o ininfluenciador (é de propósito) é a prova viva de que é possível ter uma autoconfiança de nível olímpico sem ter absolutamente nenhum resultado para mostrar. E se isso não é inspirador, então não sei o que será.

nota - tem por aqui palavras que tive que ir ver se as havia em português mas desencontrei e nem sei bem o que querem dizer.

Sanzalando

1 comentário:

  1. Coragem, fé e persistência são virtudes admiráveis. Há mais de dez anos não visitava seu blog, e - que surpresa! - ele ainda está aqui. Tiro meu chapéu.

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