recomeça o futuro sem esquecer o passado

1 de outubro de 2026

A redacção que valia vinte, pelo menos para mim

Na escola primária, havia coisas que eu leváva muito a sério. A tabuada do sete, por exemplo, e até a dos nove. O mapa de Portugal, os seus rios e os seus reis. Aquilo que diziam que eu tinha de saber embora não me levasse a pensar que eu era um erudito. Mas uma coisa que me era muito mais sérias, nessa altura, eram, sobretudo, as notas.

Uma nota era uma espécie de sentença. Eu estava ali para ter boas notas. Não era um génio mas pensava que se a minha mãe me pôs ali era para ter boas notas. Eu estava na escola primária. Era pública, gratuíta e eu tinha que dar provas que aproveitava o que me davam. Masi trde isso passou-me mas e foi só mais tarde e não interessa aqui levantar esse futuro.

Um dia, a professora Estrelinha mandou fazer uma redacção. Eu escrevi, com alma e coração. Não foi uma simples redacção. Foi, na minha cabeça, uma obra-prima da literatura. Tinha princípio, meio e fim. Tinha palavras que eu nunca tinha usado antes e que, provavelmente, também não sabia muito bem o que queriam dizer. Mas soavam bem. E isso, para um rapaz da escola primária, já era meio caminho para um prémio. Entreguei o texto à professora com a serenidade de quem acabava de depositar uma fortuna no banco, uma obra de arte num museu.

No dia seguinte, a professora Estrelinha começou a distribuir as redacções. Eu estava preparado, peito inchado e sorriso nos lábios. Já tinha  imaginado o momento, ela chamaria o meu nome, levantaria a folha e diria qualquer coisa como:

- Excelente! Uma obra-prima! Temos aqui um futuro escritor! - talvez até acrescentasse - não percas esta inspiração!

Eu, modestamente, responderia:

- Obrigado, senhora professora.

Por dentro, estaria a receber aplausos.

Mas a professora Estrelinha chamou o meu nome e entregou-me a folha. Olhei para a nota. E foi aí que a minha infância sofreu uma das maiores injustiças da história. Não era a nota máxima. Fiquei parado. Olhei outra vez porque podia ter visto mal. Virei a folha. Nada. Voltei a olhar para a nota. Não era a máxima. Foi nesse momento que amuei.

Amuei mesmo. Mas aquele amuo não era um simples amuo. Era uma greve geral embora eu ainda não soubesse o que isso era e que até era proibido. Uma manifestação. Uma crise institucional. Uma revolução sem saber que a estava a fazer. Passei a olhar para a professora Estrelinha como quem olha para alguém que acabou de cometer uma injustiça irreparável. Eu tinha escrito aquilo tudo! Tinha pensado! Tinha apagado! Tinha voltado a escrever! Tinha feito letras bonitas! E ela, em vez de reconhecer o génio que tinha diante dela, resolvera atribuiu-me uma nota inferior àquela que, na minha opinião, a humanidade merecia. Naquele dia, na escola primária, descobri uma verdade que me acompanharia pela vida fora - nós nunca achamos que a nossa nota corresponde exactamente ao nosso mérito.

Quando somos crianças, queremos a nota máxima. Quando somos adultos, queremos reconhecimento. E, se possível, que venha acompanhado de um aumento.

Passei o resto do dia amuado. Se alguém me perguntasse o que tinha, eu respondia:

- Nada. - um nada mais seco que a areia do deserto que nos rodeava. Era o nada mais carregado de significado da história da escola primária. A professora Estrelinha provavelmente nem dormiu nessa noite por causa daquilo. Por todas as pragas que lhe roguei sem ter aberto a boca. Ou talvez tenha chegado a casa, jantado tranquilamente e esquecido tudo cinco minutos depois.

Eu não. Eu carreguei aquela injustiça comigo. Porque há notas que ficam escritas numa folha e há outras que ficam escritas na memória. Hoje, tantos anos depois, já não me lembro da redacção. Não me lembro sequer exactamente do que escrevi. Mas lembro-me perfeitamente de não ter tido a nota máxima. E isso diz muito sobre a infância.

Às vezes, não precisamos de ganhar. Só precisamos de acreditar que merecíamos ganhar. E eu, naquele dia, tinha a certeza absoluta de que a professora Estrelinha tinha cometido um erro pedagógico de proporções históricas.

Hoje, pensando bem, talvez a redacção tivesse mesmo alguns erros. Talvez a pontuação fosse uma tragédia. Talvez eu tivesse confundido um verbo com uma coisa qualquer. Talvez aquela palavra complicada que eu usei nem sequer existisse. Mas uma coisa continua certa - na minha cabeça, aquela redacção valia vinte. E ai de quem dissesse o contrário. E foi logo a professora Estrelinha.

Anos mais tarde, uma professora de Inglês do liceu me disse:

- Nunca serás ninguém na vida! - estava zangada, amuada, sentida ou só tinha tido um dia não.  mas aquilo que me disse ficou gravado no raio da memória. Sei que me comportava mal, sei que não tinha jeito para aquilo, sei que brincava quando devia estar atento. Mas... eu era assim e o inglês não era a minha praia, como agora se diz. 

Bem mais tarde, encontrei-a na Meia-Praia e lhe atirei:

- Posso não ter ido longe mas aqui cheguei com orgulho. 

Ela olhou-me, olhou para o marido que me chamaou pelo nome pondo um Dr. antes. 

- Se aqui chegaste foi porque eu te espicacei.

Obrigado Estrelinha, Obrigado Mitó.



Sanzalando

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