Me sento, já não com a sebenta de capa encarnada mas frente ao computador. Haverá no mundo desgraça maior do que a página em branco duma tela a cintilar para mim? Aquele cursor a piscar, implacável, como uma lombriga vertical à espera que eu o faça avançar à frente de letras. Ele pisca mas não avança. Olho-o como que hipnótizado e ele nada, melhor, pisca. Durante séculos, um escritor sofria em silêncio, fumava cigarros baratos, bebia café frio ou vinho de fraca qualidade, amassava papéis e culpava a musa inspiradora pela esterilidade mental de uma terça-feira ventosa. Hoje, o sofrimento acabou, temos a Inteligência Artificial, essa grande colega que nunca dorme, nunca reclama e finge que acha os nossos pensamentos profundamente originais.
A verdade nua e crua é que a Inteligência Artificial veio democratizar a preguiça mental. Antigamente, para ser um preguiçoso de elite, exigia-se algum talento, era preciso inventar desculpas mirabolantes para não entregar o trabalho, adiar prazos com pretextos vagos ou simplesmente olhar para o teto durante três horas seguidas à espera de uma epifania que nunca vinha. Agora, não. Basta abrir uma janela do computador, escrever "escreve aí uma crónica sobre a minha inércia existencial com um tom espirituoso" e ir ver se o vento acalmou. Uns segundos depois, temos um texto impecável, polido, cheio de metáforas sobre o vazio cósmico e sem um único erro ortográfico. É obra. Nem uma letra trocada, nem uma vírgula num deserto plantada, só travessões e dois pontos, como quem semeia trigo num campo de letras. Ou será joio?
O problema é que este atalho está-nos a transformar em caracóis intelectuais. Se continuarmos a delegar o esforço de juntar sujeito, verbo e predicado a um servidor localizado num armazém gelado na Conchichina, que não sei bem onde fica, mas deve ser lá para os lados do fim-do-mundo, daqui a uns anos o nosso cérebro vai atrofiar ao ponto de só conseguirmos comunicar através de grunhidos e polegares levantados ou emojis préviamente desenhados. O ser humano evoluiu a caçar mamutes, bisontes, a inventar a roda, a criar uma linha de montagem mas o cume da nossa evolução vai ser a admirável capacidade de carregar na tecla Enter para que uma máquina faça o esforço por nós.
Ironias à parte, há algo profundamente poético nesta simbiose entre a nossa preguiça ancestral e a alta tecnologia. A máquina oferece o engenho e nós oferecemos a nobre arte de não fazer nada. Juntos formamos a equipa perfeita. E se me perguntam se fui eu que escreveu este texto ou se recorri a um algoritmo, respondo com a honestidade que me caracteriza, deixem-me ir ver o que a inteligência artificial tem a dizer sobre o assunto, porque pensar dá um trabalho terrível e como ainda não acabou o verão, não trabalho para aquecer.
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