Diz o ditrado português que tempo é dinheiro. Eu desconfio de que é que diz isso. Normalmente são os mesmos que chegam atrasadas e depois vão dizer que o trânsito estava impossível. Se o tempo fosse dinheiro, havia muito boa gente a declarar falência, porque tem gente que sofre de falta de tempo que até irrita.
Eu prefiro outra teoria: quem compra um livro compra tempo.
Não parece. À primeira vista, compra papel, tinta, uma capa bonita e, nos dias que correm, uma carteira mais leve. Mas basta abrir a primeira página para perceber que ali dentro há muito mais do que letras alinhadas, frases feitas e anos condensados. Tem o tempo que o escritor levou a imaginara estória, a apagar capítulos inteiros, a reescrever frases que nunca ficam exatamente como ele as queria. Há madrugadas, cafés frios e momentos em que olhou para o tecto à procura da palavra certa, da construção correcta ou imaginada. Quando compramos um livro, estamos a adquirir esse tempo todo por empréstimo.
Há livros que nos fazem viajar até Roma Antiga, ou ao futuro, ou ao fundo do mar ou à infância de alguém que nunca conhecemos. Tudo sem anúncios irritantes ou um X num dos cantos para apagar o reencaminhamento para não sei onde.
O máximo que pode acontecer é adormecermos ao fim da terceira página. Mas isso não é culpa do livro, às vezes é culpa do sofá.
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