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A Minha Sanzala: vivo de empréstimo
recomeça o futuro sem esquecer o passado

7 de dezembro de 2014

vivo de empréstimo

Sanzalando

De vez enquando apareço no centro desta sanzala. Vou fazer mais como? Vivo aqui de empréstimo há muito tempo, do tipo, entra sai quando me dá vontade e sem fazer barulho. Não pago renda, ninguém me xinga, leio o que eu quero, é assim como viver em Paris, mas sem a filosofia tradicional – Torre Eiffel é mesmo o embondeiro no meio da terra vermelha, e o Sena é o regato filho caçula do kuanza, que corre quando chove. Pus minha cubata onde eu quis, sem plano de urbanização e sem preocupação com vizinho. Ué Esta sanzala tem cubata, sim! E tem música todo o dia. Música de kissanje, de maracas, de batuque e marimba que nos leva lá na linha recta que se faz à curva do mapa abaixo do equador. Aqui tem um soba, que é tipo presidente da junta mas para melhor- sem saco azul, sem contas na cabeça, sem agenda para agendar, sem gravata e sem chofer na porta de casa. Tem por aqui muitas árvores. Não dão papaia, manga, cajú, árvores que tem letras como fruta. Letras que se juntam como a vontade, quer e desquer. A política do nosso soba é cuidar das letras, dar-lhe mimos e partilhá-las quando lhe dá vontade. Só tem bicicleta, que utiliza para espalhar as palavras pelo vento. Eu me habituei por aqui, porque sou feliz, nesta vida mansa de ler as palavras criadas por ele, quando eu quero e de vez enquando mando uns bitaites, recolho algumas palavras para mim e imito o soba daqui, enquanto ele vai no pólo norte ou no pólo sul, acertar contas nas famílias do zulmarinho e do pai natal, confiando que eu não bagunçarei muito por aqui. Utilizo por empréstimo autorizado a sua máquina de fazer palavras, e tento brincar com elas ao vento, como se fosse um lego de madeira de jacarandá, ou uma pipa de papel colorido, lhes dou forma de chuinga ou de machimbombo, soltando a imaginação por ai nesta sanzala sem plano director. Nessas palavras eu desenho sorrisos, olhares ternos e perfumes de figo da índia e misturo tudo numa tela de conversa vadia. Estou por aqui de empréstimo sem data, não pago imposto disto e daquilo, e a tal da burocracia, depositei no fundo de um grande buraco, do fundo do meu quintal, cobri com o tal do stress, e respinguei feitiço de todos os lados, para tudo lá ficar adormecido até ao infinito. Aqui o sol nasce e pôe-se sem obrigação de fazer rotação na terra. Bumbas não tem, kumbu também não. Vivo de empréstimo no paraíso. Árthemis

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WebJCP | Abril 2007