Quando a primeira gota bateu na mesa metálica, o mundo acelerou para todos, menos para mim. Esvaziou-se a esplanada e do outro lado da rua a rotina tropical desmoronava em comédia de corrida como na dança das cadeiras, mas aqui era à procura de um abrigo. Todos punham a mão na cabeça faz conta ela protegia da chuva bater na carola, outros seguravam a carteira parecia eram feitas de papel e precisam ser protegidas. Eu continuei sentado a ver porque às vezes é preciso parar para ver. O trânsito, sempre impaciente, paralisou sob o peso da água que agora caía como se tivessem a virar baldes. Eu pacientemente via, sentado na esplanada, o toldo pouco protegia, mas eu saboreava por estar a ver um teatro temporal.
A chuva tropical tem uma particularidade: ela é barulhenta, mas traz silêncio. Ali, com os pés cruzados e o olhar perdido nas poças e rios que se formavam no asfalto, o tempo deixou de ser medido por horas e passou a ser medido por intensidade.
Já não tinha a chávena de café à minha frente, tinha um pequeno vasilhame com água a transbordar. O asfalto ao receber as primeiras gotas deitou fumo e pareia que o calor da tarde subia rumo ao céu. Eu não tinha prazos nem nada para fazer. Só tinha o tempo perdidamente visual. Ria por dentro e mostrava espanto por fora. Todos os beirais de porta tinha um habitante, molhado para não dizer encharcado.
Tão rápido quanto começou, a força diminuiu e desapareceu. O céu começou a abrir buracos de luz azul enquanto as poucas nuvens iam fugindo em direcção a leste e o brilho do sol refletido no asfalto molhado quase cegava. O mundo voltava a girar, mas eu parei a memória até hoje, quando vi que aqui chovia e que não era igual à chuva da minha cidade
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