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17 de junho de 2026

Operação Toalha na Alameda ou como criei a "Praia da Alameda"

Sempre achei que o maior defeito do urbanismo moderno é a falta de uma ondulação marítima a escassos metros do café central. 
Sempre morei pertinho da praia, mas penso muito nos que moram a uns sofridos 80 quilómetros do oceano mais próximo. No pico do verão, quando o termómetro da farmácia marca uns tórridos 38°C e o asfalto ameaça derreter as solas dos sapatos, julgo que o cérebro entra em modo de sobrevivência. E foi precisamente num desses dias de canícula que pensei: se a montanha não vai a Maomé, a praia vem ao centro da cidade. E então fiz o teste na minha cidade. Se aqui der certo, dará em qualquer lugar, pensei.

Munido de uma cadeira de praia queimada pelo sol desde 2014, uma toalha com o brasão do Alguidares de Baixo e uma geleira azul vazia, que era para não carregar peso, rumei à Alameda. O meu objetivo? aproveitar o repuxo que faz tempo não funciona.

Cheguei por volta das duas da tarde, a hora em que os lagartos procuram a sombra e os humanos sensatos estão fechados em casa com o ar condicionado no máximo. O cenário era perfeito. Estendi a minha toalha mesmo na berma da calçada portuguesa, a um metro e meio do repuxo de água que mais um dia não saiu para funcionar. Acho ele ausentou-se de vez. 

Instalei-me. Calções de banho floridos, óculos de sol espelhados e o corpo generosamente untado com protetor solar factor 50, cujo aroma a coco começou imediatamente a travar uma batalha química contra o cheiro a fritos dos restaurantes das redondezas. A calçada portuguesa, quando exposta ao sol do meio-dia, retém o calor de uma forma que faz a areia de uma praia verdadeira parecer um cubo de gelo. Deitar-me de costas foi um erro tático que quase me custou a pele das omoplatas.

Uma praia precisa de banhistas, mas na Praia da Alameda, a fauna era ligeiramente diferente. O Pombo-Gaivota não tardou até que um bando de pombos urbanos se aproximasse. Olhei para eles com nostalgia. Fechando bem os olhos, o "ru-ru" daquelas aves cinzentas quase parecia o grasnar de gaivotas esfomeadas atrás de uma bola de Berlim. O senhor Artur, velho conhecido e empregada de um restaurante ali perto, olhava-me com a expressão de quem questionava se devia ligar para o 112 ou para a minha família. Um casal de nórdicos, vermelhos como lagostas, parou a olhar para mim. Olharam para o mapa, olharam para a minha cadeira de praia, e por um segundo vi o brilho da esperança nos seus olhos. Estariam finalmente no Algarve?

Às três da tarde, a brisa marítima provocada pela passagem dos carros trouxe o tão desejado fresco. Cada vez que um carro passava, o deslocamento de ar recriava perfeitamente a sensação de uma nortada na Praia do Guincho, incluindo o bónus de me atirar com poeira e bilhetes de raspadinha usados à cara.

E o banho? Bem, o chafariz tinha uma placa bem visível: "Água Não Potável" mas na verdade também não havia qualquer outro tipo de água. Mas ninguém disse nada sobre ser "Não Praticável". Quando o calor se tornou insuportável, levantei-me com a dignidade de um nadador-salvador e pensei ir até casa tomar um banho.

Enquanto arrumava a toalha e a cadeira ainda deu para ouvir uma senhora idosa que passou, benzeu-se e murmurou: "Valha-me Deus, a droga faz mesmo mal aos jovens". Sorri e acenei-lhe como se estivesse num iate em Vilamoura.

 O "mar" tinha secado. Eu estava desidratado. Arrecadei a minha toalha, agora preta do fumo dos escapes, fechei a cadeira de praia e caminhei de volta a casa, de chinelos a estalar no alcatrão quente.

Posso não ter trazido conchas nos bolsos, nem o bronzeado perfeito, mas trouxe a certeza absoluta de que a felicidade é um estado de espírito. E que, com a dose certa de lata e calor, qualquer rotunda com água se transforma na Côte d'Azur.

E foi então que soube que havia uma praia, de nome inglês à beira rio, onde não precisaria de ter levado cadeira, toalha nem geleira e talvez ninguém me tivesse um lunático da Alameda. Fui lá. Sim, alguém tinha pensado bem melhor que eu. E quase todas as cidades têm um rio, um ribeiro ou uma fonte que funciona e a ideia teria funcionado bem melhor.



Sanzalando

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