Chegar aqui já é uma vitória digna de um troféu, mesmo que o troféu seja apenas um desconto de sénior no cinema, nos transportes públicos ou a capacidade de prever a chuva através de um joelho, cotovelo ou anca. Para ir mais longe e com o espírito intacto o segredo não está em esconder as rugas, mas em transformá-las em linhas de leitura de uma boa comédia.
Aqui estão algumas estratégias para esticar a longevidade com um sorriso no rosto:
Ir mais longe exige leveza. Se me lembro onde deixei as chaves ou o nome daquela pessoa que o cumprimentei na rua, não é velhice, é o meu disco rígido a apagar ficheiros inúteis para dar lugar a coisas mais importantes, como a letra de uma música dos anos 70 ou a receita perfeita de uma moamba ou de um arroz de ligueirão. Já que agora sei ligar o fogão sem ter medo que ele exploda. Quando me esqueço de algo, digo apenas que estou a fazer uma curadoria mental de alto nível.
Se o corpo pede movimento, dou-lhe algo que não pareça uma sessão de tortura medieval. Actividades como o pickleball ou a petanca são geniais porque permitem socializar enquanto se finge que se está a queimar calorias. O objetivo não é ser o próximo campeão olímpico, mas sim garantir que consigo baixar-me para apanhar a bola sem emitir um efeito sonoro de dobradiça velha, tipo crocância de um folhado a estalar.
Dizem que devemos comer verdes. Um copo de um bom tinto do Alentejo ou do Douro vem da uva, que é tecnicamente um fruto, que se for tinto já foi verde. Uma boa crónica à mesa, rodeado de amigos e de uma conversa que se prolonga até ao café, alimenta mais a longevidade do que qualquer suplemento de farmácia. O humor é o melhor digestivo.
O que nos envelhece não é a passagem dos anos, mas sim a frase no meu tempo é que era bom. O segredo para ir mais longe é olhar para o presente com um olhar crítico, mas divertido. Seja a criar um programa de rádio, a escrever sobre o património ou a descobrir novos autores, mantenha o cérebro ocupado a tentar perceber como funciona a última aplicação de telemóvel nem que seja para decidir que não a vai usar. Este também é o meu tempo.
A gravidade é uma força implacável que me verga o corpo pelas costas, mas o riso é uma força de levitação que me eleva o queixo. Se o médico me dissesse que tenho de caminhar mais, caminharia até à pastelaria mais próxima. Se os amigos dizem que estou vintage, aceito o elogio, as coisas vintage são as mais valiosas e as que têm melhores histórias para contar.
No fundo, ir mais longe é uma questão de ritmo. Como numa boa rádio, não importa apenas o tempo de antena, mas sim a qualidade da emissão. Se mantivermos a sintonização no canal que dá programa para pensar e boa música, a viagem torna-se muito mais curta, mesmo que dure cem anos.
Como tem sido a minha experiência em equilibrar a nostalgia de outros tempos com as novidades que o presente me traz no dia a dia de agora?
Vou pensar nisso. Mas agora vou escolher a música.
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