recomeça o futuro sem esquecer o passado

28 de maio de 2026

eles e a saudade da juventude

Me sentei na escadaria do Tribunal a olhar só assim até onde a vista, já cansada, consegue chegar. O pensamento, esse ficou dentro de mim a magicar. Acho o meu cérebro é fábrica de pensamentos que têm de ser traduzidos em letras e levadas ao papel.
Há gente que vive com tanta saudade do passado que, se pudesse, ainda pagava o café em escudos, escrevia cartas com mata-borrão e ia ao barbeiro ouvir relatos da bola num rádio a pilhas do tamanho de um frigorífico pequeno. 
Eu, confesso, começo a ficar cansado dos saudosistas profissionais. Não daqueles que recordam o passado com ternura, que isso até que é bonito. Falo dos outros. Dos arqueólogos emocionais. Dos que acham que tudo antigamente era melhor. Tudo! Como se os anos sessenta fossem uma mistura permanente de poesia, tremoços e pôr do sol em câmara lenta.

Conheço gente que sempre começa as frases com:

- No meu tempo… - como se o facto dele estar agora vivo não é tempo dele. Querem ver que ele faleceu e não me disseram, nem a ele?

No tempo dele, pelos vistos, nunca havia trânsito, as laranjas tinham mais sumo e sabor, os políticos eram sérios, os jovens respeitavam os mais velhos e as galinhas punham ovos com dignidade moral.

Uma vez ouvi-lhe dizer:
- Antigamente não havia depressões.

Claro. Havia era pessoas tristes em silêncio, a fumar AC ou Hermínios e a olhar para a chuva com ar cansado a ver se deixava de chover e aparecia o cacimbo. Eram assim cancibados.

Outro garante-me:
- A juventude de hoje não sabe divertir-se.

Diz isto enquanto passa três horas no Facebook a partilhar fotografias a preto e branco de linha de eléctricos que já nem existem, acompanhadas da legenda: Quando Lisboa tinha alma. Queres ver que Lisboa ficou Desalmada? Como se a alma da cidade tivesse fugido no último eléctrico da Carris, provavelmente sem bilhete.

Os retrogrados têm um talento extraordinário: conseguem transformar qualquer avanço moderno numa ameaça civilizacional. O multibanco acabou com a conversa. O telemóvel destruiu a família. A internet matou os cafés. O micro-ondas arruinou a humanidade. Qualquer dia culpam o comando da televisão pelo declínio do Império Romano.

E depois há os especialistas do sofrimento antigo:
- Nós é que sabíamos viver com dificuldades!

Pois sabiam. Também tomavam óleo de fígado de bacalhau sem anestesia e sobreviveram. Mas isso não significa que alguém queira repetir a experiência voluntariamente hoje.

O curioso é que os maiores defensores do passado adoram os confortos do presente. Dizem mal da tecnologia… mas ficam aflitos se o Wi-Fi falha durante quatro minutos. Criticam os jovens por passarem a vida ao telemóvel… enquanto procuram os óculos com a lanterna do próprio telemóvel e vasculham o telemóvel alheio à procura duma qualquer pista que leve à discussão. É que nos confortos do presente eles queriam viver o passado.

Há também uma certa romantização absurda da dureza antiga:
- Na nossa infância brincávamos na rua!

Sim. E muitos também apanhavam sovas monumentais e constipações épicas. A nostalgia é uma espécie de filtro do Instagram emocional: apaga as dores de costas e deixa apenas o cheiro do pão quente. 

Eu gosto de recordar o passado. Gosto mesmo. Mas sem transformar a memória num museu onde é proibido mexer nos móveis.

Porque, sinceramente, se o passado fosse assim tão perfeito, ninguém tinha tido tanto trabalho a inventar o futuro.

E depois há esta verdade simples: quase todos os saudosistas querem voltar ao passado… desde que levem antibióticos, comprimidos para a tensão, ar condicionado, GPS, Netflix e uma boa prótese dentária.

O que eles têm saudades, no fundo, não é do mundo antigo. É da juventude deles.




Sanzalando

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