recomeça o futuro sem esquecer o passado

12 de maio de 2026

eu na esplanada

Diz-se na minha terra que não há inverno, há cacimbo. É uma distinção semântica importante. O inverno é uma estação, o cacimbo é um estado de suspensão. É aquele momento do ano em que a cidade acorda dentro de um tubo de vapor de água frio e o ar decide que já não quer ser gás, quer ser líquido, mas sem o compromisso de se tornar chuva.

Ontem, cometi o erro romântico de querer tomar um café na esplanada. O boca de sapo podia estar a passar e eu queria acompanhá-lo com o meu olhar. Adolescente gosta de ver.

Sentei-me com a confiança de quem desafia a física. O empregado, com aquele olhar de quem já viu impérios caírem e clientes ficarem com reumatismo precoce, passou um pano pela mesa. Foi um gesto meramente simbólico. Dois segundos depois, a superfície da mesa brilhava novamente, acumulando uma película de água que nem lamela de laboratório que parecia decidida a reclamar o território.

Pedi um café. Quando a chávena chegou, vinha acompanhada de uma pequena nuvem privada e uma torre de fumo mais denso que o habitual.

Beber café no cacimbo é uma corrida contra a termodinâmica. Se bebes depressa, queimas a língua; se esperas um minuto, o café não só arrefece como ele dilui-se. O ar está tão saturado que a chávena começa a ganhar volume. É o único lugar do mundo onde o café rende por geração espontânea de humidade.

À minha volta, a fauna urbana tentava manter a dignidade. Havia o senhor de balalaica, que começou a crónica matinal como um lorde e, dez minutos depois, parecia que tinha atravessado o Atlântico a nado com a roupa no corpo. O linho e o cacimbo são inimigos mortais; o tecido absorve a neblina até que a pessoa pesa mais três quilos do que quando saiu de casa.

Depois há os óculos. Ah, os óculos no cacimbo! É o fim da visão periférica. Limpas a lente com o guardanapo que já é uma massa mole de celulose húmida, colocas os óculos e, na primeira expiração, o mundo desaparece num branco leitoso e meias denso que o próprio cacimbo. Desisti de ver. Passei a guiar-me pelo som das buzinas distantes e pelo tilintar das colheres nas chávenas vizinhas.

Mas há algo de profundamente desértico nesta teimosia. O sol pode estar escondido atrás daquela cortina cinzenta, o humidade pode estar a transformar o nosso pão numa esponja morna, mas a esplanada é sagrada. Ficamos ali, mergulhados na bruma, a fingir que não estamos a tiritar ligeiramente, comentando que hoje o tempo está mesmo fechado, mas ela vai passar não tarda..

No final, paguei e levantei-me. O meu lugar na cadeira ficou marcado como uma silhueta seca num deserto de humidade. Saí dali com o cabelo em modo empastado total e a alma lavada literalmente. No cacimbo, não se toma apenas um café; recebe-se um baptismo de orvalho, cortesia de uma cidade que, por uns meses, decide que quer ser Londres, mas com palmeiras e muito mais suor frio.

Fiquei em pé na esquina e o boca de sapo não passou.

Sanzalando

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