O ano é 1972, mais coisa menos coisa que eu não fui confirmar ao diário que nunca fiz. Eu tenho 16 anos, uma guedelha que teima em tapar-me as orelhas, calças à boca de sino que funcionam como vassouras públicas e que ao fim de uns tempos de uso a bainha parecia literalmente uma vassoura e a firme convicção de que sou a reencarnação de um gajo moderno. Mas o verdadeiro protagonista deste ano não sou eu. É o orgulho e alegria de passear num Citroën DS novinho em folha.
Para o homem comum, era o pináculo do design francês. Para a vizinhança, era o "Boca de Sapo". Para mim, era uma nave espacial que tinha aterrado diretamente de Marte na garagem da vizinha.
Andar no DS exigia conhecimento científico. Não era só dar à chave e andar. Aquilo tinha um processo de iniciação que parecia o lançamento de uma nave espacial. Para mim era só espacial. Eu sentia-me na lua. Não só pelo carro mas... voltemos a ele para eu não me esparramar aqui em inconfidências esquecidas e que possam despertar monstros escondidos nos baús da memória.
Dava-se à chave e o motor começava a trabalhar, emitindo uma série de cliques e suspiros pneumáticos, como um monstro asmático a acordar. Devagar, muito devagar, a suspensão hidropneumática começava a subir. Primeiro a traseira, depois a frente. Parecia um camelo a levantar-se preguiçosamente. Só quando o carro atingia a sua altura regulamentar é que parecia acender a luz verde de andar. Se tentassem avançar antes disso, corriam o risco de raspar o fundo do carro na primeira formiga que cruzasse a estrada. Ou era o que eu imaginava. Eu ali era o homem na lua. Era brilho nos olhos e coração a palpitar. Ir à boleia no DS era uma experiência radical. O volante tinha apenas um raio, o que me fez pensar que os franceses tinham ficado sem dinheiro a meio do fabrico. Mas o verdadeiro perigo residia no chão: o travão. No Citroën DS, o travão não era um pedal normal. Era um botão de borracha no chão, redondo, que parecia um cogumelo de brincar. Mas de brincar não tinha nada.
A sensibilidade daquilo, me diziam, era atómica. Nas primeiras vezes que travaram, não estavam habituados. Apenas a sola do sapato se aproximava um pouco mais do botão e PÁ! todos eram atirados contra o vido ou a traseira do banco da frente. O carro parava instantaneamente.
E a suspensão. Sim, o carro ignorava os buracos das estradas mesmo que eu estive na lua e lá havia caracteras lunares.. Mas o efeito secundário era que o DS não andava; ele flutuava. Se eu por paixão já o fazia no DS era dupla. Eu, encostado ao banco de pele, com um ar misterioso e sedutor. Eu, virava extra-terrestre.
O "Boca de Sapo" tinha uma aura imbatível. O carro deslizava pela marginal ao pôr do sol, eu esquecia-me dos solavancos do travão, dos problemas da matemática, dos nãos que ouvia a toda a hora. Eu via ali o futuro. Mas afinal ele não me levou à lua e os meus olhos brilharam por outras estradas.
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