recomeça o futuro sem esquecer o passado

14 de abril de 2011

nostalgicamente ÁRTHEMIS


Sanzalando

e eu disse não até dizer sim

Ainda não sei porque é que eu carrego no peito tanta saudade de ti. Eu sei que é encantador, bonito e tão cheio de esperança... mas que me entristece no momento de te pensar. Eu sei que é a minha gasosa, a minha força, o meu balanço. Eu sei que é única maneira que tenho de ter-te, neste momento, é no peito. Vou fazer mais como então? 
Me disseram acaba com isso e isso seria acabar comigo e eu disse não.
Me disseram afoga a saudade numa tina de esquecimento e eu disse não.
Me disseram que chorasse todas as lágrimas até sangrar e eu disse não.
Me disseram que o mar de lá já não é o meu mar e eu disse não.
Me disseram tanta fantasia e eu realizei-me de memória e disse que sim.


Sanzalando

13 de abril de 2011

MOMENTOS


Sanzalando

definitivo complicativo composto.

Caminhando sobre a areia numa levitação mental, paralelo ao mar que transpira silêncios e serenidades, recuso-me a dizer chega. Nunca me conformei com um fim mesmo que eu achasse que tinha chegado a hora. O acabou sempre me pareceu um definitivo complicativo composto. É sempre melhor catalogar como adiado indefinidamente ou parado até um qualquer dia de nunca. Assim consigo dormir sorrindo, acordar cantarolando e esperar que um dia o dia tenha fim definitivo e sem eu dar por ele, sem adormecer sorrindo e sem me acordar para se despedir.
O fim, o acabou, parece-me demasiado triste, parece-me uma corrida em que corro sem me mexer, uma tempestade em céu azul, uma revolta do mar num planalto imaginário. É um pavor calmo que me faz sentar na cama para apagar um pesadelo e poder voltar a dormir de sorriso na cara.
Caminho na praia, levitado sobre um fim que adiei eternamente ou não, tudo depende do tempo que terei para não chegar ao fim, esse definitivo complicativo composto.
Ainda não cheguei ao fim de um acabou. Por agora.


Sanzalando

12 de abril de 2011

Diálogos a uma voz


Sanzalando

aqui sentado

Por aqui sentado, olhando o zulmarinho e confabulando cenas dum filme de vida ou a vida dum filme, procuro as ruas que vão dar a um sorriso que brilhe tanto que chegue para me iluminar a alma empenada numa encruzilhada que faz tempo eu nem me lembro mas que me disseram que me apagou o sorriso.
Aqui sentado, ao ritmo do marulhar, procuro palavras que me levem ao coração ofendido um pedido de desculpas que se apague o retalho nostálgico duma vida que passei ao lado.
Aqui sentado, refrescado pelos salpicos lacrimejantes das ondas, penso mudar de vida em que tu não estejas distante e que o teu mar seja este que eu aqui sinto vontade enorme de abraçar como se fosse uma criança perdida no tempo de crescer que faz tempo perdi o tempo.
Aqui sentado, no meu eterno silêncio de falar contigo, me lembro de te olhar esquecido de mim.


Sanzalando

11 de abril de 2011

UTOPIA


Sanzalando

na praia

Esta não é a minha praia e nem é uma praia que eu conheça. Mas hoje não posso estar na minha praia nem em praia nenhuma que conheça. Hoje apenas posso sonhar com uma praia e por isso penso numa qualquer mas vejo apenas a minha praia. Vejo a mar azulzinho a rebentar devagarinho e se espraiar na areia com doçura, molhar os pés dela e eu a nadar até à jangada onde vou mergulhar os saltos mortais e encarpados que nunca dei na vida, mas que darei hoje porque hoje apenas posso sonhar com a praia e já agora aproveito a minha para sonhar os meus impossíveis todos. 
Eu a nadar como se fosse um experimentado e não um quase afogado nadador. 
Eu a mergulhar num perfeito estilo, quando na realidade mergulho baixinho, de pé e tapando o nariz.
Eu a olhar o biquini azul que de lá da toalha colorida me olha como que a pensar quando é que eu vou acabar com as piruetas seguidas de estatelado.
Eu a gargalhar na jangada.
Afinal de contas hoje nem posso ver o mar.

Sanzalando

10 de abril de 2011

para além

Me recosto na areia da praia neste dia de primaveril verão ou verão primaveril. Em resumo, que é para eu não me tropeçar nas palavras que quero usar para te dizer que está sol mas está fresco. Vim para a praia que é aqui que eu me reencontro, me revejo e te falo diálogos de memória e se tiver que gritar para me ouvires eu lhe faço e se alguém me perguntar se louquei eu vou apenasmente dizer que estou a ver se as ondas do mar fazem eco como eco fazem as nossas montanhas do nosso deserto, e assim despensam esses absurdos de mim.
Mas aqui recostado hoje tenho umas coisas para te dizer, para além de te dizer que hoje chove dentro de mim, para além dessa chuva miúda que chamam de saudade e que se me chove sempre, hoje pintei-te um quadro na minha memória, cores garridas, árvores floridas que tanto podem ser acácias como outras quaisquer que eu não sou exigente, mas sei que não são casuarinas porque nessas eu nunca lhes vi flor. Nesse quadro de cores garridas, para além de parecer estar sol, está aquele tipo de dia que chove para se ver melhor, chove para assentar poeira e eu te ver com maior nitidez.
Aqui recostado me olho nos teus olhos rebuscados na imaginação para além de ter ver te viver.

Sanzalando

7 de abril de 2011

sentado por aqui, parte finita

Sentado no fundo da alma, olhando o mar que lacrimejo, sinto que deve haver um lugar onde o amor nunca acaba. Pelo menos eu faço um esforço para manter a minha cara de ar sorridente e gente feliz quando te penso, quando te desejo e quando te vejo de memória. A minha vida e o meu sonho têm o mesmo valor desde que eu esteja com a memória virada para ti nesse lugar onde o amor nunca acaba.
Sentado por aqui, julgando-me esperto, mais sabido que a sabedoria, mais maduro que o conhecimento sou o somatório do medo que este amor acabe e que um dia te olhe como quem olha para um infinito desconhecido.
Sentado por aqui, vou à memória buscar o teu perfume, calor e até um sabor amargo de desprezo. 
Sentado por aqui continuo a sentir que mesmo assim esse amor não vai ter fim apesar de talvez eu achar que tu nunca soubeste da minha existência e persistência.
Sentado por aqui, no fundo da alma, olhando o mar que lacrimejo, olho-te com sabor a desejo.


Sanzalando

6 de abril de 2011

rompimento com o esquecimento

Abri as cortinas na minha memória duma forma abrupta que até parece eu queria rebentar com elas. Ou comigo, que seria a mesma coisa no caso. Acho me pareceu eu estar com falta de ar e fui assim brutamontemente abrir espaço e poder olhar mais além. Mas a memória afinal é limitada e tem coisas que só assim numa aguarela de vagamente se consegue perceber que ali existia qualquer coisa. Mas mesmo assim procurei ver mais além, rebusquei estantes que teiavam perfumes mofos, e nem uma imagem mais clara consegui ver. Afinal de contas eu apenas queria ver o teu sorriso e já me estou a esquecer como é que ele é, ou era. Acho vou ter de levar na lavandaria essas cortinas ou comprar nova memória, mesmo que seja numa segunda mão e rebuscar memórias alheias, enquanto isso vou ouvir no meu radio de pilhas as músicas que ele me quer dar e sonhar memórias futuras de manhãs de cacimbo.


Sanzalando

5 de abril de 2011

hoje teve um hoje

Nesta praia de descanso mental e areal de assentos, virgulas e pontos, que me invento em cada vez que aqui paro, me deixo embalar naquilo que em perfeito juízo eu jamais diria, pensaria ou falaria. 
Hoje, carregado de palavras soltas, tricoto frases que troco à distância em que nos encontramos, sem as pensar, filtrar ou apenasmente soletrar. Falo-te como se estivesses aqui a ouvir-me num escutar atento, como que a querer marcar o espaço que nos ocupamos, como que a dizer-te para pensares em mim numa constante obsessiva, matraqueada de saudade e coberta de nostalgia.
Hoje, recheado de certeza que o teu amor se me abraçou com a fortaleza que imagino, aguardo apenas o teu sorriso, uma tua palavra ou um pequeno aceno como se fosse o último.
Hoje, na praia da minha imaginação, me sento e te aguardo como sempre tenho feito, embrulhado em palavras, imagens de memória e olhos em ti à espera de ver o sonho que em perfeito juízo jamais sonharia.
Hoje, carregado de amor, olho o mar como sempre o olhei e me embalo no dançar das ondas.


Sanzalando

3 de abril de 2011

sentado por aqui

Sentado numa pedra desta praia, que imaginei, me pergunto se no dia em que nos reencontrarmos eu te perguntarei se valeu a pena ter sofrido tanto, se tu me esqueceste na exacta proporção que eu te implorei, se a tua ausência é puro fingimento carregado dum faz de conta só para bancar é forte que nem preciso verter uma lágrima que ele me rasteja?
Sentado numa pedra desta praia, que inventei, relembro a areia branca onde te deitas bronzeando o teu bronzeado corpo redondo esculpido pelo deuses e me pergunto como é possível que ainda haja quem me suporte ouvir falar-te como se estivesses aqui onde as ondas do mar rebentam e se espraiam na areia que circunda esta pedra inventada.
Sentado por aqui, sufocado pela dor da saudade, imagino ver-te implorar para que eu não me afaste de ti.
Sentado por aqui imagino-me a encostar-me no teu ombro como se tu estivesses estado sempre aqui, nos momentos bons e nos maus que eu tive, nas horas que te esqueci e nas noites longas em que o meu túnel era mais longo que a luz que tu me podias mostrar.
Sentado por aqui vejo esbatido um tempo chamado de perdido que pintei com palavras cinzentas e aguarelei com lágrimas por caminhos que esqueci.
Sentado por aqui imagino que o tempo muda tudo mas me engano, apenas envelheço, o resto tem de ser feito e um dia ele vai ser feito e se vai misturar na água desse mar que se espraia por aqui na praia que eu inventei.

Sanzalando

2 de abril de 2011

sonhei e agradeço

Por um momento sonhei. Acho foi um instante que durou a noite inteira porque acordei parecia ainda não tinha dormido. Estava cansado mas sorria. Por um instante sonhei e sorri. É, eu sonhei que tu tinhas me dado importância, te recordaste de me olhar e me chamar. É, eu deixei de ser apenas mais um, números tantos que te procuram. Já contavas comigo e isso seria meio caminho para me teres. 
Foi um instante que durou o tempo de eu me despedir e ver gente infeliz com lágrimas a me ver partir, outros felizes por me reverem. E eu sorria de boca e olhos.
Afinal de contas foi apenas um sonho que durou um instante, momento de ver que eu não estava preparado para outra vez, assim na paixão de começar dum novo zero. Foi um sonho que me fez sorrir e quando acordei ainda sorria e o dia passei-o a sorrir. Sonho que te agradeço porque não sonhei que me tinha untado de azeite, que tinha saltado do abismo, que tinha mergulhado no mais fundo dos fundos oceânicos. Sonhei contigo a chamar-me, e pelo nome. Ainda sorrio enquanto te espreito por um canto da memória.

Sanzalando

1 de abril de 2011

tem dias e outros

Saltitando dias cá vou aparecendo. Umas vezes transportando carradas de nostalgias, outras, paletes de raiva e outras ainda sem nada na alma como se alma penada fosse, noutros, que chamaria de dias sim, parece que acordo com um sorriso no corpo e os lábios balbuciam palavras doces mesmo quando se mantêm em silêncio e nos dias não, outros dias de mim, o suor nocturno me afoga num lago de imaginação vazia.
Tudo depende do dia, destino predestinado dum acaso tirado à sorte. Tem dias.
Tem dias que caminho pelas areias do deserto tentando conter a ânsia que me devora nos delírios febris duma qualquer doença instalada num coração marcado.
Tem dias em que viajo de alucinação em alucinação até que dou comigo a chorar-te nos braços que imagino me abraçam.
Saltitando dias cá vou aparecendo na esperança de ver o teu pôr de sol instantâneo momento de prazer imaginário.

Sanzalando

30 de março de 2011

às vezes tem vez

Caminho na minha linha de vida, umas vezes traçada por mim, outra ziguezagueada por destinos, não querendo ser juiz ou réu, apenas vivendo um dia de cada vez, aceitando as pessoas ou a mim mesmo tal e qual somos. Mas tem dias que a linha se apaga e o improviso impera, cresce a falta de espaço, a falta de tempo, falta a paciência e chego a ser o meu pior inimigo e reinvento o ódio amargo de boca, torresmo duro de indigestão.
Depois, no calar dum pôr de sol, retorno-me ao regresso do dia a dia e sorriso no rosto canto aleluias no silêncio duma voz que não sabe cantar, entro na linha, que às vezes é desenhada por mim e outras vezes ziguezagueada por destinos sem que eu seja vítima, sem que eu verta lágrimas fáceis, sem que eu tenha medos.
Caminho para lá dos Andes, Himalaias, Pirenéus, Alpes ou Kilimanjaro, mas quase sempre na linha que eu tracei sobre valores presentes assentes no passado.
Caminho à vez por carreiros de formigas ao som das cigarras num regresso a mim de sabores presentes como quem caminha certo, absoluto e com destino traçado num ziguezague de tempos perdidos e apagados da memória.
(Hoje vou na Kipola dizer adeus a Março)



Sanzalando

29 de março de 2011

hoje tintei-me

Me sentei na areia solta desta praia de vento e em sacrifício meditei. 
Hoje escolhi o dia para me autoflagelar mentalmente. Não cozinhei para ti, não te disse os bons dias, não decorei nenhum recado para ti e não atendi os teus telefonemas. Fiz-me de contas que não contavas e nem me lembrei de te comprar flores nem de inventar jogos para jogarmos na solidão dum fim de tarde.
Hoje não me existes, não sei a cor do teu sorriso, a cor do teu crepúsculo nem a cor da tua cara quando deres conta de tudo isto. Tintei-me em ti hoje e vou comer chocolate, lambuzar os dedos e saltar os muros das minhas prisões.
Hoje me sentei apenas comigo para me prometer ser ainda melhor, para mim.

Sanzalando

26 de março de 2011

hoje ensurdei-me em silêncios

Arrepios de frio, vento bate forte parece quer levar-me com ele, mas ele não sopra para sul mas sim de sul. Invernei-me num repente quando me mentalizei que ia receber o calor. Por isso amuei-me comigo e calei-me atrás dos vidros da janela que dá para lugar nenhum. Gritei-me até desaparecer a voz e mergulhei-me em silêncios mudos que me ensurdessem a alma.
Afinal é Sábado num pais do norte e não tive pachorra de acordar para gastar o dia com vida, gasto-o sornamente num silêncio surdo como o tempo.

Sanzalando

25 de março de 2011

eu e o meu rádio de pilhas

Ligo o meu rádio de pilhas numa estação à toa. Parei nesta porque está a dar uma canção que lhe gosto. Não sei o nome de quem lhe canta mas sei que se chama Because I Love You, porque ele diz isso muitas vezes e eu me delicio a ouvir. O meu rádio de pilhas não tem ecran para ler o nome das músicas, nem o ano nem nada. Tem mesmo só um botão que se chama volume e outro que diz tunning. Mas dá para me acompanhar nos meus silêncios. E eu ouço Because I Love You e voei de pensamento em pensamento e imaginei um confabulação cósmica que me criou até viver este momento em que ouço o meu rádio de pilhas. Olho para trás e vejo o caminho que percorri, algum do muito lá para trás está tão nublado que quase esqueci mesmo como é que foi esse caminho. Olho para a frente e não tem caminho. Quer dizer que eu vou ter de caminhar e inventar o caminho para andar? Só poder ser confabulação misteriosa dum texto escrito e não lido que me deram para viver.
O meu rádio de pilhas mudou de música e agora toca uma que não tem letra e eu não faço a mínima que é que está a tocar e continuo a deixar-me levar nas ondas do pensamento confabulado até ao sentido de responsabilidade que é eu ter de escolher a minha vida. Acho mesmo vou só ficar de olhos abertos e deixar o caminho se fazer à minha frente enquanto eu ando.



Sanzalando

24 de março de 2011

ar gingão

Me apresentei com o meu melhor ar gingão, fato de domingo, novo de acabado de passar a ferro, colei na cara um ar de quem sabe para onde quer ir e como o quer fazer e entrei no gabinete. Cumprimentos de circunstância e ar de quem quer distância. Me mandaram sentar. Falei as respostas das perguntas feitas parecia eram tiros de metralhadora. O ar de decisão estava colado na cara parecia era cola de sapateiro para nunca mais descolar. Opinei opiniões de ensaios feitos no espelho. Ouvi com os ouvidos mais atentos do mundo. Acenava sim e não com a cabeça, mostrava estar mesmo a par de todas as palavras ouvidas e ditas pela minha voz firme.
O meu ar gingão estava a ganhar peso na conversa, me soltava a língua e já dizia não com as palavras certeiras de quem não quer nem perder tempo.
E o tempo passou que nem relógio parece ter tido tempo de lho marcar.
Quando o meu ar triunfal se levantou para o aperto de mão de despedida quase caiu no chão, num estrondo ouvido lá para os lados dos morros o azuis. Me disseram num soletrar bem audível que sim mas não era nem preciso.
O ar gingão entrou no saco, a cola se descolou e a vida continuou num viver à espera que o tempo tenha tempo de ter um relógio a marcar a hora.

Sanzalando

22 de março de 2011

a nossa praia

Sonhei na praia um sonho em que tu paraste para pensar em mim. Estava sol como está sol nesta altura na nossa praia. O mar, um pouco castanho da chuva que teima em cair furiosamente lá nos altos morros, estava calmo como não costuma estar nestas alturas na nossa praia. Os mapundas que agora têm que dar a volta pela estrada velha, já não vêm à nossa praia porque arranjaram outras praias um pouco mais a norte e nos deixam esta só para a gente.
Ai, acordado num repente me pergunto onde estou. Sonho lindo docemente sonhado e tristemente acordado. Sonhei com a nossa praia onde não estava a nossa casa porque nunca tivemos uma casa, muito menos uma casa de praia.

Sanzalando