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31 de julho de 2026

Da Austrália a Portugal, sai um apêndice

O Robert tinha um plano perfeito para as suas férias em Portugal: sol, praias algarvias e surf, muito surf. O plano corria lindamente até que ao terceiro dia, uma dor na barriga, que ele jurava ser apenas uma revelação cósmica provocada por excesso de mar e sandes, decidiu fincar o pé do lado direito daquela barriga de 21 anos. O mar da costa norte, como chamam à outra costa algarvia para lá de Sagres, era o lugar ideal para aquele jovem à procura de aventura, surf e amigas. A verba não abundava pelo que optara por cortar na comida. Um refeição séria e depois pão e mar.
Às duas da manhã, sozinho num quarto de hostel perto de Aljezur, o Robert percebeu que não era a comida que lhe fazia doer cada vez mais. Era o apêndice a gritar  um adeus ou tirem-me daqui.
Sem família num raio de mais mil quilómetros, o Robert deu entrada no hospital público com a dignidade de quem veste calções de praia amassados, uma t-shirt a dizer I ❤️ PT e chinelos de enfiar o dedo.
No meu inglês mais de praia do que científico, fui claro:
Ora bem, isto é uma apendicite aguda. Vamos ter de abrir e tirar isso já — anunciei, com a calma de quem vai só mudar o óleo a um carro.
O pânico do Robert não era a cirurgia; era a burocracia da solidão. Sem mãe para lhe segurar a mão ou pai para reclamar com os médicos, ele tentou o seu melhor, só queria falar com o pai.
Emprestei o meu telemóvel e até hoje foi a única chamada que fiz para a Austrália. A preocupação do pai era como mandar o dinheiro para pagar ao hospital. Explicado que isso era um problema que não existia que depois os serviços iriam entrar em contacto com ele ou com os seguros ou seja lá como é que era que isso não era agora um problema. 
Passei o telemóvel ao Robert que continuou a falar, cada vez mais choroso e notava-se que o loiro dos seus cabelos estavam a ficar pior que mar bravio. Desligou e disse-me:
- Eu não quero morrer!
Uma enfermeira de coração de ouro, olhou para ele, ajeitou-lhe o lençol com um safanão e respondeu no mais puro sotaque nortenho (apesar de estarmos no sul):
Deixa-te de parvoíces! Aqui ninguém morre. E a partir de agora, eu sou a tua mãe, a tua tia e a tua avó. Vá, toma lá o soro e cala-te.
Tudo preparadinho fomos para o Bloco Operatório
A anestesia fez efeito e o Robert apagou. Quando acordou na sala de recuperação, ainda meio grogue, olhou para o lado e viu que a promessa da enfermeira era literal. 
Então, campeão? Já acordaste? — disse o Joaquim, assistente operacional, mais eficiente no trato que muitos de nós em bom a inglês a prometer-lhe gelatina de morango mal tivesse ordens para isso. Entrei no quarto e disparei:
- Correu bem. O teu apêndice já era. Agora é que vais ver o que é bom, o pessoal tratam-te como um príncipe.
Nos dois dias seguintes, o isolamento do Robert transformou-se num fenómeno social. Como o estrangeiro do apêndice estava sozinho, o pessoal do hospital adotou-o. Eu passava a manhã para falar de surf e ondas, o enfermeiro da noite explicava-lhe onde comer as melhores amêijoas na zona, e as auxiliares entravam no quarto para lhe ensinar palavrões em português para ele usar "quando voltasse à noite.
Quando finalmente teve alta, o Robert estava quase triste por ir embora. Não tinha família de sangue por perto, mas saiu do hospital com uma cicatriz nova, três receitas médicas, o contacto de Instagram de metade da equipa de enfermagem e a certeza absoluta de que, em Portugal, até uma cirurgia de emergência sozinho acaba com sabor a almoço de domingo em família.


Sanzalando

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