Aos 69 anos e alguns meses, a gente começa a olhar para o espelho e para o Bilhete de Identidade com uma mistura de respeito e dúvida. Chegar a esta fronteira não é para amadores; é uma maratona onde os quedes, ténis ou sapatilhas, foram trocados por sapatos ortopédicos de sola macia, e a meta parece sempre um pouco mais distante porque, aos 70, a gente para a meio do caminho para perguntar: O que é que eu vinha fazer a este quarto mesmo?
Dizem que a vida começa aos 40. Mentira. Aos 40 a vida dá-nos um estálo para acordarmos. Aos 70, ela dá-nos um abraço apertado com muito carinho, como convém, por ter cuidado com as costelas.
A minha trajetória até aqui foi feita de mais quases do que certezas, e é aí que reside o humor da coisa. Quase fui um atleta de alta competição, não fosse a minha crónica incapacidade de ver uma esplanada e não me sentar, de ver um banco frente ao zulmarinho e me perder a meditar. Quase fui um monge budista, mas a dieta do silêncio colidia frontalmente com a minha necessidade vital de comentar e gastar palavras desde o acordar.
As travessuras, essas, mudaram de figurino. Na juventude, envolveram saltar muros ou chegar a casa com o sol a bater na testa, tentando não acordar a D. Madalena. Hoje, a minha maior travessura é comer um doce escondido da patroa ou fingir que não ouvi o telemóvel para não ter de explicar a alguém como se grava um PDF ou se passa uma certidão de óbito digital. Há uma liberdade deliciosa em chegar a esta idade e usar o ah, esqueci-me como uma arma de arremesso legítima. É o nosso cartão de saída livre da prisão do velhinho jogo do Monopólio.
A memória é outra fonte de comédia. Tornei-me um perito em arqueologia doméstica. Procuro os óculos que estão na testa e as chaves que estão na minha mão. Às vezes, entro numa sala com tamanha determinação que pareço um general a planear uma qualquer invasão, apenas para ficar parado a olhar para o candeeiro, com a mente tão branca quanto as paredes da sala, na busca de uma vaga lembrança do que ali me levou.
Mas o melhor de quase chegar aos 70 é a perda absoluta do medo de fazer figuras tristes. Se quero usar meias com sandálias, uso. Se quero rir sozinho de uma piada que ouvi em 1984, rio. Se decido que vou começar a aprender uma coisa perfeitamente inútil agora, como tocar harmónica ou colecionar rótulos de vinho, quem é que me vai impedir?
Chegar aqui é como conduzir um carro clássico com a chapa a precisar de polimento, o motor faz uns barulhos estranhos ao arrancar a frio e a suspensão já viu melhores dias, mas o prazer de percorrer a estrada, com o braço de fora e o vento na cara, é muito maior do que quando o carro era novo e eu não sabia para onde ia.
Venham os 70. Estou pronto para eles. Só espero que, no dia da festa, alguém se lembre de onde pus o saca-rolhas, onde guardei os óculos ou estacionei o andarilho.
Na verdade, ser incrédulo é ciência, porque antes eu imaginava que ter 70 era figura de ficção, era matéria da cadeira de História.
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