recomeça o futuro sem esquecer o passado

16 de maio de 2026

fui a um bar em fim de tarde

Eu considerava-me o Shakespeare do Facebook. Não usava frases batidas. Não, estudava o ambiente. Ser adolescente sério dava trabalho. 

Certo fim de tarde, num bar sofisticado, eu avistei-a. Ela lia um livro de capa dura e bebia um vinho tinto. Tinha classe, tinha charme. Ajustei pulóver mesmo estando perto dos 25 graus, aproximei-me com o meu melhor sorriso de intelectual misterioso e disparei:

- Sabes... é um crime ler algo tão profundo num sítio com luz tão fraca. Estás a arriscar a tua visão, e o mundo não merece perder o brilho desses olhos por causa de um par de óculos precoces.

Ela baixou o livro devagar, olhou para mim de cima a baixo, tirando as medidas e respondeu-me:

- Na verdade, eu sou oftalmologista. E isto que estou a ler é o menu das sobremesas, que está dentro desta capa de couro porque o bar é fino.

Bem, sem perder o ritmo, tentei recuperar:

- Ah! Uma médica! Perfeito. Porque eu acabo de sentir uma arritmia cardíaca só de te ouvir falar. É grave?

Levou o copo à boca e deu um gole no vinho, fechou o "livro" e disse:

- Como médica, o meu diagnóstico é que tens um caso severo de excesso de confiança sem base científica. Mas como cliente deste bar, o meu diagnóstico é que o teu pulóver está a entrar dentro do meu copo de vinho.

Concluindo, não consegui o número dela, mas ganhei nódoa cor-de-vinho e a lição de que, às vezes, o melhor é apenas perguntar se a mousse de chocolate é boa.


Sanzalando

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