Há pessoas que têm o cérebro organizado. Pensam numa coisa de cada vez, resolvem-na, arquivam-na numa gaveta mental e seguem para a próxima como se fosse uma cadeia de normais acontecimentos. Eu admiro-as da mesma forma que admiro os equilibristas do circo, à distância e com a certeza absoluta de que nunca conseguirei fazer o mesmo.
O meu cérebro não é uma biblioteca. É uma fábrica. Uma fábrica antiga, daquelas que existiam antes de eu nascer, enormes, com chaminés a deitar funo dia e noite, onde as ideias entram em produção sem autorização da gerência. E como a gerência sou eu, posso garantir que raramente sou consultado.
Acordo de manhã e, antes mesmo de abrir os olhos, já há uma reunião de emergência. O eu e o mim reunen-se.
- E se escrevesses uma história sobre um reformado que decide aprender a andar de skate?
- E se inventasses uma receita de bacalhau com manga?
- E se os pombos fossem agentes secretos?
Tudo isto antes do mata-bicho.
Enquanto preparo o café, a linha de montagem acelera. Uma ideia empurra a outra como carrinhos de supermercado.
Olho para uma nuvem e penso num poema que nunca escreverei.
Vejo um gato e imagino um romance policial, que nunca escrevi.
Vejo uma torrada queimada e surge uma reflexão filosófica sobre os limites da civilização e a inteligência artificial que não me ajudou neste instante.
O problema é que a fábrica produz muito mais do que consegue expedir. Tenho a cabeça cheia de apontamentos misteriosos, que nem eu sei desvendar.
“Homem que reflete com semáforos.” “Galinha deprimida não põe ovos.” “Teoria revolucionária sobre meias desaparecidas.”
Confesso que, meses depois, recordo estas notas e não faço a mínima ideia do que pretendiam significar. Devem ter sido produtos experimentais que nunca chegaram ao mercado. Às vezes suspeito que o meu cérebro trabalha por objetivos de produção. Se passo uma hora sem ter uma ideia nova, parece soar uma sirene interna.
- Atenção! Quebra de produtividade! É preciso inventar qualquer coisa!
E imediatamente surge um pensamento absurdo, apenas para manter os números da fábrica.
A vantagem é que raramente me aborreço. A desvantagem é que raramente descanso. Enquanto os outros contam carneiros para adormecer, eu assisto ao turno da noite da minha fábrica fumegante.
Os carneiros entram, é verdade, mas cinco minutos depois já se estão a organizar num sindicato, a criar uma banda de rock ou a planear uma candidatura à junta de freguesia.
Nestas alturas percebo que a minha imaginação não conhece horários laborais.
Funciona aos fins de semana, aos feriados e até durante as férias, quando eu as tinha.
Aliás, as férias eram a pior altura. O cérebro interpreta qualquer descanso como uma oportunidade para aumentar a produção em 300%.
Mas não me queixo. Já agora era o início de uma pausa. Ou seria o fim?
Uma fábrica destas dá trabalho, faz barulho e, por vezes, produz artigos completamente inúteis. Porém, de vez em quando, entre uma ideia disparatada e outra ainda mais disparatada, aparece uma que vale ouro.
Uma história.
Uma crónica.
Uma lembrança.
Um sorriso.
E então percebo que talvez não seja assim tão mau viver com esta fábrica permanentemente ligada, mesmo que o cansaço me derrube. Alguém tem de se lembrar de desligar a sirene de vez em quando. Ou, pelo menos, de convencer os pombos agentes secretos a fazerem menos horas extraordinárias.
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