recomeça o futuro sem esquecer o passado

19 de maio de 2026

sucesso

Há pessoas que acordam de manhã com objetivos. Eu acordo com uma vaga intenção do tipo vamos ver no que isto dá e, pelos vistos, isso é meio caminho andado para o sucesso. Não porque eu seja particularmente brilhante, mas porque a vida, coitada, às vezes também se engana na morada.

Sempre desconfiei de quem tem planos a cinco anos. Eu mal tenho planos para até à hora do jantar. E, no entanto, lá vou acumulando pequenas vitórias involuntárias, um elogio que era para o colega do lado, um projeto que aceitei porque não percebi bem do que se tratava, uma ideia que tive por engano enquanto procurava outra completamente diferente. Se isto não é sucesso, é pelo menos uma boa imitação.

Descobri, com o tempo, que há um talento raro que é o de não atrapalhar demasiado o próprio caminho. É uma espécie de arte marcial passiva em vez de atacar, a pessoa não estraga o momento. E eu, modestamente, sou cinturão negro em não estragar o momento. Há dias em que a minha maior conquista é não responder a um email complicado. E, curiosamente, nesses dias, tudo se resolve sozinho. É quase como se o universo me dissesse deixa estar, não mexas, que assim está bem, e eu deixo.

Uma vez perguntaram-me qual era o segredo do meu sucesso. Fiquei comovido. Primeiro, porque não sabia que tinha um. Depois, porque senti que estava prestes a desiludir alguém com uma resposta honesta. Ainda pensei inventar qualquer coisa sofisticada do estilo uso de disciplina, atenção ao foco, dizer resiliência, que agora está na moda mas a verdade escapou-me e eu disse que tinha sido por distração.

A pessoa ficou a olhar para mim com aquele ar de quem esperava uma resposta científica e recebeu uma conversa de café. Mas é isso mesmo. O meu percurso é uma sucessão de já agoras que deram certo. Já agora aceito. Já agora experimento. Já agora fico. E quando dou por mim, estou no sítio certo, à hora certa, sem saber muito bem como cheguei ali o que, convenhamos, é uma excelente forma de viajar.

Claro que há riscos. Este método exige uma certa confiança no acaso, o que nem sempre é confortável. Às vezes o acaso falha, ou então acerta mas ao lado. E lá vamos nós, com ar sério, a explicar que faz parte do processo, quando, na verdade, o processo era não haver processo nenhum.

Mas há também uma leveza nisto tudo. Enquanto outros carregam o peso das metas, eu levo apenas a mochila das circunstâncias. E, sendo honesto, pesa muito menos. Talvez o sucesso sem querer seja uma espécie de sucesso em pantufas. Não faz barulho, não exige pose, e aparece muitas vezes quando já estávamos a pensar em desistir ou em ir fazer um café.

No fundo, acredito que o sucesso, como certos gatos, gosta de pessoas que fingem não estar interessadas. Aproxima-se devagar, instala-se no colo e, quando damos por isso, já faz parte da casa. E nós, que nunca o chamámos, ficamos ali, um pouco surpreendidos, a fazer festas, como quem diz: Pronto… já que aqui estás, fica. E o gato fica.



Sanzalando

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