Em 1973, o mundo podia estar a mudar ao som de David Bowie e dos Pink Floyd, mas para um rapaz de dezassete anos, o universo reduzia-se a duas constantes absolutas: a crueza do escaldão de primeiro dia e o mistério insondável das raparigas na praia.
O plano traçado na véspera era muito simples. Ir à praia. O objetivo real? Tentar parecer minimamente interessante na direção do areal onde as "garotas" estendiam as toalhas.
A preparação começou cedo. Os calções de banho que já não se usavam, aqueles tão curtos que quase exigiam uma licença de porte de arma e uma camisa de malha que tinha um jacaré bordado que na minha cabeça de jovem, me deixava com um ar vagamente saído de um filme de Hollywood, mas que na realidade me fazia parecer, vejo hoje nas fotografias, um cruzamento entre um faroleiro e uma abelha sobressaltada. Para realçar o visual, uma quantidade generosa de brilhantina no cabelo, que prometia resistir a qualquer rajada de vento, e os incontornáveis óculos de sol de massa escura, que tinham o superpoder de escurecer tanto a visão que o qualquer rapaz corria o risco de tropeçar num cão vadio antes de chegar ao mar.
A caminhada até à praia foi uma ode à autoconfiança. Com o peito feito num esforço hercúleo para parecer mais musculado do que as costelas permitiam, cheguei cedinho. Olhei, procurei um lugar que fosse estratégico. Entrei na praia com o ar mais decidido que alguma vez tinha tido, pensava eu.
Ao pisar a areia quente, o coração começou a bater ao ritmo de um solo de bateria. Lá estavam elas. Um grupo de três ou quatro raparigas, com os seus biquínis floridos e cabelos compridos, rindo de piadas que eu daria um braço para conhecer. No ar havia um aroma a óleo de coco e a uma sofisticação que parecia estar a anos-luz da sua caderneta de cromos e das borbulhas na testa.
- É agora - pensei. Adotei uma postura natural. Tipo Charles Bronson mas com mais bronze e continuei a caminhar.
O plano de aproximação era simples: caminhar naturalmente em direção à água, passar a uma distância perfeitamente calculada de dois metros da toalha delas, lançar um olhar enigmático de soslaio, e talvez, se a coragem não desertasse, dar um aceno de cabeça vagamente desinteressado.
A execução começou bem. Os primeiros passos foram firmes. O olhar de soslaio foi disparado com precisão cirúrgica. Uma das raparigas, a de biquíni azul, desviou os olhos do livro e olhou na minha direção.
O mundo parou-me. Senti-me um Alain Delon numa praia francesa.
Foi exatamente nesse milésimo de segundo de glória que o destino, sempre dotado de um sentido de humor cruel, resolveu intervir.
O meu pé direito encontrou o buraco mais fundo e clandestino alguma vez escavado na história das praias, provavelmente obra de uma criança de cinco anos armada com uma pá de plástico vermelha. Sem qualquer aviso, o tornozelo cedeu. O corpo, que há segundos transbordava charme, transformou-se num croquete humano.
Literalmente voei e rebolei. Não foi um tombo discreto nem disfarçável. Foi uma queda coreografada pelas leis da gravidade mais impiedosas. Os óculos de sol voaram para a esquerda, a toalha que levava ao ombro viajou para a direita, e eu aterrei de barriga diretamente na areia húmida, deslizando cerca de meio metro como um pinguim desajeitado.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som das ondas e, logo depois, por uma sinfonia de gargalhadas não abafadas, vindas precisamente da direção da toalha das garotas.
Com a boca cheia de areia e o orgulho reduzido a pó, levantei-me o mais rápido possível. O cabelo cheio de brilhantina parecia agora um panado empastado duma cobertura de barraca de feira, coberto de grãos de areia da raiz às pontas. Em vez de fugir para o mar e simular um afogamento voluntário para salvar a honra, decidi usar a última cartada da adolescência: fingir que tudo aquilo fazia parte de um plano superior.
Limpei a cara com a mão, recuperei os óculos cheios de riscos, olhei para o grupo de raparigas que ainda sorria e, com a voz ligeiramente desafinada pela entrada súbita de oxigénio e areia nos pulmões, disse:
- A areia deste ano está incrivelmente macia, não acham? Um pouco salgada talvez!
A rapariga do biquíni azul não resistiu e soltou uma gargalhada clara.
- Bastante. Mas acho que a tua toalha ficou ali atrás.
Sorri, um sorriso amarelo que misturava vergonha e o alívio de ter, finalmente, conseguido iniciar uma conversa. O engate de 1973 não tinha corrido exatamente como nos manuais, mas a verdade é que, no resto daquela tarde, entre mergulhos para tirar a areia do cabelo e piadas sobre buracos na praia, acabei por descobrir que, às vezes, um bom trambolhão funciona muito melhor do que qualquer pose de artista de cinema.
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