recomeça o futuro sem esquecer o passado

27 de julho de 2026

fui ao Cardin

Ir à discoteca hoje em dia é um acto burocrático: bilhete e dinheiro no telemóvel, QR code, roupa pensada para o Instagram ou tic-toc e a garantia quase absoluta de que ninguém vai pedir a identificação se parecerem ter mais de doze anos. Mas há cinquenta anos, pouco mais ou menos, meus amigos, entrar numa discoteca aos 14 anos era um desporto de alta competição, uma operação militar de camuflagem e, acima de tudo, um milagre.

Estamos em 1972. O ar cheirava a liberdade mesmo que não tivéssemos noção de isso, a vinil quente e comprado no estrangeiro e a uma quantidade industrial de perfume aplicada com a generosidade de quem tenta esconder o cheiro a tabaco feito às escondidas no wc.

Para um miúdo de 14 anos nos anos 70, a preparação começava logo à tarde. O objetivo era um só: parecer ter pelo menos 18 anos. O problema é que, aos 14 anos em 1972, ou se parecia um miúdo de catequese ou uma tentativa falhada de vocalista dos Bee Gees.

O "equipamento de combate" era sagrado: as calças à boca de sino, tão largas no fundo que varriam o chão da rua e funcionavam como aspiradores naturais de poeira; os sapatos de sola dupla: O grande truque arquitetónico da época, ganhavam-se cinco centímetros de altura instantâneos, à custa de um equilíbrio digno de um equilibrista de circo; a camisa de gola em bico e mil flores.

O toque final? Pentear o cabelo com a força de mil tempestades para criar aquele volume estiloso que dava a ilusão de uma maturidade que a voz ainda a mudar a meio da frase teimava em trair. 

Chegar à porta da discoteca era o momento de pico de adrenalina. Não havia scanners nem detetores de metais. Havia apenas o Porteiro. Uma figura lendária, de braços cruzados e bigode austero, que olhava para a fila com o desdém de quem já viu de tudo.

A tática era simples: engrossar a voz, treinava-se no caminho um "Boa noite, chefe" em tom grave, na esperança de não soltar um "grito de frango" a meio do cumprimento; atitude de tédio, caminhar como se aquela fosse a quinta discoteca da noite e estivéssemos apenas a fazer um favor ao dono em entrar; a camuflagem do grupo, que era  Colocarmo-nos estrategicamente atrás do amigo mais alto que já tinha buço desde os 12 anos e parecia ter idade para pagar imposto.

Quando o porteiro fazia aquele gesto lento com a cabeça a autorizar a passagem, o coração dava um salto maior do que quando o cavalo do carrossel parecia atirar-nos carrossel fora. Estávamos dentro. 

Lá dentro, o cenário era mágico. A bola de espelhos girava no teto, projetando pontos de luz que dançavam ao ritmo do disco da música pop que dominavam os tops da altura. O fumo denso das máquinas, que não me lembro se havia, confundia-se com o fumo real dos cigarros, sim, dançava-se no meio de uma névoa espessa.

E o que se fazia na pista?

Anos 70 não tinham o "abanar de ancas" moderno. Tinha-se o passo base: dois passos para a esquerda, dois passos para a direita, apontar o indicador para o tecto e olhar para o chão com ar concentrado, como se estivéssemos a procurar uma moeda de cinco escudos perdida.

Se tocasse um "slow", o momento de todas as decisões, o pânico instalava-se. Convidar a rapariga da turma para dançar exigia mais coragem do que subir ao da Chela. Se ela dissesse que sim, a distância de segurança entre os dois devia ser mantida sob o olhar atento de algum adulto no bar, enquanto nos deslocávamos em círculos lentos, rezando para que a música durasse pelo menos três minutos mais. 

Às onze da noite — sim, às onze! —, o encanto quebrava-se. Não por ordem da discoteca, mas porque a mãe tinha sido clara: "Se não estás em casa às onze e meia, nunca mais sais!".

Saíamos da discoteca com os ouvidos a zumbir, os pés a arder dos sapatos de plataforma e a roupa a cheirar a uma mistura de fumo e colónia barata. Voltávamos a pé, a rir baixo pela rua fora, sentindo-nos os verdadeiros donos da noite.

Tínhamos 14 anos, não tínhamos telemóveis para filmar a festa, mas trazíamos no peito a certeza absoluta de que, naquela hora e meia de pista, tínhamos sido os tipos mais adultos e cheios de estilo do planeta.



Sanzalando

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