Diz o mito que Deus baralhou as línguas em Babel para castigar a vaidade humana, e espalhou a confusão. Claramente, quem escreveu essa história lá nunca tentou pedir um café numa esplanada na Praia da Rocha ou em Alvor. Babel não foi um castigo, foi o ensaio geral para a cidade moderna.
Hoje, entrar num elevador ou caminhar pela rua é mergulhar numa polifonia absurda. À esquerda, discute-se o mercado num inglês nórdico; à direita, gesticula-se em espanhol; ao fundo, negoceia-se em mandarim e por cima voa um avião americano feito com chips da China e coisas da Coreia.
O verdadeiro milagre, contudo, opera-se numa cafetaria qualquer. Isto é, já não as há. Mas nos similares que têm nome pomposo onde antes se pedia um galão e uma torrada, hoje exige-se um flat white com leite de aveia e um avocado toast em pão de sourdough. O cliente, baralhado perante os hieróglifos do menu, tenta pagar com uma nota de dez euros. O funcionário, um jovem estrangeiro em ano sabático, olha para o dinheiro como se fosse um artefacto do Neolítico. MbWay please! Não partilham mais nenhuma palavra, mas a transação faz-se com um aceno de cabeça universal.
Na rua, a sinfonia ganha rodas. Condutores de Uber guiam-se por vozes robóticas, turistas em trotinetes gritam "Sorry!" enquanto galgam passeios, e ciclistas tentam explicar por gestos que a ciclovia não é uma passadeira.
Se o plano original de Babel era separar-nos pela incompreensão, falhou redondamente. A cidade moderna criou a sua própria língua franca: o desenrascanço. É o idioma de quem se entende por mímica, sorrisos e Google Maps ou Waze.
A nossa torre contemporânea continua de pé, tem Wi-Fi e não cai. No fundo, descobrimos o que os babilónios esqueceram: para conviver, não precisamos de falar a mesma língua. Só precisamos de partilhar o mesmo espanto por estarmos todos no mesmo caos.
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